Expresso - Única   10 de Setembro de 2005
Passeio Aleatório
Regresso às aulas

Para os estudantes do ensino básico e secundário o ano lectivo inicia-se dentro de dias. Parece cedo para falar de estudos, de exames e de resultados. Mas não é. E numa das disciplinas mais problemáticas - a Matemática! - começar bem é muito importante. Será que as opiniões de um professor de matemática interessam ao leitor? Pelo sim pelo não, aqui vão elas.

Comece-se por reconhecer que a matemática não é difícil. Para muitos estudantes é mesmo a mais fácil das disciplinas. Por uma razão simples: é bem delimitada e percebe-se bem o que se pede. Sabendo-o, têm-se bons resultados. Mas para a maioria dos jovens, a matemática provoca calafrios e lembra maus momentos. Desnecessariamente, pois com um pouco de método e de esforço, tudo se percebe.

O professor conta muito, claro. Um professor que trate a matéria por tu, que saiba explicar bem os conceitos fundamentais, que consiga perceber as dificuldades dos alunos e que esteja disponível para os ajudar... um professor assim é sempre uma ajuda preciosa. Mas os estudantes não se podem desculpar com o professor. Tampouco podem culpar a falta de motivação. Ou o facto de desconhecerem a utilidade do que estão a aprender. Os maus resultados derivam habitualmente de pouco trabalho e, sobretudo, de maus métodos de trabalho.

Para ter sucesso é preciso persistir. Como em tudo na vida. Mas em matemática é preciso trabalhar com uma grande regularidade, todos os dias ou quase todos os dias. Não é com noitadas que se consegue perceber matemática. É com cabeça fria. Uns minutos, às vezes não muitos, ao longo de todo o ano, desde o princípio das aulas.

A matemática tem uma característica que para muitos alunos é ruinosa, mas que não precisa de o ser. Nesta disciplina há precedências claras. Sem se saber o que é um losango não se pode calcular a sua área. Sem se saber o que é uma função não se pode saber o que é uma derivada. Sem se saber o que é um cone não se pode perceber como é a sua secção. E por aí adiante. Isso significa que se tem de começar do princípio e que não vale a pena tentar resolver exercícios de uma matéria sem perceber os fundamentos que a precedem.

A maioria dos estudantes, no entanto, procede ao contrário do que devia. Tenta «praticar», resolvendo exercícios antes de perceber exactamente o que os antecede. Quando não consegue resolver um problema, passa ao seguinte, pensando que talvez seja capaz de solucionar esse outro.

É preciso dizer-se que a mania de «praticar» resolvendo exercícios que não se percebem é uma mania prejudicial. Mais vale perceber bem um problema do que atacar mil que não se entendem. Os exercícios constituem habitualmente a parte final do estudo - ajudam a verificar se se percebeu ou não a matéria. Primeiro é preciso percebê-la. Nunca se deve desistir de tentar perceber.

É verdade, em matemática, tal como em muitas coisas na vida, um dos princípios mais importantes é não desistir. Nunca desistir! E como se faz isso? Faz-se com força de vontade e com trabalho, mas faz-se sobretudo com método. Tal como nas reparações domésticas ou nos trabalhos mecânicos, «o material tem sempre razão». Ou seja, quando não se percebe uma coisa não vale a pena passar à frente pensando que se vai perceber a próxima. Quando não se entende, deve-se parar para tentar entender. Se mesmo assim não se percebe, volta-se atrás em vez de se fugir para a frente. E pede-se ajuda ao professor ou aos colegas.

Em matemática, começar bem é muito importante. Desde os primeiros dias de aulas!

Nuno Crato