Quanto tempo se gasta

a escrever uma crónica?

NUNO CRATO, Fevereiro de 2004

 

Um estudante de comunicação social escreveu-me a perguntar quanto tempo demorava eu a escrever uma crónica. Queria uma resposta pormenorizada, pois estava a fazer um inquérito para um trabalho de curso. Acabei por dá-la bem mais pormenorizada do que ele naturalmente desejaria. É que a resposta não é, na realidade, nada fácil.

Para ser mais elucidativo, vou referir-me a uma crónica específica: «Jovens Cientistas», publicada na rubrica «Passeio Aleatório» no Expresso de 31 de Janeiro de 2004. Quanto tempo gastei a escrever os 3501 exactos caracteres que enchem essas duas colunas da revista Única?

A resposta mais simples é: cerca de duas horas e meia. Recordo-me perfeitamente que iniciei a escrita pouco depois das onze da noite e que a acabei antes da uma da manhã. Dei-lhe duas ou três revisões rápidas e fui-me deitar. No dia seguinte, gastei mais uns três quartos de hora com o texto, pois imprimi o ficheiro do computador e li de novo o documento. Fiz mais algumas alterações e enviei a crónica por email. Se pudesse, deixá-la-ia de molho mais alguns dias e dar-lhe-ia uma revisão final mais tarde.

Quem não conhece o processo de escrita admira-se. Para quê rever e rever? É verdade. Rever, rever e rever é a base da escrita séria de quem pretenda ser entendido. Excluo aqui os grandes escritores, que não entram no grupo dos escrevinhadores normais em que me incluo e que terão o direito de fazer o que quiserem. Mas apenas esses. Não conheço pessoalmente nenhum grande escritor — e o estudante a quem me dirigia muito provavelmente não o será. Imagino que a regra de revisão seja praticamente universal. Embora muita gente se espante por se perder uma parte substancial do tempo de escrita com a revisão, o tempo que se gasta nessa tarefa raramente é demasiado. E é um tempo que não se pode gastar exactamente quando se quer. É necessário deixar o texto de molho umas horas, de preferência três ou quatro dias, ou mesmo mais, para o poder ler quase com os olhos de um leitor normal que desconhecia o texto. Lê-lo logo a seguir a escrevê-lo é má prática, pois não se guarda a distância suficiente e não se consegue detectar os vícios de português e os pontos menos claros. Habitualmente, os jornalistas não têm tempo para estes luxos. Mas quem escreve livros ou crónicas e não tem uma grande pressa, deve sempre reservar uns dias para colocar a sua escrita de molho, a repousar, para depois a ler com olhos mais críticos e poder melhorá-la.

Quem não tem prática de escrita achará tudo isto estranho. E quem não tem prática de escrita também não percebe que escrever é colocar no papel as palavras da forma mais clara possível. Que o escritor não estará lá quando o leitor o ler e que nenhuma ambiguidade pode ser então esclarecida.

Quem não tem prática de escrita habitualmente acha também que duas horas e meia é tempo demasiado para escrever uma crónica de 3500 caracteres. Este pequeno texto já vai em 3000, do topo até estas palavras, por isso meia hora pareceria suficiente... Quem está habituado a escrever, no entanto, achará duas horas e meia pouco tempo e, para mim, que escrevo devagar, é um tempo recorde. Se conseguisse escrever sempre a esse ritmo e tivesse quem me comprasse todos os textos, umas 10 horas de trabalho por semana chegar-me-iam para ter uma vida financeiramente folgada.

Mas o mais interessante está para vir. Na realidade, gastei muito mais do que duas horas e meia a escrever aquela curta crónica.

Repare-se que começo por falar de duas intervenções públicas do matemático Gregory Chaitin. Para o poder fazer, estive lá. Com a primeira perdi pelo menos umas cinco horas, pois foi uma sessão na FNAC que começou pelas 18h30, acabou pelas 20h e, para mim, se prolongou mais algumas horas, num jantar com Chaitin e o editor do seu livro. Na segunda, apenas gastei umas duas horas: uma com a sessão propriamente dita, outra em conversas de corredor. Estamos já em sete horas adicionais.

Cito depois uma opinião de Chaitin que ouvi num almoço a que fui com ele no dia seguinte. Poderia perfeitamente não ter ido, mas se tivesse falhado não teria ouvido da sua boca a afirmação de ser-se adulto aos 15 anos, exactamente daquela forma. O almoço demorou duas horas. Estamos em nove horas adicionais e não falámos ainda nos tempos de transporte.

Na crónica falo depois de uma intervenção do físico Manuel Paiva no Pavilhão do Conhecimento. Para saber o que lá se passou, estive nessa sessão, que demorou umas três horas. E fiz alguma pesquisa na Internet, que terá demorado no máximo uma hora.

Cito depois um livro de Manuel Paiva, que li de uma ponta à outra, o que me terá ocupado umas três horas, no mínimo. E para perceber melhor a sua reacção ao lançamento do Sputnik, reacção de que falo na crónica, tive longas conversas com este físico. Admitamos que, na maior parte, essas conversas versaram outros temas. Mas deverei somar pelo menos meia hora.

Estamos pois em 16 horas e meia. Somando-lhes duas horas de viagens, pois desloquei-me a quatro sítios diferentes em pontas opostas de Lisboa, estamos com 18 horas e meia que devem ser adicionadas às duas horas e meia de redacção propriamente dita. A crónica, afinal, demorou-me 21 horas a escrever. Quase três dias inteiros de trabalho no horário laboral legal da construção civil.

Escrevo isto e penso que há ainda informações presentes no texto que recolhi de outra maneira. Como sei, por exemplo, que Chaitin despertou para a ciência no tempo do Sputnik e que esse satélite artificial o marcou tão profundamente? Sei-o porque o entrevistei há anos nos arredores de Nova Iorque, onde me desloquei de propósito para o efeito. Como morava então a oeste de Nova Iorque, perdi nessa actividade pelo menos umas oito horas. E como sei de que fala o seu livro? Sei-o porque o li na edição original inglesa e reli agora algumas partes na edição portuguesa. E como sei que Manuel Paiva tem uma edição francesa do seu trabalho? Sei-o porque lhe fiz noutra altura uma entrevista — mais umas horas de trabalho —, porque ficámos amigos depois de um encontro de cientistas portugueses no estrangeiro realizado em Ponta Delgada e onde estivemos durante vários dias, porque fui um dia visitá-lo a Tavira e passámos longas horas numa conversa, no meio da qual me ofereceu a versão francesa do seu livro. Sei bem que tudo isto se passou independentemente de ter escrito ou não a crónica. Mas não estão aqui outros tantos dias de trabalho?

Já vamos numa semana completa, em horário de 40 horas. Quanto tempo demorei, afinal, a escrever a minha crónica?

Chegado a este ponto, o meu leitor está a pensar que exagero. E de facto não estou a distinguir entre o trabalho específico orientado para a escrita da crónica e aquele que fiz, independentemente desta. Peço-lhe, no entanto, que esteja de acordo comigo em duas coisas. Primeiro, que é difícil distinguir as duas actividades e, portanto, a resposta à pergunta do estudante de comunicação não é simples. Segundo, que há certamente trabalho prévio envolvido que ultrapassa em muito as duas horas e meia da contabilidade inicial.

A história, no entanto, não está acabada. No trabalho prévio tenho de contabilizar a indecisão e os projectos falhados.

Para começar, não escrevi uma, mas sim três crónicas e escolhi delas a que me pareceu mais interessante e actual. Comecei por escrever uma sobre um percalço que tinha tido com o meu banco e que me obrigou a perder tempo e dinheiro no pagamento do IRS, por ineficiência de um programa informático e por uma atitude de resistência à inovação que os serviços do banco revelaram. Parecia-me um tema interessante e actual. Falava do pagamento de impostos, numa altura em que as pessoas se preocupam em juntar os documentos para pagar os seus.

Por que razão a rejeitei, logo na minha primeira revisão? Porque me parecia demasiado negativa e porque tenho procuro manter um espírito positivo no que escrevo. Por um lado, porque o leitor deve ter as suas próprias preocupações e não lhe deve interessar deprimir-se adicionalmente com as minhas. Por outro, porque julgo que tem um efeito mais positivo fazer chegar aos leitores uma mensagem optimista, indicando o que pode ser feito e não o que deve ser evitado.

Com isto perdi pelo menos duas horas. Com o próximo rascunho perdi menos. Tratava-se de uma discussão sobre o número Pi a propósito de um texto inacreditável que encontrei num livro pós-moderno sobre a inconstância das constantes matemáticas. Refiro-me a Um Conhecimento Prudente para Uma Vida Decente, de Boaventura Sousa Santos. O texto em causa merecia uma refutação cuidada, mas não a queria fazer apenas por polémica. Queria fazer um artigo didáctico sobre Pi que explicasse tratar-se de uma constante matemática universal, perene e imutável, e que a descoberta dessas mesmas características de Pi representaram uma conquista da Humanidade. A polémica apareceria por acréscimo. Simplesmente, não o consegui. O texto já tinha há muito ultrapassado os 3000 caracteres e ainda estava eu a falar de Arquimedes... Desisti e arquivei a ideia para melhor oportunidade. Outras duas horas perdidas.

Quero fazer as contas e chegar a uma conclusão, mas não consigo. Na realidade, não sei nem imagino como possa saber o tempo que gasto para escrever uma crónica. Sei apenas que gasto muito mais do que gastei para escrever este texto que agora vai no fim, com 9405 caracteres. Foram exactamente 49 minutos, porque estava cheio de gás.