10/2/2001


 
 
 
Prometeu torturado
 
 
Por Nuno Crato
 

Saiu há pouco um novo livro de Norman Levitt, um matemático norte-americano conhecido pelas suas posições frontalmente contrárias ao pós-modernismo. Em 1994, Levitt tinha co-autorado Higher Superstition e, em 1995, tinha co-editado The Flight from Science and Reason, ambos sob a chancela da John Hopkins. A célebre paródia de Alan Sokal e o seu livro Imposturas Intelectuais (Gradiva, 1999) datam de alguns anos mais tarde. Levitt é pois um precursor da crítica recente às concepções pós-modernas nas suas aplicações à ciência e à filosofia do conhecimento.

O novo livro intitula-se Prometheus Bedeviled (Rutgers University Press). Prometeu, o deus grego que tinha sido acorrentado por Zeus por ter oferecido aos homens o conhecimento do fogo, aparece aqui como o símbolo da transmissão do conhecimento científico. Na metáfora de Levitt, essa personagem mitológica é agora torturada (bedeviled) por novos opositores ao conhecimento e à atitude racional. Esses opositores são, segundo o autor, os filósofos pós-modernos, relativistas, construtivistas sociais e seus seguidores.

Particularmente interessante - sobretudo num momento em que o futuro da educação é tão discutido entre nós - são as páginas dedicadas às influências dessas correntes filosóficas no ensino. Vale a pena observar estas polémicas que se desenrolam do outro lado do Atlântico, pois elas acabam quase sempre por chegar à Europa e ao nosso país.

Levitt começa por retratar a reacção que se desenvolveu nos Estados Unidos a um ensino propositadamente elitista que vingou nos anos 50 e 60, as décadas mais dramáticas da Guerra Fria. Mostra como essa reacção, se bem que revestida de preocupações nobres e democráticas, acabou por construir um ensino que limitou as suas exigências e que ameaçou levar, progressivamente, a uma degradação das escolas. Tudo isto é há muito discutido nos Estados Unidos, que começaram há anos a reagir a essa degradação e a elevar os critérios de exigência nacionais. O que é pouco conhecida é a fundamentação filosófica das diversas teorias pedagógicas. Daí o interesse deste livro.

Uma das críticas ao ensino tradicional é que o «conhecimento da ciência deve ser 'construído' pelo estudante, ao invés de simplesmente 'aprendido'». Segundo Levitt, trata-se de um falso dilema. O conhecimento obtido quando o estudante reconstrói o processo de descoberta é mais estimulante e profundo do que o conhecimento baseado na simples memorização. No entanto, reduzir toda a aprendizagem a um processo de descoberta e evitar a memorização e o treino levar-nos-ia a retroceder muitos séculos. O conhecimento progrediu na base de um esforço de muitas gerações e não é razoável que um estudante, mesmo que muito dotado, possa percorrer por si todo esse processo.

Há matérias que devem ser memorizadas e há mecânicas que devem ser treinadas. Na matemática, em particular, «é necessário o domínio de técnicas de manipulação e computação até ao ponto em que se tornem mais ou menos automáticas», sublinha Levitt, para concluir que a própria «imaginação matemática requer fundamentos muito sólidos». O objectivo de todo o ensino é, afinal, recuperar e concentrar em poucos anos o que levou muitos séculos a ser descoberto e construído.

Percebe-se que uma filosofia relativista, em que se desprezam os conteúdos básicos a favor da «construção de saberes» e de uma «desconstrução da 'objectividade'», tenha como corolário a secundarização da exigência curricular. Ora, no ensino, o conteúdo é tão ou mais importante do que a forma, argumenta Levitt. A tendência a sublinhar os métodos pedagógicos e a «construção dos saberes» em detrimento dos conteúdos e da exigência de conhecimento é um movimento educativo nefasto. Métodos sem conteúdos apenas podem criar ignorantes ou fala-barato. Às vezes, as duas coisas.

Pergunta

Não será que os currículos científicos deveriam ser o ponto de partida para a recuperação do défice de ensino?

E.S., Aveiro

Resposta

O problema é o mesmo nas ciências e nas humanidades. Há matérias básicas que devem ser transmitidas ao estudante (e que requerem memorização!). É difícil perceber as correntes históricas se não se conhecer, mesmo que aproximadamente, a data da viagem de Magalhães, se se ignorar quando caiu Constantinopla ou se não se souber onde fica o Peloponeso. É difícil discutir a contaminação radioactiva sem se saber o que é um átomo e o que são isótopos. Assim como é difícil analisar os problemas derivados da queima de lixos sem perceber um mínimo sobre os processos de combustão.

As referências básicas são essenciais para os aspectos mais elevados da reflexão cultural e da participação cívica. A tendência, relativamente recente entre nós, de desprezar o conhecimento da língua portuguesa, dos factos e das ciências em favor de uma reflexão sobre a sua «construção social», os «conflitos» e as «interacções multidisciplinares» é altamente prejudicial ao ensino.

NOTA: Todas as questões que queira ver discutidas devem ser endereçadas ao jornal EXPRESSO, a/c Nuno Crato, Rua Duque de Palmela 37, 1269-200 Lisboa