Ásia Oriental
Boletim trimestral de informação económica sobre a Ásia Oriental
vol. 2; nº 4; 4º Trimestre/1998 (Out.); ÚLTIMA EDIÇÃO

Edição do CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento

(continuação)

Comentário



E se este fosse o fim do princípio e não o princípio do fim do "milagre asiático"?


Quem se habituou a ler-nos com alguma atenção não lhe passou despercebida uma certa tendência para jogarmos com as palavras. Desta vez não fugimos à regra...

Mas do que é que estamos a falar?

Em recente entrevista à conceituada Far Eastern Economic Review, o ex-Primeiro Ministro de Singapura e verdadeiro "pai" do "caso de sucesso" que aquele país constitui, afirmava em resposta à pergunta "Qual é o melhor modelo económico para a nossa parte do mundo?":



Eles [Tailândia, Indonésia, Coreia, os países mais afectados pela actual crise asiática] estariam melhor se nunca tivessem aberto as suas economias com a profundidade com que o fizeram... Isto é verdade para a Tailândia e a Indonésia... Recorde-se que a Tailândia, até 1990, tinha a conta de capital fechada. Se ela se tivesse mantido assim os seus empréstimos teriam sido em bahts e não teriam tido o colapso que tiveram da forma precipitada que tiveram. [...] Os banqueiros americanos e europeus pressionaram no sentido de que se estabelecesse um acordo sobre o sector financeiro no quadro da OMC [Organização Mundial do Comércio]. Disseram-nos a todos que as nossas economias floresceriam e por isso a Indonésia abriu parcialmente a sua conta de capital e removeu os controlos sobre as moedas cerca de 1990."



Porquê esta longa citação? Para não nos esquecermos como tudo começou: uma grande abertura --- hoje em dia reconhe-cida como excessiva por muito mais do que uma simples minoria dos observadores --- da balança de capitais, particularmente em relação aos de muito curto prazo e de natureza altamente especulativa.

De facto, parece evidente que tal abertura não faz parte do modelo de crescimento que esteve na base do sucesso da maior parte das economias da região. Continua, por exemplo, a não ser parte dos modelos de desenvolvimento chinês e de Taiwan, duas das economias que, apesar de tudo, conseguiram manter-se a coberto dos piores efeitos da crise financeira e económica da Ásia-Pacífico.

Ora,

(i) desde 1 de Setembro que a Malásia impôs medidas --- p.ex., fim da livre convertibilidade do ringgit --- que vêm reduzir significativamente esses fluxos, desde o início eleitos pelo Primeiro-Ministro como os grandes causadores das desgraças do país e da região;

(ii) em finais de Agosto as autoridades monetárias de Hong Kong reforçaram as medidas que limitam a excessiva volatilidade destes capitais e adoptaram (pontualmente?) uma política de intervenção no mercado bolsista de forma a proteger este, a taxa de juro e a taxa de câmbio;

(iii) na sequência das medidas adoptadas pelo Governo da Malásia --- veja-se na ficha deste país uma análise da questão política resultante da quase simultânea demissão do Ministro das Finanças e Vice-Primeiro Ministro, Anwar Ibrahim --, o conhecido economista Paul Krugman dirigiu uma carta aberta ao Primeiro-Ministro Mahatir Mohamad felicitando-o pelas medidas tomadas pois elas seriam as únicas que, face ao (relativo?) falhanço do receituário neo-clássico e liberal do FMI, poderiam ajudar a inverter, de facto, a situação de crise económica. No entanto, Krugman avisava desde logo que tal "fechamento" da economia não poderá durar muito tempo --- não mais de três anos --- e que deverá ser acompanhado da adopção de um conjunto de medidas que efectivamente reestruturem a economia malaia.

O que está em causa em quanto se referiu até agora é, naturalmente, o velho combate entre uma concepção mais neoclássica e liberal, efectivamente financiada e implementada pelo FMI e todo o seu séquito, por um lado, e uma concepção mais intervencionista (mais keynesiana?) do Estado na economia --- ainda que não necessariamente sob a forma de propriedade dos meios de produção.

Terá sido difícil disfarçar ao longo das notas que aqui deixámos ao longo do tempo --- coisa que, aliás, não procurámos fazer... --- que consideramos que esta última linha de pensamento e de acção terá sido a grande enformadora do sucesso das economias da Ásia Oriental. Uma certa dose de "regresso às origens" parece-nos igualmente essencial para se sair das presentes dificuldades.

Acreditamos que ele vai ter lugar, mesmo que de modo mitigado e sob formas diferentes da situação pré-abertura e isso permitirá uma recuperação da situação económica e, quiçá, um salto em frente mais consistente porque agora corrigido dos erros do passado. Por isso falamos de um fim do princípio em vez do princípio do fim do "milagre asiático"

Mas espera-se que esta crise tenha ainda uma outra consequência: a revisão (finalmente!) do padrão de intervenção do FMI. É que parece evidente que as suas recomen-dações de política económica não têm produzido os efeitos necessários. Veremos se é desta.

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Última versão: 15 de Outubro de 1998