Edição 1689

12 de Março de 2005 

Passeio Aleatório
A motivação e a autoconfiança

Discute-se há muito em pedagogia qual o papel da motivação e da autoconfiança. Há uma corrente que pretende explicar o insucesso escolar pela falta de motivação dos estudantes. Apenas. De onde deduz que bastaria motivar e moralizar os alunos, pois assim eles acabariam por aprender.

A ideia é simples e entra facilmente no senso comum. «Pois é... eu quando estava na escola não gostava de matemática e foi por isso que chumbei. Mas houve um ano em que tive um óptimo professor e então tive uma nota razoável», diz-se frequentemente. Parece irrefutável, mas se pensarmos um pouco vemos que as coisas são capazes de ser mais complexas. Não se aprende porque não se está motivado ou não se está motivado porque não se consegue aprender? Se calhar, o tal bom professor limitou-se a trabalhar melhor a matéria e, percebendo-a finalmente, o aluno passou a apreciá-la, a estar mais motivado e a ter mais autoconfiança.

Os estudos estatísticos mostram que o domínio das matérias escolares está correlacionado com a motivação e a autoconfiança, mas fica-se sem saber qual é a variável que causa a outra. Os pedagogos equilibrados tentam motivar os alunos ao mesmo tempo que os levam a trabalhar e compreender as matérias, sabendo que é este último objectivo que é fundamental. O dogmatismo de alguns teóricos da pedagogia, contudo, põe a tónica unicamente na motivação - todo o insucesso se explicaria pelo desinteresse dos estudantes.

Foi certamente este dogmatismo que levou a escrever no programa oficial do 1º ciclo (1990): «A tarefa principal que se põe aos professores é conseguir que as crianças, desde cedo, aprendam a gostar de matemática». Parece ser apenas uma declaração de boas intenções, mas percebe-se o erro: se o essencial é que as crianças gostem da matéria, então todo o ensino deve estar dirigido para coisas que divirtam os alunos; as matérias e a aprendizagem passam para segundo plano.

Este velho debate começa a ser resolvido pela experiência. E pela ciência, nomeadamente pelos estudos estatísticos feitos pelos psicólogos experimentais, que há quase uma dezena de anos têm vindo a analisar directamente este problema. Um desses trabalhos, elaborado por quatro psicólogos norte-americanos e canadianos ao longo dos últimos anos, acaba de merecer as honras do «Scientific American» (292-1, págs. 70-77).

Numa tentativa de avaliar se a autoconfiança conduz a bons resultados académicos, os investigadores estudaram milhares de estudantes do ensino secundário e verificaram que a correlação entre a autoconfiança e os resultados posteriores é extremamente pequena, na ordem dos 10%. Em contraste, a correlação entre a aprendizagem num ano e os resultados em anos posteriores é muito elevada, quase 90%, o que leva a concluir que a preparação académica é factor decisivo para o sucesso. Afinal, nada que o bom senso não tivesse previsto.

Mas talvez o resultado mais curioso seja a descoberta dos aspectos negativos da autoconfiança. Comparando estudantes que receberam mensagens destinadas a motivá-los com estudantes que receberam mensagens destinadas a responsabilizá-los, os investigadores chegaram à conclusão que os primeiros tendem a desmotivar-se sempre que obtêm maus resultados e que os segundos, na mesma situação, tendem a assumir responsabilidades e a melhorar o seu estudo. Mais importante ainda: os segundos adoptaram estratégias de controlo do seu trabalho e obtiveram, em média, melhores resultados. Surpreendente? Talvez não.

Nuno Crato