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key words: Cultura; Portugal; Coreia do Sul

A LÍNGUA COMO INSTRUMENTO DE PODER

Depois da segunda guerra mundial, a Europa encontrava-se devastada. Interiormente, e especialmente a partir de 1989 as relações entre os países europeus mudaram radicalmente, dando lugar a novas noções nas “relações políticas, sociais, culturais e linguísticas” (Pires: 200). Exteriormente, o Plano Marshall, um plano de recuperação económica para a Europa, trazia também consigo as sementes da “americanização”, do consumismo e da forma de pensar americana para a Europa. Tudo isto foi possível graças aos filmes de Hollywood e ao rock'n roll que “invadiram” os médias na Europa (Noble: 2006). De uma forma inegável, o entretenimento é uma forma de moldar a cultura e as perceções. Séculos antes já Roma evitava a revolta das populações e mantinha a popularidade dos seus imperadores através da política “pão e circo” (Santiago). Durante a segunda guerra mundial vemos também Hitler a utilizar a indústria cinematográfica como forma de propaganda. Desta forma, não é algo novo quando dizemos que as artes, e mais concretamente a música e o cinema, servem para veicular ideias, moldar opiniões e promover culturas. Cooper escreve sobre isso mesmo no livro “Language planning and social change”; O exemplo do nascimento da academia francesa e do potencial naquela altura dos livros para moldar opiniões foi o que moveu o cardeal Richelieu. Nas palavras do próprio Cooper “language is the fundamental institution of society [...] to plan language is to plan society” (Cooper:182). Mas, como dizia o nosso poeta Camões, “mudam-se os tempos mudam-se as vontades” e neste momento com a globalização e o advento da Internet, televisão e os meios de comunicação, a influência e a luta pelo poder não se faz mais somente pela arte da escrita. Os meios de comunicação social têm uma influência cada vez maior. Veja-se o caso recente da chamada “primavera árabe” em 2011 e o papel de destaque que as redes sociais desempenharam (Tavares:2012). De facto, em 2012 Joseph Nye da universidade de Harvard cunhou o termo “soft power” como a habilidade de moldar as preferências dos outros cativando-os. A revista foreign policy define “soft power” da seguinte maneira: “Soft Power Is Cultural Power. [...] Power is the ability to alter the behavior of others to get what you want. There are basically three ways to do that: coercion (sticks), payments (carrots), and attraction (soft power)” (Foreign policy: 2006). Neste ponto, o próprio Joseph Nye, numa entrevista ao Económico incentivou Portugal a usar o “soft power da sua língua e da cultura2”. E foi exatamente isto que o governo Coreano fez, de forma intencional, e com sucesso a partir de 1997 como forma de responder à crise que assolou a Ásia (Francis et al: s.d.). No panorama mundial recente a Coreia do Sul tem conquistado o mundo através do cinema e da música, comumente conhecidos como k-pop e k-dramas. Ainda o mês passado pela primeira vez, no billboard awards (que mede a popularidade de músicas e álbuns nos Estados Unidos), os vencedores foram um grupo coreano chamado BTS que venceu destronando Justin Bieber. A ascensão da “hallyu” ou Onda Coreana é uma realidade inegável. Talvez, se pensasse que o fenómeno do Psy fosse passageiro, mas a onda coreana já é uma realidade. O Discovery Channel chama-lhe mesmo Hallyuwood, uma vez que juntamente com Bollywood e Hallyuwod é uma referência na indústria do entretenimento. A France24 também. Isto fez com que a nível mundial as perceções da Coreia e dos produtos Coreanos, como LG, Hyundai entre outras marcas melhore e muito. De facto, já há festivais de música em todos os continentes, com grande crescimento nos Estados Unidos e Europa. Recentemente, o México abriu uma academia de K-pop. Outro grande “subproduto” deste fenómeno é que o ensino do Coreano está a crescer rapidamente à volta do mundo. Em Portugal, em 2013, o King Sejong institute, instituição homóloga ao Instituto Camões e que funciona desde 2009 abriu as portas em Portugal e este ano, com o apoio da Samsung (empresa Coreana) vai dar-se o primeiro concerto K-pop em Lisboa. Além disto, as receitas com o turismo estarem a crescer exponencialmente e há guias turísticos especiais para visitar as diferentes agências de k-pop. São chamadas de k-pop “tour” Graças a esta “onda” a Coreia do sul consegue ser uma alternativa à televisão norte-americana. Mas isto não surgiu por acaso, foi planeado e estrategicamente pensado, contando com o apoio do governo. Vejamos o seguinte excerto: “Since the 1997 Asian financial crisis, the Korean government has thoroughly reexamined the process of modernization and targeted the export of popular media culture as a new economic initiative, one of the major sources of foreign revenue vital for the country's economic survival and advancement. Korea, with limited natural resources, sought to reduce its dependence on a manufacturing base under competitive threat from China. Trade experts have called for the nation to shift its key development strategy to fostering overseas marketing for culture, technology and services, including TV programs, popular music, online games, movies and distribution services. The government has striven to capitalize on Korean popular culture and given the same national support in export promotion that was once provided to electronics and cars. The Korean Wave started from the efforts of private sectors, but the government has played a key role in the speed of growth. . The Korean Wave: Korean Media Go Global (Internationalizing Media Studies) (pp. 3-4). Taylor and Francis. Kindle Edition. A própria France24 responsabiliza não só a exportação de produtos tecnológicos como a exportação da cultura que fez sair a Coreia do Sul de um Estado com uma grande dívida ao FMI (fundo monetário internacional) para o topo (G20). Mais recentemente, a China pôs um travão às importações Coreanas, incluindo o entretenimento como forma de retaliação pela THAAD (terminal high altitude area defense) devido às tensões que se fizeram sentir na região, demonstrando mais uma vez que política, cultura, economia e língua estão interligados.

O CASO PORTUGUÊS

Ora, depois da leitura do capítulo anterior, é claramente percetível que “não existem coincidências”. A exportação cultural no caso da Coreia do Sul foi uma estratégia planeada e bem conseguida. E Portugal?
Portugal tem feito um excelente trabalho com os parcos recurso que têm no que concerne ao ensino da língua (Filipe: s.d). À semelhança da Coreia é um país pequeno mas tem algumas vantagens, nomeadamente a língua que é falada em vários países e em diferentes continente Sabemos que o Português tem muito mais falantes que o Coreano e os países da CPLP podem ser embaixadores da língua e da cultura nos diferentes continentes. Isto é uma vantagem para através dos média captar a atenção para as qualidades de Portugal e aumentar não só o prestígio a nível internacional, mas também aumentar as receitas no turismo e nas exportações.
Então, o que pode Portugal fazer para melhorar o seu cooptative power e a sua imagem?
Primeiro investir na cultura, nomeadamente em filmes e música e na sua respetiva tradução para ser acessível a um público mais abrangente. Uma hipótese de baixo custo é por exemplo, aproveitar os filmes do final de ano do DECA (Universidade de Aveiro), traduzi-los e disponibilizá-los gratuitamente no Youtube ou em canais próprios com o apoio do estado. Estes filmes como são feitos por gente jovem têm conceitos frescos e apelativos e agradam a um público mais vasto; Mas isto ao nível interno e estamos a falar de produções de baixo custo, mas ao nível da cooperação podemos fazer parcerias com os diferentes países da CPLP e fazer co-produções que têm visibilidade no exterior e de grátis e fácil acesso. O canal da “Euronews” é um exemplo de 13 televisões públicas europeias que se uniram e a informação é veiculada em 5 línguas. O conselho da Europa e a Comunidade, apoiam as produções e as coproduções, como uma forma defensiva e construtiva (Boniface: 2009). Em Portugal as nossas parcerias podiam ser com os países da CPLP. Por exemplo, o Brasil tem uma indústria de produção cinematográfica mais “ativa” e com filmes mais interessantes do ponto de vista comercial. Podemos criar sinergias para promover não só a língua e cultura, mas também o turismo, o mercado e produtos e fazê-lo de forma global através dos diferentes países da CPLP. Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul) já estão a cooperar nesse sentido (CHINAFRICA vol.9 August 2017 ). Podemos cooperar com os diversos países para juntos irmos mais longe. E, talvez assim, se “cumpra portugal”; “Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!”. Para Fernando Pessoa a sua pátria era a sua língua, a sua cultura. Talvez esta seja a forma de se “cumprir Portugal”.

BIBLIOGRAFIA

Boniface, Pascal (2009). Atlas das Relações Internacionais. Plátano Editora: Lisboa

Filipe, Mário (s.d.). Cidadania Europeia e Direitos Linguísticos no espaço da União. Universidade aberta: Lisboa.

Francis et al. (s.d.). The Korean Wave: Korean Media Go Global (Internationalizing Media Studies) Kindle Edition.

Noble, Evan S. (2006). Marshall Plan, Films and Americanization. Virginia Polytechnic Institute and State University: Virginia. Disponível em: https://theses.lib.vt.edu/theses/available/etd-05062006-142739/unrestricted/MarshallFilmThesis.pdf

Pires, Maria L. B (coord.).(2000). Estudos europeus II. Universidade Aberta:Lisboa

Santiago, Emerson (s.d). Política do pão e circo. Infoescola. Disponível em: http://www.infoescola.com/historia/politica-do-pao-e-circo/

Tavares, Viviane B. A. (2012). O papel das redes sociais na Primavera Árabe de 2011: implicações para a ordem internacional. Revista mundorama: divulgação científica em relações internacionais. Disponível em: https://www.mundorama.net/?p=10624

AUTORIA

Juliana Andrês da Rosa: Licenciada pré-bolonha em Ensino Básico - 1ºCiclo (2008) e mestrada em Ciências da Educação, percurso Administração e Políticas Educativas (2011) pela Universidade de Aveiro. Desde 2008 que ensina como professora em Portugal e desde 2013 na África do Sul. Formação especializada em Educação Especial no domínio Audição e Surdez (2013 - ISCIA); formação em Aprendizagem de Português Língua não Materna (2014- Universidade de Coimbra); formação em materiais interativos para o ensino do português L2 (2015) e, mais recentemente, Introdução à Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (2016 - UNAVE).Encontra-se a terminar o mestrado em Português Língua não Materna na Universidade Aberta.

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