Há números que nos surpreendem.
Aparecem inesperadamente e nas situações mais diversas.
Tome-se por exemplo pi, o número que representa o quociente do
perímetro de uma circunferência pelo seu diâmetro. Esse número
aparece igualmente nas fórmulas da área do círculo e da
superfície e volume da esfera. Isso não parece difícil de
entender, pois alguma coisa terá a circunferência a ver com
essas outras medidas. Mas já não é fácil entender a razão por
que pi aparece em estatística, na função exponencial complexa
e ainda em somas de séries numéricas como 1 + 1/4 + 1/9 +
1/16...
Outro desses números surpreendentes é o chamado número de
ouro, também conhecido como rácio dourado ou proporção divina.
Costuma-se representar pela letra grega maiúscula Fi e
corresponde a metade da soma da raiz quadrada de cinco com a
unidade. É um número irracional, dado pela dízima infinita não
periódica 1,61803398...
Mario Livio, um astrónomo norte-americano do Instituto
Científico do Telescópio Espacial Hubble, publicou agora um
livro em que lhe chama «o número mais surpreendente do mundo»
(The Golden Ratio, Review, Londres). Podemos
ficar espantados por alguém ter escrito uma obra inteiramente
dedicada a esse estranho número, mas isso não é ainda nada,
pois trata-se apenas do mais recente de vários livros, que se
somam a incontáveis artigos centrados no mesmo tema.
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INFOGRAFIAS DE SOFIA MIGUEL
ROSA |
Dado apenas pela
fórmula acima ou por 1,61803398..., este número de ouro não
parece ter nada de especial. É apenas mais um número. As
surpresas começam quando se observam as situações em que ele
aparece.
Comecemos pelo princípio, ou seja pelo primeiro registo
conhecido desse número. Como com muitas outras coisas em
matemática, somos levados aos Elementos de
Euclides, a obra mais influente de toda a história desta
disciplina. Euclides define aí o que chama «divisão em
extremo» e «rácio médio». Explica tratar-se da divisão de um
segmento em duas partes desiguais com uma propriedade
particular: o quociente entre o segmento inteiro e a parte
maior é igual ao quociente entre as partes maior e menor.
Feitas as contas, vê-se que essa proporção tem de corresponder
precisamente a Fi, a que chamámos número de ouro.
O tema foi retomado no século XIII por Leonardo de Pisa (c.
1170-1240), mais conhecido como Fibonacci, e por Fra Luca
Pacioli (1445-1517), que introduziu a expressão «proporção
divina». Só em meados do século XIX aparecem as designações
«rácio dourado» e «número de ouro».

O número Fi aparece em muitas
construções geométricas. Tomemos, por exemplo, um triângulo
isósceles (dois ângulos iguais) em que o ângulo menor seja
metade de cada um dos ângulos maiores (iguais), ou seja, um
ângulo tenha 36 graus e os outros dois tenham 72 graus cada. O
número de ouro aparece como o rácio de um lado maior para o
lado menor. Além disso, se dividirmos ao meio um dos ângulos
maiores, obtemos dois triângulos em que o menor é semelhante
ao triângulo que se dividiu - os lados estão na proporção dos
do triângulo original e os ângulos são os mesmos.
A construção geométrica mais famosa, no entanto, é a do
chamado rectângulo de ouro. Trata-se de um rectângulo em que
os lados estão na proporção dada pelo número Fi.
Tem-se especulado muito sobre as propriedades estéticas
deste rectângulo de ouro. Há quem diga que as suas proporções
são tão perfeitas que ele tem sido seguido em obras
arquitectónicas antigas, como a fachada do célebre Parténon
ateniense. Há também quem diga que o número de ouro aparece na
Grande Pirâmide do Egipto, sendo aí a razão entre a altura de
um triângulo lateral e metade da sua base. Como o mostrou
recentemente o matemático George Markov da Universidade do
Maine (www.umcs.maine.edu/~markov), essas
especulações não têm uma base credível. O que acontece é que
todos esses monumentos têm tantas medidas possíveis de
comparar que, após várias tentativas, é sempre possível
encontrar uma aproximação de algum número interessante. Do que
não restam dúvidas, contudo, é que o rectângulo de ouro é
particularmente belo e possui um aspecto esteticamente
apelativo. Em vários estudos, as pessoas chamadas a escolher
um rectângulo entre vários escolhem maioritariamente o
rectângulo de ouro. Esta figura geométrica parece ser mais
repousante para os olhos que o rectângulo dado pelo papel A4,
por exemplo.
Ambos esses rectângulos, contudo, permitem a sua divisão
sucessiva em figuras sempre semelhantes. Na figura junta,
comparam-se esses processos de divisão sucessiva. No A4, a
divisão processa-se ao meio, gerando dois rectângulos com
lados na mesma proporção que os do rectângulo original. Na
legenda da ilustração, aproveitamos para corrigir uma gralha
lamentável que se infiltrou em parte da legenda da semana
passada (aí tinha aparecido l2 em vez de l vezes raiz quadrada
de 2).
Para dividir sucessivamente o rectângulo de ouro gerando
sempre rectângulos semelhantes, segue-se uma regra diferente
da do A4. O rectângulo de ouro original divide-se de forma a
obter um quadrado e um rectângulo. Só há uma maneira de o
fazer, que é criar um quadrado com os lados iguais ao lado
menor do rectângulo original (ver figura).
Acontece que a parte restante é ainda um rectângulo de
ouro.
Dividindo sucessivamente um rectângulo de ouro com essa
regra, encontram-se rectângulos encaixados cada vez mais
pequenos. Neles podemos inscrever uma espiral que converge
para um ponto chamado pólo e que se encontra na intersecção de
duas diagonais: a do rectângulo original e a do rectângulo de
ouro resultante da primeira subdivisão. A espiral inscrita na
sucessão de rectângulos de ouro é chamada logarítmica e
reencontra-se nas situações mais diversas. Aparece em conchas
de animais marinhos, na trajectória de voo de falcões, em
flores e em galáxias.
Uma das ocorrências mais espantosas do número de ouro
encontra-se na disposição das pétalas das rosas. Elas
separam-se por ângulos que são partes fraccionárias de Fi.
Essa disposição permite arranjar as pétalas de forma compacta
e maximizar a sua exposição à luz. Tal como os matemáticos, a
natureza parece fascinada pelo número de ouro.