Ásia Oriental
Boletim trimestral de informação económica sobre a Ásia Oriental
vol. 2; nº 1; 1º Trimestre/1998

Edição do CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento

(continuação)

Comentário



"Relatório e Contas" da crise asiática



Aproveitando o facto de ser época de publicação do "Relatório e Contas" das empresas relativos a 1997, resolvemos voltar ao tema da crise asiática para dela dar uma perspectiva próxima das que constam usualmente daquele tipo de peças contabilísticas e dos Relatórios que as acompanham.
Quanto às Contas, é quase impossível apresentá-los, tal a enorme diversidade de rubricas a considerar e a dificuldade em pôr de acordo os "contabilistas" quanto aos critérios da sua avaliação. Por isso deixamos aqui apenas a indicação de que em alguns países --- nomeadamente a Tailândia, a Malásia, a Coreia e a Indonésia --- a quebra das taxas de câmbio e das cotações das bolsas de valores foi de tal ordem que se perdeu uma percentagem muito significativa da riqueza e do rendimento nacionais. Estima-se, por exemplo, que o PIB per capita da Coreia terá baixado cerca de 30% se medido em US$!
Mas o que mais nos interessa neste momento é fazer, tal como nos Relatórios, alguma prospectiva em relação ao futuro próximo.
Uma vez a crise instalada, talvez a principal questão que se coloca é saber para quando uma recuperação da situação. Quanto a isto, não existe um verdadeiro consenso, havendo os que consideram que o ano de 1999 vai ver já a primeira luz ao fundo do túvel e os que consideram que a crise veio para durar --- pelo menos mais dois ou três anos e pelo menos em alguns dos países.
Naturalmente, uma resposta a esta questão terá inúmeros pressupostos: se, finalmente, se verificar uma recuperação da economia japonesa; se as economias europeia e, principalmente, americana continuarem a crescer a bom ritmo; se os países mais atingidos "tomarem o remédio todo"; se etc...
Pois bem: se se verificarem aquelas condições, tendo em consideração que a maior parte das economias da região é bastante aberta ao exterior e que por isso mesmo depende mais do mercado internacional do que do mercado interno --- os quais sofrem, de facto, uma grande depressão ---, então é bem possível que a "luz ao fundo túnel" comece a brilhar em 1999, sendo que uma retoma mais consistente só aparecerá lá para o ano 2000. Esta perspectiva não é necessariamente comum a todos os países já que, por exemplo, a retoma poderá vir a mostrar-se mais fácil na Coreia do que na Malásia ou, principalmente, na Indonésia.
Mas atenção: para que a retoma se verifique e seja consistente é necessário que alguma coisa se modifique em relação ao passado, quer no funcionamento dos sistemas financeiros locais quer, sublinhamos nós, em dois outros domínios que têm sido pouco mencionados pelos analistas.
O primeiro refere-se à estrutura produtiva actual, caracterizada por sobredimensionamento em diversos sectores, principalmente nos da electrónica e do imobiliário; isto é, a questão de médio-longo prazo que se coloca é saber o que produzir em alternativa ou complementarmente às produções actuais. Confessemos, pela nossa parte, que é tema para a qual também existem ainda poucas respostas. Até porque quaisquer que elas sejam acabarão por ter de tomar em consideração essa outra questão que é a de saber quais serão as opções dos intérpretes da mudança, assunto que retomaremos adiante.
O segundo domínio a que nos referimos onde terá de haver alterações é o da lógica especulativa --- que tem uma forte componente cultural mas também de novo-riquismo --- que caracteriza as sociedades locais. Aliás, é em parte para ajudar a impôr limites dentro do razoável e do "economicamente correcto" que se torna essencial a alteração do modus operandi do sistema financeiro da maioria daqueles países.
Uma outra questão é a de saber se após a recuperação se voltará aos ritmos de crescimento que os países da região conheceram no passado recente. Quanto a este aspecto, cremos (ou esperamos?!...) que não: um crescimento (ligeiramente) mais lento poderá ter a dupla vantagem de ser mais consistente e, também por isso, evitar os defeitos do anterior modelo.
Relacionada com as transformações estruturais referidas --- do sistema financeiro e da estrutura produtiva --- está essa outra questão de saber quem as vai interpretar.
Naturalmente, competirá aos governos um papel fundamental neste domínio, nem que seja como executores das orientações dos financiadores internacionais, com o FMI à cabeça (Fundo: cuidado com o "overkill"...)
O essencial destas aponta, porém, para a um espaço maior para o funcionamento do mercado e das leis da concorrência. O aumento desta dar-se-á em detrimento das "ligações inter-pessoais" e da interpenetração, quase promiscuidade (honi soît qui mal y pense...), entre as grandes empresas e as burocracias políticas e económicas locais que tem caracterizado o funcionamento de uma boa parte daquelas economias. Isto exigirá um papel maior para o capital privado, nacional ou estrangeiro, mais independente dos "favores públicos".
Ora, a verdade é que, com a usual excepção de países ou regiões como Taiwan, Singapura e Hong Kong, a maior parte das empresas da região que se encontram em dificuldades e em risco de fechar as suas portas sofrem principalmente de insuficiência de capital, nomeadamente de curto-médio prazo.
Assim sendo, não é de admirar que alguns países da Ásia Oriental estejam neste momento transformados em grandes armazéns de empresas à espera de comprador. Esta é, pois, uma boa época para ir aos saldos (de empresas) à Tailândia, à Malásia, etc. Mas como em todos os saldos é necessário ver bem o produto pois, não raras vezes, tem um pequeno defeito escondido não se sabe muito bem onde e que só aparece depois de pagarmos...
Note-se, porém, que a nível mais global é necessário ter cuidado com as possíveis reacções nacionalistas e, principalmente, anti-neocoloniais, numa região que, em geral, só (re)adquiriu a independência há menos de cinquenta anos.

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Última versão: 15 de Abril de 1998