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Director Mário Bettencourt Resendes    Director Adjunto António Ribeiro Ferreira
Quarta Feira
10 de Abril
de 2002
edição n.2292

 
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ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA
Artigos anteriores:
Sábios e equívocos
(publicado quarta feira, dia 13 de março)
O magistério da confusão
(publicado quarta feira, dia 10 de abril)
António Manuel Baptista
O magistério da confusão

É lamentável, por muitas razões, o artigo de Boaventura de Sousa Santos "O disparate informal" (DN de 2 de Abril). Segundo ele, no meu livro (O Discurso Pós-Moderno contra a Ciência. Obscurantismo e Irresponsabilidade, Gradiva, 2002), parece que tenho todos os vícios, que ele conhece bem, por os exibir tão à vontade no seu escrito: "descontextualização", "falsificação", "ridicularização", "ignorância", "recusa em discutir ideias", "dislates", etc., etc. Mas, pensando melhor, afinal, acho que BSS tem alguma razão.

A simples exposição de muitas das suas ideias e posições, baseadas em citações do seu texto, pode ser classificada como um conjunto de insultos (à inteligência do leitor) que se reflectem açoitando o autor. Mas disso não temos qualquer responsabilidade.

Qualquer pessoa que tenha lido o meu livro pode certificar que nunca usei nele de termos insultuosos para BSS, apesar da minha exasperação, quando percebia que o que ele deve considerar como "argumentação" é um conjunto de afirmações incoerentes e inconsistentes, com muitas citações indigeridas, aparentemente eruditas. Quando se passa aos insultos, como o faz, a resposta poderia ser procurar outros insultos, se possível mais contundentes. Não me parece postura digna de quem deveria continuar o seu ofício perante o público.

Sobre o que pertence ao seu livro (Um Discurso sobre as Ciências, Afrontamento, 2001), que é o que nos deveria interessar, cala-se completamente, mas não envergonhado, e tenta confundir o leitor desviando-o para outros assuntos, impertinentes. Assim, a referência ignóbil: "Depois de vários jogos de palavras de mau gosto sobre a "reduzida inteligência" e a cegueira de Saramago, etc."

Isto refere-se a um artigo que publiquei na Gazeta de Física intitulado "A "reduzida inteligência" de Saramago?" (reparem nas aspas), o qual saiu sem o ponto de interrogação, que, aliás, não faz falta ao honesto leitor do texto. Veja-se a "habilidade" como disfarçou as aspas da "reduzida inteligência" no título!

E, também, a única referência a "cegueira" encontra-se no final do artigo, onde escrevi: "Não deixa de ser irónico saber-se que Saramago escreveu longamente sobre a cegueira." Infelizmente para ele, não se pode acusar BSS de não ser esperto.

Tem outros atributos mais evidentes... Por isso, fala de "descontextualizar, falsificar e ridicularizar" e de tudo o resto, sem se dar ao cuidado de o justificar, no seu magistério da confusão. Assim, o desafio feito no capítulo "Reflexões Finais" do meu livro para que se explicasse nem sequer é referido. Por exemplo, como é que as ciências sociais podem contribuir para resolver (o exemplo é de BSS) as "inconsistências entre a mecânica quântica e a relatividade"? Ou mostrar exemplos ou argumentos em que se apoia, para dizer, magistralmente confuso, como costuma, que "todo o conhecimento é autoconhecimento"? Ou que "todo o conhecimento científico-natural é científico-social"? Como, porquê, onde? E mais, e mais, e muitas outras opiniões do mesmo jaez e substância.

Quando me perguntaram porque escrevi o livro, dei uma resposta sucinta. Aproveito para, oportunamente, a completar com um conhecido conto que, abreviadamente, vos recordo.

O banqueiro Rothschild é surpreendido quando encontra, numa rua de Paris, David, um grande amigo de infância, na sua remota aldeia judaica perdida na Polónia, e que gastara todas as economias para realizar o sonho de vir a Paris. Rothschild instala-o no seu palácio e acompanha-o, carinhosamente, por toda a parte: teatros, restaurantes, museus e tudo o que o dinheiro, limpo por uma boa amizade, pode conseguir. Passados tempos, já na sua aldeia, David teve a oportunidade de receber Rothschild, alojando-o na sua mais que modesta casa. Ao fim de três dias, quando Rothschild se despedia, disse-lhe David: "És muito rico e eu, como viste, muito pobre. Creio que 150 francos são um preço justo pelo teu alojamento." Rothschild ia morrendo de espanto e indignou-se mesmo: "Depois do que fiz por ti, tu pedes-me dinheiro pelo alojamento?..." "Bem", diz David, "não vale a pena discutir. Vamos falar com o rabi e, se concordares, qualquer que seja a sua decisão, vamos acatá-la." Rothschild aceitou. O rabi ouviu atentamente os argumentos apresentados e, depois de meditar, decidiu: "Tu, Rothschild, és um homem rico e David é muito pobre; acho que 150 francos são um preço justo." Furioso, Rothschild quase que atirou o dinheiro à cara de David e dirigiu-se para a estação. Estando à janela do comboio, Rothschild viu chegar David, que, sorridente, lhe devolveu os 150 francos: "Então, estavas convencido de que eu queria o teu dinheiro?" E explicou-lhe: "Sabes, depois do que fizeste por mim, em Paris, perguntei-me: "O que é que lhe poderei mostrar, aqui, que ele não conheça?" E lembrei-me então do rabi. Tu fazias ideia de que pudesse existir um homem como o nosso rabi? Já conheceste alguém tão, tão... como ele?" Aqui, o leitor inventará um qualificativo para o rabi, já que eu não quero assumir essa responsabilidade.

Serve o conto para dizer que, como David, com o meu livro, quis que muitos portugueses soubessem que entre nós havia um rabi, perdão, um professor catedrático, como Boaventura de Sousa Santos...

É pena que lhe tenham traduzido o notório livro, porque, assim, não podemos guardar mais o segredo... E, em todos os artigos que vai escrevendo, cada vez me parece ficar mais perto daquilo que deve ser, um zeloso SS do pensamento.

Um esboço vai-se transformando num quadro davinciano quase tão perfeito como uma boa teoria científica na sua correspondência com a realidade.

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