Ideias Nefastas
para a Educação
Por ANTÓNIO BARRETO
PÚBLICO, Domingo, 4 de Março de 2001
Nunca saberemos exactamente onde as coisas começaram e por
que vias chegaram até aos nossos dias. Mas são muitos os nomes de pessoas,
escolas e experiências que foram elaborando a pesada doutrina que preside hoje
à educação. Entre nós, um marco inicial é seguramente a direita esclarecida de
Veiga Simão e dos seus gabinetes de estudos e planeamento. Depois, sem que se
tenha verificado ruptura, fomos assistindo, de Marcelo Caetano a António
Guterres e de Roberto Carneiro a Augusto Santos Silva, às contribuições da
revolução marxista, da esquerda jacobina, da anarquia libertadora e do
cristianismo pedagógico; da pedagogia activa, da engenharia social igualitária,
das ciências da educação e da nova moral civil e puritana. É extraordinário e
talvez único que, com tão diversas colaborações, tão diferentes modas políticas
e tão contraditórias inspirações filosóficas, se tenha conseguido construir um
tão imperial património. No essencial, a educação portuguesa (e outros países
haverá) é governada por um conjunto sagrado de ideias feitas. De dogmas que é
perigoso discutir. Mais ainda entre nós, onde os debates sobre a educação
versam sobre o acessório, o quantitativo e a intendência. O que se segue é um
modesto contributo, sem a argumentação nem a alternativa que ficam para outros
momentos. É o elenco de trinta ideias nefastas que organizam a escola
portuguesa tal como a conhecemos.
1. A igualdade absoluta de métodos e de organização
no ensino básico e secundário é uma arma contra a desigualdade social.
2. O fomento da educação nacional e igualitária
destrói as desigualdades sociais.
3. O desenvolvimento da educação precede o
desenvolvimento social e económico e diminui as desigualdades sociais.
4. O desaparecimento de ramos separados de
ensino humanista e técnico é uma arma eficaz contra as diferenças de classe e
cria mais oportunidades para os filhos das classes trabalhadoras.
5. Nas últimas décadas, os progressos da educação
diminuíram as desigualdades sociais.
6. A aprendizagem deve basear-se no princípio do
prazer.
7. As actividades criativas, lúdicas e "de
projecto" devem preceder e sobrepor-se às funções de aprendizagem formal
(ler, contar, escrever, exprimir-se).
8. As escolas básicas e secundárias não são
pertença das autarquias mas sim do ministério da educação nacional.
9. A diferenciação vocacional e a especialização
disciplinar devem começar no fim do básico ou no princípio do secundário, por
volta dos quinze anos.
10. O sistema de ensino deve ser totalmente
integrado e a sua gestão global deve ser unificada e centralizada.
11. A função vocacional e profissional do ensino
deve sobrepor-se à de cultura geral, humanista e científica, e à artística.
12. As comunidades educativas são compostas
pelos professores e pelos alunos, com exclusão dos pais, dos munícipes e dos
autarcas.
13. Os castigos escolares devem ser reduzidos ao
mínimo ou substituídos por acções de recuperação.
14. Os exames, os trabalhos de casa e outras
provas afins são fonte de "stress" para os alunos e devem ser
reduzidos ou eliminados.
15. Não deve haver prescrições nem um número
máximo de anos para cumprir determinados graus.
16. Os "chumbos" são reduzidos ao
mínimo excepcional ou mesmo eliminados.
17. As escolas devem preocupar-se com a formação
integral do indivíduo e facultar uma completa educação cívica e moral.
18. Os órgãos de gestão administrativa das
escolas devem ser eleitos.
19. O sistema de colocação de professores nos
ensinos básico e secundário deve ser nacional, unitário e integrado.
20. A principal função da universidade é o
ensino.
21. Todos têm o direito de aceder à
universidade.
22. Os financiamentos da universidade são uma
função do número de estudantes matriculados.
23. Os alunos têm o direito de participar nos
órgãos directivos das escolas, nomeadamente das universidades.
24. Os politécnicos devem gradualmente
transformar-se em universidades.
25. O estatuto da carreira docente do ensino
superior deve ser pormenorizado e aplicar-se de modo igual em todas as escolas.
26. As universidades não têm o direito de
escolher livremente os seus professores e investigadores e de lhes pagar
diversamente.
27. As universidades não têm o direito de
escolher os seus estudantes de acordo com critérios de mérito próprios e
através de provas de selecção.
28. O crescimento metastásico das universidades
privadas corresponde a uma assunção de responsabilidades pela sociedade civil.
29. A acumulação de funções docentes em várias
universidades rivais é aceite.
30. Os que criticam estas ideias e contrariam a
ortodoxia reinante são necessariamente adeptos de uma educação repressiva e
salazarista.
Dada a força deste património doutrinário, será possível,
um dia, alterar o essencial deste sistema absurdo? Quantas mais décadas teremos
de sofrer esta ideologia? Dado o seu sucesso, não será tarde de mais?
Apetece-me responder "nunca é tarde". Mas sei que é difícil.