Ásia Oriental
Boletim trimestral de informação económica sobre a Ásia Oriental
vol. 2; nº 3; 3º Trimestre/1998 (Jul.)

Edição do CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento

(continuação)

Comentário



Um ano depois: Hong Kong e Ásia Oriental



O mês de Julho de 1997 começou com dois factos já históricos para a Ásia e para o mundo: no dia 1a China retomou a soberania sobre Hong Kong e no dia 2 o Banco da Tailândia deixou de defender o baht nos mercados cambiais, desencadeando, com esta atitude, a que é, provavelmente, a mais grave crise económica que a Ásia Oriental jamais defrontou.
No último número deste Boletim apresentá-mos um pequeno "relatório e contas" desta última. Neste, além de voltarmos ao assunto, teceremos algumas considerações sobre a evolução de Hong Kong no último ano --- o que poderá ter algum interesse para o futuro de Macau.
Quanto à ex-colónia britânica, o primeiro aspecto a salientar é o de que, provavelmente ao contrário do que muitos esperariam mas de acordo com o que a generalidade dos observadores acreditava, os chinese têm (aparentemente) cumprido a sua promessa de não interferirem na vida política e administrativa corrente da RAEHK.
Mas se é assim nestes domínios, já noutros, não comtemplados nos acordos estabelecidos com a Grã-Bretanha, a realidade parece estar a ultrapassar o que, para muitos, seria desejável. Referimo-nos aos domínios económico e cultural.
Neste último, as manifestações culturais da China, levadas a cabo (não só mas também) com a intenção de dar a conhecer a mãe-pátria aos habitantes da ex-colónia, correm o risco de serem um tiro pela culatra...
No domínio económico as coisas parecem não estar a correr melhor. Note-se que não nos referimos à reconhecida crise da economia de Hong Kong --- de que a China não é responsável --- mas sim ao facto de muitas empresas chinesas, na sua grande maioria fazendo parte do seu sector público, estarem a aproveitar a fortíssima queda das cotações da Bolsa de Hong Kong (vd. adiante) para aí conseguirem ou reforçarem o controlo de várias empresas.
Com esta evolução --- cuja importância não deve ser sobrevalorizada mas também não deve ser desprezada --- não são de admirar os resultados das eleições levadas a cabo na Região, ganhas pelas forças da oposição democrática que tinham sido marginalizadas da assembleia legislativa na noite da transferência do poder.
No mesmo sentido vão os resultados de uma sondagem recentemente levada a cabo na Região e que apontam para uma crescente perda de confiança no actual Chief Executive.

Quanto à Ásia Oriental em geral e à crise que a atravessa, um dos principais temas de discussão entre os observadores tem sido o da sobrevivência, ou não, do chamado "modelo asiático" de crescimento económico.
Na nossa opinião, aquela crise não pôs em causa o essencial de tal modelo. Este caracteriza-se, quanto ao seu núcleo duro, por dois elementos essenciais: um grau importante de intervencionismo do Estado no enformar do sistema económico; e uma orientação deste para a produção, em primeiro lugar, de bens susceptíveis de exportação.
Ora, acreditamos que a Ásia Oriental não precisa (nem vai) mudar de "motor" do seu crescimento mas sim de "carburante", adoptando o mais apropriado ao motor instalado em vez de insistir em "dar umas voltas" com gasolina de alto rendimento mas que, por não adaptada ao conjunto das características do veículo, o fizeram despistar numa das curvas do circuito.
Mas talvez a melhor imagem para descrever a situação actual seja a do indivíduo que, pouco habituado a beber bebidas alcoólicas, começa a "tomar uns copos" de uma garrafa que alguém lhe colocou por perto e que, pressurosamente vai enchendo para parecer que não se vai consumindo nada. Na vertigem dos efeitos do alcool (leia-se "livre circulação de capitais"), bebe cada vez mais até que cai.
Será que a culpa da situação é só dele? Será que quem lhe colocou a garrafa por perto e lhe foi enchendo o copo não é tanto ou mais culpado que ele? A verdade, porém, é que quando ele caíu o responsável se "pôs a milhas"... com a garrafa (i.e., os capitais).
Resta saber se o abstémio aprendeu a lição. Se assim for (e acreditamos que assim vai ser), mais revigorado que antes, continuará o seu caminho com o mesmo vigor que anteriormente ou, quando muito, com a velocidade mais reduzida a fim de melhor se poder defender dos "amigos da onça" que o voltarão a tentar ir "correr as capelinhas" (i.e., voltar a "encher a cara" de alcoól)...

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Última versão: 15 de Julho de 1998