Ásia Oriental
Boletim trimestral de informação económica sobre a Ásia Oriental
vol. 2; nº 1; 1º Trimestre/1998



Edição do CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento

(continuação)

Um país, um mercado

Índia

Inserida na Ásia do Sul, a segunda região de maior crescimento do mundo (a seguir à Ásia Oriental), a Índia é um país de grandes contrastes e enorme diversidade étnica, linguística e cultural.

Constituído por 25 estados que diferem significativamente entre si quanto a recursos naturais, capacidade administrativa e desempenho económico, o país tem uma estrutura produtiva em grande transformação.

A agricultura joga um papel importante, apesar de decrescente, na economia, contribuindo para cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e quase 70% do emprego total.

O sector industrial, por sua vez, tem-se expandido muito ao longo da presente década, sendo hoje respon-sável por 29% do PIB, dos quais 19% são gerados pela indústria transformadora. Finalmente, o sector dos serviços tem-se fortalecido, representando hoje em dia quase 40% do PIB.

Desde a sua independência, há 50 anos, a Índia conheceu, até ao início desta década, um crescimento económico baseado numa estratégia de desenvolvimento eivada de algum (não pouco...) nacionalismo económico e por isso contando essencialmente "com as próprias forças" (i.e., com os abundantes recursos nacionais, incluindo o capital) e virada para o mercado interno. Com base nesta estratégia, com fortes conotações com o modelo de desenvolvimento soviético, a Índia criou uma indústria de base diversificada e um sector financeiro relativamente grande e sofisticado. Estes sucessos conseguiram-se tendo como pano de fundo um sistema tido genericamente como democrático que tem fornecido à população um grau raro de liberdade e estabilidade política --- apesar dos acidentes de percurso de que tem sido principal vítima a família Nehru/Ghandi, com Indhira e o filho Rajiv a serem assassinados enquanto ocupavam o cargo de Primeiro-Ministro.

No dealbar dos anos 90 (1991) a Índia iniciou um programa de reformas que visa reduzir a intervenção do Estado na economia, comprimir o sector público excessivamente alargado e diminuir o isolamento e proteccionsimo face ao resto do mundo.

A nova política procurou estabilizar a economia e reformar o investimento, comércio e regime fiscal, o sector financeiro e empresas públicas. Para isso, sectores como a indústria pesada, banca, aviação civil, telecomunicações, produção e distribuição de energia, portos e estradas foram abertos ao sector privado.

Este programa económico produziu efeitos notáveis. Embora o crescimento tenha diminuido inicialmente em resposta às políticas fiscais e monetárias contraccionistas, ajudada pelas reformas (incluindo a flexibilização fiscal) e por boas monções, a economia cresceu cerca de 7% em 1996, colocando a Índia entre as economias com melhor desempenho no mundo, sendo o sector privado, agora visto com outros olhos pelas autoridades políticas e económicas, responsável por três quartos do PIB.

Esta expansão foi impulsionada pelo investimento privado, do qual o investimento directo estrangeiro (IDE) é uma parte importante (US$ 2.6 biliões em 1996/97). O investimento em carteira estabilizou nos US$ 2-3 biliões (cerca de 10% do valor do investimento em carteira que, a nível mundial, se dirigem para os mercados emergentes).

Esta evolução tem por base uma alteração da lógica de nacionalismo económico que predominou nos primeiros quarenta anos da Índia independente. De facto, hoje em dia e em alguns sectores, o capital estrangeiro pode ir até 100%, variando entre 49%-74% nos restantes.

Em resposta à depreciação da taxa de câmbio real e à reforma fiscal, as taxas de exportação aumentaram até mais de 20% ao ano no período entre 1993 e 1996.

As principais exportações do país são as pedras preciosas e a joalharia, o pronto-a-vestir, os fios e tecidos de algodão, artesanato, cereais, produtos marinhos e equipamento de transporte.

À medida que o crescimento e restruturação empresarial tem ganho balanço, as importações também cresceram (20% em 1995/96), sobretudo em bens de capital. Os principais parceiros comerciais da Índia são os EUA, Japão, países da U.E. (sobretudo Reino Unido, Alemanha e Bélgica) e países da OPEP, os grandes fornecedores de energia.

Mas a maior revolução na economia indiana foi a reforma de mentalidades a que se tem assistido nos últimos anos. Jovens executivos, a maioria com licenciaturas em gestão tiradas no estrangeiro, encaram a liberalização como uma oportunidade de transformar empresas familiares conservadoras em firmas competitivas e orientadas para o exterior.

A abertura ao investimento estrangeiro alterou a forma como os investidores internacionais encaram uma ligação com a India, já hoje, apesar dos seu baixo rendimento per capita, a quinta maior economia do mundo devido aos seus cerca de 950 milhões de consumidores. Algumas das suas vantagens são: uma força de trabalho que, nomeadamente em determinados sectores (é internacionalmente reconhecida a qualidade da engenharia e, em particular, do software indiano), é altamente qualificada e flexível; taxas salariais competitivas; recursos agrícolas e minerais abundantes; uma das maiores e mais diversificados indústrias transformadoras do mundo; um sector privado dinâmico e um sector financeiro maduro; incentivos fiscais e estabilidade política; um sistema legal e contabilístico sofisticado (e com forte presença da herança inglesa) e um ambiente empresarial de liberdade de entrada, investimento, localização e escolha de tecnologias.

Por outro lado, algumas das mais evidentes desvatagens são: insuficiência de infraestruturas (falhas de energia, congestionamento dos portos, inadequação das estradas e caminhos de ferro), complicações burocráticas na aprovação de novos negócios, barreiras à saída dos mercados e controle à importação de bens de consumo.

Apesar disto, o saldo é bastante positivo e a Índia está a tornar-se num ambiente de negócios cada vez mais atraente, com a maioria dos países industrializados a expandir rapidamente a sua presença comercial no país.

Enfim, com os seus quase um bilião de habitantes, a Índia, em conjunto com a China, tenderá a ser um dos países que no século XXI terão maior produto global ainda que com um rendimento per capita relativamente baixo(pouco mais de USD 400).

Do conjunto do país destacam-se as suas cidades mais populosas:

Bombaim (recentemente rebaptizada para o nome mais indiano de Mumbai): 13 milhões de habitantes;

Calcutá: 11 milhões;

Delhi: 8.5 milhões;

Madras: 5.5 milhões;

Hyderabad: 4.3 milhões; e

Bangalore, a Sillicon Valley indiana: 4 milhões.

A estrutura empresarial e a escolha de um parceiro

A economia da Índia é dominada por um grupo de grandes grupos de base familiar com nomes como Tata, Ambani, Birla, Thapar, Goenka, etc. Porém, a imensidão do país e a natural facilidade de muitos indianos para o negócio fizeram surgir um número enorme de empresas de todas as dimensões, muitas delas com uma gestão moderna e que podem ser encaradas como um parceiro essencial para a penetração no mercado local. Na verdade, apesar de o inglês ser largamente utilizado, o nacionalismo económico que ainda caracteriza, em muitos domínios, a política económica e a legislação de negócios do país bem como, claro, o conhecimento do mercado local, da língua nacional (o hindi) e de uma das inúmeras línguas regionais, aconselham a que se procure um parceiro local. O mais difícil será a escolha.


Fontes principais: U.S. Department of State Fiscal Year 1997 Country Commercial Guide: India, US Embassy in India, 1996

MediaWeb India (www.m-web.com) Indian Fiscal Budget 1997-98

WORLD BANK Country Briefs: India, (www.worldbank.org/html/extdr/offrep/sas/in.html

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Última versão: 15 de Janeiro de 1998