Discute-se há muito em pedagogia
qual o papel da motivação e da autoconfiança. Há uma corrente
que pretende explicar o insucesso escolar pela falta de
motivação dos estudantes. Apenas. De onde deduz que bastaria
motivar e moralizar os alunos, pois assim eles acabariam por
aprender.
A ideia é simples e entra
facilmente no senso comum. «Pois é... eu quando estava na
escola não gostava de matemática e foi por isso que chumbei.
Mas houve um ano em que tive um óptimo professor e então tive
uma nota razoável», diz-se frequentemente. Parece irrefutável,
mas se pensarmos um pouco vemos que as coisas são capazes de
ser mais complexas. Não se aprende porque não se está motivado
ou não se está motivado porque não se consegue aprender? Se
calhar, o tal bom professor limitou-se a trabalhar melhor a
matéria e, percebendo-a finalmente, o aluno passou a
apreciá-la, a estar mais motivado e a ter mais autoconfiança.
Os estudos estatísticos mostram
que o domínio das matérias escolares está correlacionado com a
motivação e a autoconfiança, mas fica-se sem saber qual é a
variável que causa a outra. Os pedagogos equilibrados tentam
motivar os alunos ao mesmo tempo que os levam a trabalhar e
compreender as matérias, sabendo que é este último objectivo
que é fundamental. O dogmatismo de alguns teóricos da
pedagogia, contudo, põe a tónica unicamente na motivação -
todo o insucesso se explicaria pelo desinteresse dos
estudantes.
Foi certamente este dogmatismo que
levou a escrever no programa oficial do 1º ciclo (1990): «A
tarefa principal que se põe aos professores é conseguir que as
crianças, desde cedo, aprendam a gostar de matemática». Parece
ser apenas uma declaração de boas intenções, mas percebe-se o
erro: se o essencial é que as crianças gostem da matéria,
então todo o ensino deve estar dirigido para coisas que
divirtam os alunos; as matérias e a aprendizagem passam para
segundo plano.
Este velho debate começa a ser
resolvido pela experiência. E pela ciência, nomeadamente pelos
estudos estatísticos feitos pelos psicólogos experimentais,
que há quase uma dezena de anos têm vindo a analisar
directamente este problema. Um desses trabalhos, elaborado por
quatro psicólogos norte-americanos e canadianos ao longo dos
últimos anos, acaba de merecer as honras do «Scientific
American» (292-1, págs. 70-77).
Numa tentativa de avaliar se a
autoconfiança conduz a bons resultados académicos, os
investigadores estudaram milhares de estudantes do ensino
secundário e verificaram que a correlação entre a
autoconfiança e os resultados posteriores é extremamente
pequena, na ordem dos 10%. Em contraste, a correlação entre a
aprendizagem num ano e os resultados em anos posteriores é
muito elevada, quase 90%, o que leva a concluir que a
preparação académica é factor decisivo para o sucesso. Afinal,
nada que o bom senso não tivesse previsto.
Mas talvez o resultado mais
curioso seja a descoberta dos aspectos negativos da
autoconfiança. Comparando estudantes que receberam mensagens
destinadas a motivá-los com estudantes que receberam mensagens
destinadas a responsabilizá-los, os investigadores chegaram à
conclusão que os primeiros tendem a desmotivar-se sempre que
obtêm maus resultados e que os segundos, na mesma situação,
tendem a assumir responsabilidades e a melhorar o seu estudo.
Mais importante ainda: os segundos adoptaram estratégias de
controlo do seu trabalho e obtiveram, em média, melhores
resultados. Surpreendente? Talvez não.
Nuno
Crato