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O
Mistério da Educação
Por
ANTÓNIO BARRETO
Domingo,
09 de Maio de 2004
São de uma regularidade impressionante. Como as fases da lua
e as aves de arribação. Ou como os primeiros jacarandás, que,
timidamente, floriram esta semana. São as declarações,
oficiais ou não, sobre o lamentável estado da educação no
nosso país. O Presidente da República fez mais uma das suas
"semanas temáticas", cujo destino, infelizmente,
parece ser igual ao de outras: metros de fita na televisão,
páginas de jornais, aplausos nas freguesias, eventualmente
livros para distribuição gratuita e algumas emoções, seja
dos espectadores, seja do próprio. O Ministro da Educação
acompanhou-o e as suas afirmações revelaram uma tensão
polémica, mas não se percebeu muito bem o que os separava. A
certo momento, imaginou-se que Jorge Sampaio queria que as
coisas ficassem como estão, mas que dessem melhores frutos;
enquanto David Justino entenderia que o sistema deveria ser
deitado fora ("está feito para o insucesso"...) e que
era necessário reformar tudo. Mas, noutros momentos, o Ministro
mostrava satisfação, enquanto o Presidente se indignava com a
situação e fazia apelos emocionados à mudança. Provavelmente
têm ambos razão. Sempre. Provavelmente também, tudo ficará
como dantes.
A educação é o lugar comum de todos os preconceitos, da
indignação moralista e das boas intenções do mundo. Apesar
de ser o sector de mais rápido e significativo crescimento do
orçamento público, continua a afirmar-se tranquilamente que
são necessários mais recursos. Mau grado ter sido, nestes
vinte ou trinta anos, o sector público que revelou a mais
notável expansão de pessoal, de utentes, de profissionais, de
edifícios e de equipamento, persiste-se em garantir que está
sub-financiado e não é ainda uma prioridade política. Não
obstante a parte dos vencimentos dos professores ser, na Europa,
uma das mais altas proporções do produto nacional, mantém-se
a crença na miséria salarial dos docentes.
A verdade é que, apesar do colossal esforço nacional, os
resultados são lastimosos. A tal ponto que constituem
verdadeiros mistérios para os quais não há meio de encontrar
soluções. A acreditar nos números (as estatísticas da
educação, em Portugal, são as de pior qualidade), quase
metade dos estudantes do secundário deixa o sistema antes de
acabar o respectivo ciclo. Além disso, metade dos estudantes
inscritos nas universidades abandona sem ter terminado um
qualquer diploma. Sem falar nos que chegam à universidade, em
maioria absolutamente mal preparados. Por outro lado, a taxa de
abandono de alunos do último ciclo do ensino básico
obrigatório é altíssima, de longe, muito longe, a maior da
Europa. Finalmente, os inquéritos internacionais às
competências dos alunos (e não se conhecem muitos, pois o
Estado português e vários dos seus governos fazem o possível
por evitar que sejam divulgados) mostram, de modo repetido, que
os portugueses, numa lista de mais de cinquenta países,
incluindo alguns ditos do Terceiro Mundo, se encontram em
último lugar no ensino e no conhecimento da língua materna, da
física e da matemática.
Perante estes factos, que toda a gente conhece, a primeira
reacção consiste em elaborar reformas globais. Quase nenhum
governo, quase nenhum ministro resistiu. Se teve tempo, tentou.
E se não teve, também. Uma análise cuidadosa dos resultados
mostra que a situação não cessou de se agravar. Os únicos
indicadores que mostraram melhoria, ou antes, aumento, são os
relativos aos números de estudantes e de professores que
cresceram exponencialmente. Desse ponto de vista quantitativo, a
democratização do ensino é um sucesso. Até ao dia em que os
fluxos demográficos impuseram uma redução, muito
significativa, do número de alunos. A partir daí, a
população discente decresceu de modo sustentado, enquanto a
população docente continuava a crescer. Todos os outros
indicadores, se tivermos em conta o esforço financeiro
realizado, mostraram um agravamento permanente. Com, todavia,
algumas excepções fictícias, em consequência de instruções
políticas e administrativas dadas por um ou outro ministro, um
ou outro secretário de Estado, no sentido de aumentar as notas,
repescar alunos chumbados, eliminar os exames, facilitar as
passagens automáticas e evitar os repetentes. Para bem da
estatística. E descanso dos governantes.
Não há, em Portugal, uma dúzia de professores de
matemática, de física e de português, pedagogos,
profissionais não docentes, especialistas em administração
escolar e outros, em número e qualidade suficientes para formar
uma autoridade capaz de conhecer o problema e fazer uma
diagnóstico rigoroso? Com poderes para ordenar as mudanças
necessárias? E, caso não haja ninguém capaz em Portugal, não
se poderá pedir a uns estrangeiros que venham ver o que aqui se
passa de tão estranho? Não há um governo que esteja disposto
a abdicar das suas bizarrias ideológicas e dos seus programas
demagógicos e se interesse em entregar, a quem sabe, a
remodelação daqueles ensinos, incluindo uma alteração
radical dos programas, dos métodos, dos currículos, dos
manuais, da disciplina, da avaliação e dos objectivos de
ensino daqueles três cancros? Não terá chegado o momento de
concluir que a maior parte dos mitos da educação portuguesa
falharam redondamente e são responsáveis pelo maior fiasco
financeiro, colectivo e cultural das últimas quatro décadas?
Não tenho, evidentemente, a chave para tais mistérios.
Apenas conheço alguns dos programas e dos manuais das áreas
disciplinares que me são familiares e que ultrapassam os
limites do absurdo. Mas estou convencido de que, entre os erros
cometidos e repetidos, estão a demagogia da facilidade, a
propaganda política, o excesso de dinheiro gasto sem critério,
as correntes pedagógicas que pretendem fazer do ensino uma
festa de prazer e preguiça, a condenação do disciplina e a
convicção de que a educação cria a igualdade e a mobilidade
sociais. Creio ainda que o centralismo do sistema educativo, a
autoridade burocrática do ministério, a uniformidade de
governo das instituições, a expulsão dos pais e dos autarcas
das escolas e a chamada gestão democrática foram venenos
instilados na educação pública de que pagaremos a factura
durante décadas. São estas as minhas crenças. Falíveis, com
certeza. Mas gostava que me demonstrassem que estão erradas.
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