Ásia Oriental
Boletim trimestral de informação económica sobre a Ásia Oriental
vol. 2; nº 3; 3º Trimestre/1998 (Jul.)


Edição do CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento

(continuação)

Um país, um mercado

Malásia: estratégias empresariais em tempo de crise 

 

 

Agora que foi ultrapassado o choque inicial da crise asiática, é interessante analisar como é que as empresas locais estão a reagir a ela.

À partida, é sabido que, se tomarmos em consideracão o prolongado crescimento a que as economias nesta parte do mundo têm estado sujeitas, elas não estão muito habituadas a este tipo de "crises".

Isto vem a propósito de um inquérito recentemente promovido por um jornal da Malásia para averiguar como as empresas locais estão a reagir à crise. Os resultados não deixam de poder ser olhados com alguma ironia já que parece existir algum desfasamento entre aquilo que as empresas (ou os seus empresários) respondem no inquérito e a realidade por eles efectivamente vivida, ou seja, as estratégias que estão a implementar no terreno.

 

Enquanto que muitas empresas consideram que existe uma "oportunidade única" na crise que estão a atravessar outras mostram-se nitidamente mais pessimistas. Assim, apesar de ser interessante verificar o tom optimista em relacao ao futuro da Asia e também em relacao às novas oportunidades que a crise poderá criar, as suas acções não reflectem esse espírito e são, há que frisá-lo, sobretudo defensivas quer na forma como na substância.

O inquérito dirigiu-se a uma amostra de 70 empresas. As respostas obtidas vieram de empresas de algumas actividades económicas consideradas críticas; é o caso dos servicos financeiros, da indústria transformadora, das telecomunicacões e da produção de energia. Todas as empresas a quem foi enviado o formulário estão a sofrer o impacto da crise.

 

A primeira constatacão imediata é a de que os bancos e os serviços financeiros em geral são os que estão a sofrer mais com a actual situação económica do país pois ou estão a ter problemas com os empréstimos cujo serviço não está a ser cumprido ou estão com problemas de liquidez.

Outros sectores, como é o caso das empresas industriais, estão a sofrer com as altas taxas de juro (a que não estavam habituadas), a desaceleração da procura e a desestabilização da taxa de câmbio, a qual penaliza sobretudo as empresas que importam produtos intermédios necessários à produção.

Cerca de 60 % dos questionários respondidos consideram explicitamente ou dão a entender que vêm a crise asiática como uma oportunidade. Os restantes referem-se a empresas/empresários que estão mesmo "em crise", virtualmente paralisados e muito provavelmente ocupados com tácticas de sobrevivência a curto prazo.

 

Por outro lado, é interessante verificar a diferença de atitude entre as empresas multinacionais (de origem europeia ou americana) e as empresas asiáticas: enquanto que só metade destas últimas vê a crise como uma oportunidade, mais de dois terços das primeiras explicita claramente essa premissa.

Apesar deste tom optimista, a maior parte das empresas que operam na Ásia prefere responder em tom nitidamente defensivo. Por exemplo e em relação à sua reacção actual à situação, a maior parte das respostas são do tipo: cortar nos custos, adiar investimentos ou insistir nas exportações. Algumas delas estão mesmo a pensar racionalizar os seus portfolios, identificando core businesses, re-centrando a sua actividade nas áreas onde são melhores ou re-estruturando dívidas à banca.

Neste sentido, podemos afirmar que a crise veio mesmo pôr a descoberto a "gordura" acumulada ao longo de muitos anos de crescimento económico, com a formação de muitos conglomerados de base familiar sem um core business específico. Muitos destes conglomerados canalisaram grande parte do seu investimento para actividades com caracter especulativo (não-produtivo), como p.ex., o imobiliário ou os serviços financeiros.

Isso foi possibilitado por um acesso extremamente fácil ao capital (baixas taxas de juro, política monetria extraordinariamente expansionista, mercados financeiros "inflacionionados"). Isto criou uma asset-inflation (já experimentada pelo Japão durante os anos 80) que acabou por ser uma das razões que levou ao descalabro.

De salientar que são sobretudo os chamados overseas chinese (a diáspora chinesa) os que mais estão a sofrer neste momento com a situação pois tinham sido eles, também, quem mais beneficiou da desregulação e liberalização que os países do Sudeste Asiático implementaram durante o seu longo período de crescimento. Através de redes (networks) que pacientemente foram desenvolvendo ao longo dos anos, conseguiram rapidamente criar e fazer florescer grupos econmicos por todo o Sudoeste Asiático.

Apesar das respostas ao inquérito denotarem, como salientámos, uma clara atitude defensiva nas estratégias das empresas, elas reforçam a ideia da tendência das empresas a continuarem a praticar a estratégia pré-crise com a diferença de serem agora mais consciente dos custos, i.e., de serem mais eficiente.

Este tipo de respostas demostra, todavia, que as empresas de origem asiática nao estão a saber a usar a crise de uma forma positiva. Esta é talvez uma oportunidade única para as empresas poderem "reinventar" o seu negócio, criando desta forma vantagens competitivas sustentáveis em relação aos seus competidores.

 

Mas então como explicar este tipo de "resposta" convencional entre as empresas? Pensamos que as décadas passadas de crescimento contínuo e acesso fácil ao capital deixaram (pelo menos aparentemente) as empresas locais sem preparação para conseguir lidar com uma crise desta amplitude.

A maior parte das empresas simplesmente não tem a experiência de gestão suficiente para poder dar respostas competitivas a situações deste género e daí a falta de agressividade que denotam.

A nossa investigação empírica mostra que as empresas "vencedoras" comportam-se de uma forma radicalmente diferente da dos seus competidores. Em vez de continuarem com o mesmo jogo, as empresas vencedoras viram-se para o exterior, tentando rapidamente descobrir novas oportunidades a explorar em vez de tomar as mesmas acções que os seus competidores.

As empresas vencedoras agem criativamente e criam "oportunidades criativas" , o que é crítico para as empresas que querem emergir como vencedoras quando a recuperação começar.

Um dos exemplos mais interessantes foi como o Citibank reagiu à crise que emergiu na América Latina durante os primeiros anos da década de 80: apesar de possuir uma elevada exposição ao risco na região, o Citibank continuou a afectar-lhe recursos. Ao contrário dos seus competidores principais, que fugiram a sete pés, o banco decidiu usar a crise de forma a poder criar vantagens competitivas para o futuro. Assim desenvolveu relações especiais com os governos locais, liderou negociações com empresas para re-escalonamento de dívidas, etc. Ao mesmo tempo que "limpava"a casa, iniciou investimentos agressivos com compra de bancos locais, expandindo o seu número de balcões, lançou novos produtos, introduziu nova tecnologia, etc. Hoje o banco está posicionado como líder das instituições bancárias, com quase 35% do seu lucro a vir da América Latina.

 

Algumas empresas da Ásia-Pacífico, sobretudo as multinacionais, já começaram a tomar algumas decisões que as levarão a melhorar o seu posicionamento. Os exemplos florescem. Por exemplo, a Coca-Cola já investiu cerca de US 500 milhões no seu engarrafador coreano, preparando-se para aumentar sua percentagem de participação (de 5 para 49%) no engarrafador tailandês. O conglomerado ABB vai aumentar 50 fábricas ao seu porfolio. O DBS, um banco de Singapura, está a acelerar a sua presença regional, tendo adquirido recentemente bancos na Tailândia e nas Filipinas. O que é interessante é que se está a começar a assistir a uma avalanche de aquisições, sobretudo por parte de europeias e americanas. As empresas japonesas são as menos activas, talvez devido à crise que o Japão atravessa actualmente.

Empresas que estão demasiado preocupadas com o curto prazo deveriam pensar que a Ásia vai recuperarar da crise. O chamado modelo asiático, responsável por mais de três décadas de crescimento contínuo, não se esfumou de um momento para o outro. Altas taxas de poupança, forte investimento em educação e infraestruturas, grande capacidade de assimilacão de tecnologia, etc., não se perderam de um momento para o outro por causa da queda das Bolsas ou das taxas de câmbio.

As reformas que estão a ser adoptadas ajudarão a corrigir as fraquezas do sistema que conduziram a muitas das distorções existentes: má supervisão bancária, pouca transparência, nepotismo e desresponsabilização. As reformas que deverão intensificar a dor no curto prazo, irão inevitalmente lançar as bases para uma Ásia mais forte.

Aspecto importante mas quase sempre menosprezado é a presença de uma (cada vez mais forte) classe média local. Esta cresceu muito nas últimas décadas. Tornou-se exigente, sofisticada, ocidentalizou-se mas ao mesmo tempo, um pouco à semelhança do que aconteceu no Japão, soube manter as suas tradições culturais. Receberam os frutos do sucesso e não parece que queiram voltar para os níveis de vida que tinham no passado. Ela será, por isso mesmo e quer do ponto de vista político quer do ponto de vista económico, uma base importante da nova Ásia pós-crise.

 

 

Carlos Cortes

 

Julho 1998

 

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Última versão: 15 de Julho de 1998