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A
linha meridiana da igreja, que o Sol atravessa ao meio-dia.
Mostra-se aqui o extremo, atingido no solstício de Verão
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Ciência:
Expresso - Actual 16/10/2004
A
meridiana de Saint Sulpice
Texto
de Nuno Crato
Ajoelhado
na primeira fila de bancos, Silas fingia rezar enquanto estudava o
interior da igreja de Saint Sulpice. Embebida no granito do soalho
brilhava uma fina tira de latão que atravessava o chão da igreja,
indo-se prolongar num obelisco por onde trepava verticalmente até ao topo.
Era na sua base que a irmandade tinha escondido a Chave da Abóbada...
Quem
tenha lido O Código Da Vinci lembrar-se-á deste
emocionante capítulo, em que o monge procurava a chave secreta do
Priorado e destruiu uma laje na base do obelisco. Nesse local descreve-se
uma mística tira de latão a que o autor chama «linha da rosa». Que
seria essa linha?
Em
tempos, a igreja de Saint Sulpice, assim como várias igrejas do sul da
Europa, nomeadamente a de São Petrónio, em Bolonha, funcionaram como
gigantescos observatórios solares. Nos seus soalhos foram desenhadas
longas linhas perfeitamente alinhadas com a direcção norte-sul. E nos
seus tectos foram efectuados orifícios por onde a luz do Sol passava,
indo projectar uma imagem do disco solar sobre o chão da igreja.
Esses
instrumentos eram conhecidos como meridianas, pois a linha no chão, se
prolongada indefinidamente, passaria pelos pólos terrestres e daria uma
volta ao globo. Marca, pois, o meridiano do lugar. O Sol passa por cima
dessa linha quando atinge a sua altura máxima no céu e está exactamente
na direcção sul. Por isso, tal passagem é designada como passagem
meridiana do Sol. Atinge-se no momento do meio-dia solar verdadeiro.
Na
igreja de Saint Sulpice existia um orifício numa janela superior, na
altura obscurecida, onde se encontrava uma lente colocada por cima da
linha meridiana. Dessa forma, a imagem do Sol projectada pela lente
passava sobre a linha marcada com uma tira de latão exactamente no
meio-dia solar. A igreja funcionava, pois, como um gigantesco relógio
solar, por onde se podiam acertar diariamente os relógios mecânicos.
Quem
teve a ideia de construir este aparelho foi o cura da paróquia de Saint
Sulpice, Jean-Baptiste-Joseph Languet, quando a igreja começou a ser
reconstruída numa escala maior e mais ampla, nos inícios do século
XVIII. O padre queria apenas marcar a hora solar exacta, de forma a
executar os rituais da igreja nos momentos próprios. Mas o homem a quem
confiou a execução, o matemático parisiense Pierre-Charles Lemonnier
(1715-1799), tinha ambições científicas mais arrojadas. Lemonnier
resolveu instalar no orifício do tecto da igreja uma lente, que
possibilitava uma melhor focagem da imagem do Sol projectada no soalho. E
alinhou a linha meridiana de latão com um gigantesco obelisco colocado no
interior da igreja, de forma a que a imagem do Sol projectada de Inverno
pudesse ser menos distorcida.
Na
realidade, a imagem do Sol passa sempre sobre a linha meridiana no
meio-dia solar. Mas passa em locais diferentes da linha ao longo do ano.
De Verão, quando o Sol está mais alto, a imagem projecta-se no soalho
mais perto do orifício do tecto. De Inverno, quando o Sol está mais
baixo, a imagem projecta-se mais longe e é por isso mais alongada e
distorcida. Colocando o obelisco no enfiamento da meridiana, Lemonnier
conseguiu reduzir essa distorção, fazendo com que o ângulo do Sol com o
plano onde estava a meridiana diminuísse.
Nos
extremos da linha de latão, o matemático francês colocou as marcas dos
solstícios - no obelisco, o de Inverno; na outra extremidade, o de Verão.
No ponto intermédio apropriado, colocou as marcas dos equinócios de
Primavera e de Outono. O aparelho era tão preciso que Lemonnier dizia
conseguir calcular o meio-dia solar com a precisão de um quarto de
segundo. Mas os objectivos do matemático eram ainda mais ambiciosos. Ele
queria estudar a mudança de direcção dos raios solares causada pela
atmosfera - a chamada refracção - e os momentos em que a órbita da
Terra a levava mais perto e mais longe do Sol, os chamados periélio e
afélio, respectivamente.
Ao
fazê-lo, Lemonnier inscreve-se numa linha de investigação levada a cabo
em várias igrejas europeias e que ajudou a decidir a escolha entre o
modelo heliocêntrico de Copérnico, na sua versão de Kepler, e o antigo
modelo geocêntrico de Aristóteles e Ptolemeu. Com efeito, as
aproximações e afastamentos entre a Terra e o Sol ao longo do ano são
diferentes nos dois modelos. No de Kepler, resulta da forma elíptica das
órbitas dos planetas. No de Ptolemeu, resulta da posição excêntrica da
circunferência em que o Sol se moveria. A diferença de previsões dos
dois modelos não é muito pronunciada, mas pode teoricamente ser revelada
pela maneira como o Sol muda de altura meridiana ao longo do ano e pelo
seu diâmetro aparente.
Durante
muitos anos, os astrónomos tentaram medir esses parâmetros, mas sem
resultados conclusivos. Foram necessários instrumentos solares
gigantescos, com dimensões que apenas as grandes igrejas da altura
alcançavam. Nos séculos XVII e XVIII, a verdade foi revelada nas
meridianas dos soalhos das igrejas. O resultado é conhecido: os céus
manifestaram-se a favor de Kepler.
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Os
erros d'O Código Da Vinci
Ao
contrário do que diz Dan Brown, a linha meridiana da igreja não
é um gnómon - nome habitualmente reservado a um ponteiro ou
haste que marca a sombra do Sol. No caso da igreja de Saint
Sulpice, pode-se considerar a lente no tecto como um gnómon, e o
próprio sistema, tal como um relógio solar, pode ser chamado
gnómon, por sinédoque.
O nome
de «linha da rosa», dado por Brown à linha meridiana de Saint
Sulpice, é inventado. Ao contrário do que igualmente diz, a
meridiana desta igreja nunca serviu como marca do meridiano de
referência de Paris. Esse meridiano de referência, ou longitude
zero, usado de 1669 a 1884 pelos marinheiros e cartógrafos
franceses, passa ligeiramente a leste, pelo Observatório de
Paris.
A
melhor referência moderna às meridianas solares nas igrejas é The
Sun in the Church, do historiador de ciência
norte-americano J.L. Heilbron (Harvard, 1999)
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