2 de Outubro de 2004

 

Ciência
Picasso, Einstein e a quarta dimensão

A peça de Steve Martin em cena no Teatro da Trindade é uma reflexão sobre as influências mútuas entre a ciência e a arte

 
Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso
 

Os historiadores de arte tiveram há muito a intuição de que o cubismo, um movimento artístico formalista e geometrizado, poderia ter sofrido a influência da revolução matemática e física que se operava no princípio do século XX. Uma discussão muito pormenorizada do problema encontra-se no clássico estudo de Linda D. Henderson The Fourth Dimension and Non-Euclidian Geometry in Modern Art (Princeton, 1983) e em Einstein, Picasso, de Arthur I. Miller (Basic Books, 2001). Neste último, o autor argumenta a favor de uma influência decisiva da matemática e da física no desenvolvimento do cubismo.

Steve Martin, autor da peça Picasso e Einstein actualmente em cena no Teatro Trindade, em Lisboa, leu certamente este último trabalho. A sua peça, situada no ano de 1904, explora habilmente o ambiente intelectual do princípio do século XX. Fá-lo através dos diálogos de dois homens que nunca se conheceram, mas que viviam intensamente o mesmo momento e tinham a intuição de estarem prestes a mudar o mundo: Albert Einstein (1879-1955) e Pablo Picasso (1881-1973). O primeiro, na altura com 25 anos, estava a um ano de publicar os seus famosos trabalhos de 1905, incluindo entre eles o artigo em que expõe a Teoria da Relatividade Restrita. O segundo, dois anos mais novo, estava a três anos de pintar Les Demoiselles d’Avignon.

Les Demoiselles é certamente uma das obras mais revolucionárias de Picasso. Acabada de pintar em 1907 e medindo 2,44 por 2,34 metros, a tela está exposta no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o célebre MoMA, onde constitui um dos mais preciosos elementos do acervo do museu. Representa um dos momentos decisivos da arte do século XX e é habitualmente considerada como marcando o nascimento do cubismo.

Através dos cadernos de Picasso e de vários outros testemunhos, sabe-se que o artista meditou longamente na preparação deste quadro. Nos seus esboços, encontram-se inúmeros desenhos, um deles surpreendente por ser a projecção de um sólido a quatro dimensões. Em todos os esboços revela-se uma busca contínua da simplificação de elementos do corpo humano, que se aproximam de figuras geométricas simples. Finalmente, encontram-se estudos de perspectivas diferentes e este elemento marcante do cubismo que Pablo Picasso e Georges Braque (1882-1963) tornariam tão claro nas suas obras seguintes: a justaposição de diferentes perspectivas sobre a mesma tela, revelando pontos de vista distintos do mesmo objecto.

Para perceber como estas preocupações artísticas podiam ter origem nas preocupações científicas da época, basta reler o matemático francês Henri Poincaré (1854-1912), considerado um dos precursores da Relatividade. Na sua Science et Hypothèse, uma obra de reflexão filosófica e divulgação científica publicada em 1902, explica como «se pode representar um mundo a quatro dimensões», partindo da analogia com a nossa visão, que nos «projecta na retina um quadro a duas dimensões». Nós sabemos que os objectos têm três dimensões, explica Poincaré, porque os vemos sequencialmente em diferentes perspectivas. Assim, prossegue, «tal como se pode fazer num plano a perspectiva de uma figura a três dimensões», pode-se «representar uma figura a quatro dimensões». E podem-se «tomar várias perspectivas de pontos de vista diferentes», dando-nos essa sequência de perspectivas a visão que teria um ser «que se deslocasse num espaço a quatro dimensões».

Sabe-se que Einstein leu esta obra de Poincaré numa tradução alemã de 1904 e que essa leitura teve uma influência imensa na sua reflexão sobre o mundo físico e sobre o espaço-tempo quadridimensional. É pouco provável que Picasso tivesse lido Poincaré, mas sabe-se que um dos elementos mais influentes do seu grupo de amigos era Maurice Princet, um actuário com uma extensa cultura matemática. E sabe-se que esse homem, depois conhecido como «o matemático do cubismo», lhe falava frequentemente da quarta dimensão, das geometrias não euclidianas e de outros temas matemáticos que fascinavam o grupo de Picasso.

Les Demoiselles mostram a solução de Picasso para o problema da representação quadridimensional: a pintura simultânea - e não sequencial como as representações de que falava Poincaré - de diferentes perspectivas de um mesmo objecto.

Pouco importa se o artista foi levado a criar o cubismo por inspiração directa na problemática revelada pelo matemático. A semelhança entre as preocupações geométricas de Picasso e as preocupações sobre o espaço-tempo de Poincaré e Einstein são demasiado evidentes para serem apenas uma coincidência.


TEXTO DE NUNO CRATO