13-3-2-21-1-1-8-5, leu Robert
Langdon nas letras púrpuras o que Jacques Saunière tinha escrito no
soalho do Louvre antes de morrer. O código escapava-lhe, mas a jovem
Sophie Neveu, especialista em criptografia, descobriu que se tratava de
uma permutação dos primeiros termos da sucessão de Fibonacci.
Quem tenha lido O
Código Da Vinci, de Dan Brown, recordar-se-á de imediato de uma
das cenas iniciais deste livro absorvente. E saberá que esta sucessão de
Fibonacci e o número de ouro Fi aparecem vezes sem conta na ficção.
Tanto estas como outras
referências de Dan Brown parecem precisas, mas têm erros. Vários livros
foram escritos a comentá-las, no entanto nenhum ainda se dedica aos
aspectos científicos do romance. A omissão é surpreendente, uma vez que
a matemática tem grande destaque na obra. Que seria da história sem os
mistérios da criptografia, por exemplo? E sem os números de Fibonacci?
Logo após detectar a
origem do código, a jovem Sophie escreve esses números por ordem
crescente: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21. E explica que «cada termo é igual
à soma dos dois anteriores». De facto, começando no terceiro termo, vê-se
que 2 = 1 + 1; 3 = 2 + 1; etc. O leitor está já a adivinhar que a
progressão não tem fim e por isso se chama sucessão (em português é
este o termo técnico e não «sequência», como aparece na tradução
portuguesa). E o leitor saberá escrever facilmente os termos seguintes:
34, 55, 89, 144,... Mas tente encontrar o termo de ordem 100, mesmo com a
ajuda do computador. Verá que tem dificuldades em calcular todos os 21
algarismos desse termo.
Esta estranha sucessão
apareceu em Liber Abaci, publicado em 1202 por
Leonardo de Pisa (c. 1170-c. 1240), mais tarde conhecido como Fibonacci.
No livro aparece um problema curioso: «Um homem colocou um par de coelhos
num local cercado por todos os lados por uma parede. Quantos pares de
coelhos podem ser gerados a partir desse par ao fim de um ano, sabendo que,
por mês, cada par gera um novo par, que se torna produtivo no segundo mês
de vida?»
Trata-se de um problema
relativamente simples. No primeiro mês, existia apenas o par inicial. No
segundo mês, este atingiu a idade reprodutiva. No terceiro mês, esse par
teve já outro par. No quarto mês, o par inicial teve outro par, enquanto
os seus primeiros filhos cresciam. No quinto mês, tanto o par inicial
como os seus primeiros filhos, entretanto já maduros, tiveram
descendentes. E por aí adiante. O leitor está certamente a ver o número
total de pares mês após mês: 1, 1, 2, 3, 5,... E está pois a ver o
padrão: obtém-se cada termo somando os dois anteriores - é a célebre
sucessão de Fibonacci. Afinal, esta sucessão sublime foi encontrada a
partir de um problema aparentemente tão banal como o do incesto de
coelhos.
Mas não é só entre
coelhos que os números de Fibonacci aparecem. Eles surgem também no
arranjo das espirais dos ananases, nas pétalas das rosas e, ao que se
julga, nas distâncias entre os braços das galáxias espirais. Estão
relacionados com um número famoso em geometria, chamado número de ouro
ou proporção divina, designado pela letra grega Fi (assim se escreve em
português, e não PHI, como aparece na tradução). Se fizermos o rácio
entre cada número de Fibonacci e o seu anterior obtemos 1/1 = 1, 2/1 = 2,
3/2 = 1,5, 5/3 = 1,66..., 8/5 = 1,625, etc. Sabe-se há muito que esse rácio
converge para um limite, e que esse limite é precisamente o número de
ouro Fi. Este número, contudo, não é racional, ou seja, não pode ser
expresso como o rácio de dois números inteiros. É uma dízima infinita
não periódica. Se quisermos escrevê-lo em notação decimal precisamos
de acrescentar reticências, para mostrar que se trata de uma aproximação.
Com dez casas decimais podemos escrever Fi = 1,6180339887... Mas nunca se
deve escrever Fi = 1,618, tal como o faz Dan Brown.
O autor de O
Código Da Vinci está também errado quando atribui a este número
Fi propriedades extraordinárias. Nada permite concluir que o Parténon e
as pirâmides tenham sido guiados por Fi, nem é verdade que as proporções
dos seres humanos «se ajustem com flagrante exactidão a esse rácio».
Meça o leitor a distância do seu umbigo aos pés e divida a sua altura
por essa distância. Só por acaso encontrará uma boa aproximação para
Fi, ao contrário do que é dito em O Código Da Vinci.
A «flagrante exactidão» é um mito.
Os matemáticos podem
estar reconhecidos a Dan Brown por chamar a atenção do público para vários
temas da sua disciplina. Mas o escritor não precisava de recorrer a
exageros místicos. A sucessão de Fibonacci e o número Fi são, por si
mesmos fascinantes.