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Expresso - Passeio
Aleatório - 4 de Dezembro de 2004
A
tabuada e a máquina de calcular
Num conto magnífico incluído na colecção Nove
Amanhãs, Isaac Asimov (1920-1992) imagina uma
civilização do futuro que se tinha esquecido da
tabuada e dos algoritmos das quatro operações.
Apenas as máquinas conseguiam fazer contas. Os
humanos tinham de as usar para todos os cálculos,
mesmo os mais elementares.
Ninguém se interrogava sobre o que as calculadoras
faziam. Mas, a certa altura, aparece um jovem técnico
que começa a ficar curioso. Repara em certas
regularidades e constrói uma tabuada. Pouco a pouco,
percebe o mecanismo das operações e começa a fazer
contas.
Afirma com toda a confiança: «Três vezes
sete, vinte e um... quatro vezes oito, trinta e dois...».
Os amigos duvidam e vão verificar os resultados com a
máquina. Dá certo! Dá sempre certo! «Soma agora 23
com 48! Dá 71! E não é que dá mesmo!?»
A história foi escrita em 1958 e parece
premonitória. De facto, há hoje muitos jovens
estudantes que sacam das máquinas para resolver as
operações mais elementares. Habituaram-se a isso
quando estavam na escola e já não o sabem fazer de
outra maneira. Ora, fazer contas mentalmente é muito
útil no dia-a-dia. Serve para comparar preços no
supermercado, fazer trocos, medir o tempo, deitar
contas à vida.
Mas há ainda mais, conforme ficou claro para os
muitos que na semana passada encheram as salas da
livraria Almedina. Numa das habituais sessões do
livro científico das «Sextas às Sete» dessa
livraria, em Lisboa, Alexandre Castro Caldas explicou
que o exercício do cálculo mental e a memorização,
nomeadamente da tabuada, ajudam a desenvolver regiões
do próprio cérebro e capacitam os jovens para outras
actividades. Explicou também que há uma janela de
oportunidade para essa aprendizagem. Privá-los desse
treino em tenra idade é limitá-los no seu
desenvolvimento intelectual futuro.
É o que se está a passar com muitos jovens. E a
culpa não é deles. Com pretexto na «aprendizagem
significativa», atacaram-se os «vícios
da memorização», mas errou-se no alvo.
Leia-se o programa de Matemática do 1º Ciclo,
aprovado em 1990. Diz-se aí que a «máquina
de calcular não pode deixar de ter lugar no 1º Ciclo»
(jovens dos seis aos dez anos). Fala-se nos «cálculos
obtidos, utilizando algoritmos ou a máquina de
calcular» e depois diz-se que «na sala
de aula deve haver materiais de apoio e o professor
permitirá que cada criança utilize, com liberdade, o
que lhe for mais conveniente». Ou seja, diz-se
que o professor não pode impedir uma criança de seis
a dez anos de usar a calculadora sempre que ela o
queira fazer. Ideia semelhante repete-se no «Currículo
Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais»
(2001), página 60.
Felizmente, a maioria dos professores tem mais bom
senso que os teóricos da pedagogia romântica e sabe
que permitir que o aluno use a máquina de calcular
sempre que o queira é caminho certo para que ele
nunca desenvolva o cálculo mental.
Dito tudo isto, é preciso acrescentar que a
calculadora devia ser mais usada no Ensino Secundário.
Sobretudo, mais bem usada. Nessa altura, começam a
aparecer frequentemente contas muito difíceis,
impossíveis de resolver manualmente. É preciso
conhecer melhor a máquina de calcular para poder
enfrentar esses novos desafios. Mas há muitos alunos
que chegam à universidade sem saber calcular
exponenciais, logaritmos ou tangentes, pois nunca
perceberam as correspondentes funções das suas
máquinas. É triste, mas por vezes parece que andamos
a fazer tudo ao contrário.
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