22.11.2003

Passeio aleatório
Eliminar palavras inúteis

Um dos livros mais úteis que alguma vez li é o «Strunk and White». Chamo-lhe assim porque é assim que ele é conhecido. Na realidade, o seu título é The Elements of Style, mas todos se lhe referem com os nomes dos autores. Vendeu milhões e continua a ser dos livros mais vendidos e lidos na América do Norte.

Trata-se de um livrinho com 92 páginas originado num opúsculo escrito por William Strunk Jr. nos princípios do século XX. Em 1959 foi reformulado pelo escritor E.B. White. Teve depois disso várias actualizações. A quarta edição saiu em 2000 e está no topo de vendas dos Estados Unidos, muitos anos depois da morte dos autores.

Strunk era professor de inglês na Universidade de Cornell, no estado de Nova Iorque. Falava sempre do seu livrinho como «o pequeno livro», acentuando carinhosamente a palavra «pequeno». White foi seu aluno e tornou-se conhecido por alguns romances para crianças, tais como Charlotte’s Web e Stuart Little, obras deliciosas que ajudaram a crescer várias gerações de jovens norte-americanos.

«Strunk and White» é um livro despretensioso. Limita-se a ser uma colecção de regras de escrita. Explica onde se deve colocar a vírgula e onde se deve colocar o ponto final, recomenda que não se misturem os tempos verbais, lista palavras e expressões habitualmente mal usadas. Por detrás de tudo está uma filosofia de escrita: usar palavras simples, escrever frases compreensíveis, eliminar sentidos ambíguos, comunicar com o leitor, evitar todos os obstáculos à compreensão das ideias.

Infelizmente, não conheço nada semelhante em português. E bem necessário seria, pois uma das pechas mais habituais na nossa escrita é a falta de clareza e de parcimónia. Escolho quase ao acaso na crítica literária de um jornal diário e encontro: «Nesse corpo poemático imagina-se a correlativa angulosidade orgânica...» Viro-me para um relatório universitário e leio: «Existem as competências a nível nacional para iniciar e completar a implementação de soluções globais e sistémicas de cariz moderno para a problemática referida». Ao redactor do primeiro extracto nada posso sugerir, pois nem sequer o compreendo. No segundo, em 24 palavras consigo contar várias inúteis: «nível», «sistémicas», «cariz»... Não se poderia dizer simplesmente «temos capacidade no país para resolver o problema»? Seriam apenas oito palavras, um terço do original.

Recentemente, na terra de Strunk e de White, uma conhecida empresa de consultoria, a Deloitte Consulting, resolveu usar armas modernas para combater este problema antigo. Criou um programa de computador a que chamou Bullfighter e que identifica jargão potencialmente inútil num texto que lhe seja submetido. O programa pode ser descarregado gratuitamente a partir de www.dc.com/bullfighter. É o pequeno contributo destes consultores para a clareza da linguagem. O facto é ainda mais notável por provir de uma área, a consultoria, em que o jargão inútil e pretensioso abunda.

O programa funciona por cima de um processador de texto e identifica palavras potencialmente inúteis ou evitáveis. Nuns casos sugere alternativas, noutros sugere a eliminação. Não valeria a pena fazer uma coisa semelhante em português? Como contribuição para esse programa aqui vão cinco palavras usadas e abusadas: multidisciplinaridade, sinergia, incontornável, sistémico e proactivo. Se o seu uso em português diminuísse, imagino que Strunk e White ficariam contentes. Sabem qual é a regra mais sublinhada no seu livro? Eliminar palavras inúteis!

 

Nuno Crato