É lamentável, por muitas razões, o
artigo de Boaventura de Sousa Santos "O disparate informal"
(DN de 2 de Abril). Segundo ele, no meu livro (O Discurso
Pós-Moderno contra a Ciência. Obscurantismo e
Irresponsabilidade, Gradiva, 2002), parece que tenho todos
os vícios, que ele conhece bem, por os exibir tão à vontade no
seu escrito: "descontextualização", "falsificação",
"ridicularização", "ignorância", "recusa em discutir ideias",
"dislates", etc., etc. Mas, pensando melhor, afinal, acho que
BSS tem alguma razão.
A simples exposição de muitas das
suas ideias e posições, baseadas em citações do seu texto,
pode ser classificada como um conjunto de insultos (à
inteligência do leitor) que se reflectem açoitando o autor.
Mas disso não temos qualquer responsabilidade.
Qualquer
pessoa que tenha lido o meu livro pode certificar que nunca
usei nele de termos insultuosos para BSS, apesar da minha
exasperação, quando percebia que o que ele deve considerar
como "argumentação" é um conjunto de afirmações incoerentes e
inconsistentes, com muitas citações indigeridas, aparentemente
eruditas. Quando se passa aos insultos, como o faz, a resposta
poderia ser procurar outros insultos, se possível mais
contundentes. Não me parece postura digna de quem deveria
continuar o seu ofício perante o público.
Sobre o que
pertence ao seu livro (Um Discurso sobre as Ciências,
Afrontamento, 2001), que é o que nos deveria interessar,
cala-se completamente, mas não envergonhado, e tenta confundir
o leitor desviando-o para outros assuntos, impertinentes.
Assim, a referência ignóbil: "Depois de vários jogos de
palavras de mau gosto sobre a "reduzida inteligência" e a
cegueira de Saramago, etc."
Isto refere-se a um artigo
que publiquei na Gazeta de Física intitulado "A
"reduzida inteligência" de Saramago?" (reparem nas aspas), o
qual saiu sem o ponto de interrogação, que, aliás, não faz
falta ao honesto leitor do texto. Veja-se a "habilidade" como
disfarçou as aspas da "reduzida inteligência" no
título!
E, também, a única referência a "cegueira"
encontra-se no final do artigo, onde escrevi: "Não deixa de
ser irónico saber-se que Saramago escreveu longamente sobre a
cegueira." Infelizmente para ele, não se pode acusar BSS de
não ser esperto.
Tem outros atributos mais evidentes...
Por isso, fala de "descontextualizar, falsificar e
ridicularizar" e de tudo o resto, sem se dar ao cuidado de o
justificar, no seu magistério da confusão. Assim, o desafio
feito no capítulo "Reflexões Finais" do meu livro para que se
explicasse nem sequer é referido. Por exemplo, como é que as
ciências sociais podem contribuir para resolver (o exemplo é
de BSS) as "inconsistências entre a mecânica quântica e a
relatividade"? Ou mostrar exemplos ou argumentos em que se
apoia, para dizer, magistralmente confuso, como costuma, que
"todo o conhecimento é autoconhecimento"? Ou que "todo o
conhecimento científico-natural é científico-social"? Como,
porquê, onde? E mais, e mais, e muitas outras opiniões do
mesmo jaez e substância.
Quando me perguntaram porque
escrevi o livro, dei uma resposta sucinta. Aproveito para,
oportunamente, a completar com um conhecido conto que,
abreviadamente, vos recordo.
O banqueiro Rothschild é
surpreendido quando encontra, numa rua de Paris, David, um
grande amigo de infância, na sua remota aldeia judaica perdida
na Polónia, e que gastara todas as economias para realizar o
sonho de vir a Paris. Rothschild instala-o no seu palácio e
acompanha-o, carinhosamente, por toda a parte: teatros,
restaurantes, museus e tudo o que o dinheiro, limpo por uma
boa amizade, pode conseguir. Passados tempos, já na sua
aldeia, David teve a oportunidade de receber Rothschild,
alojando-o na sua mais que modesta casa. Ao fim de três dias,
quando Rothschild se despedia, disse-lhe David: "És muito rico
e eu, como viste, muito pobre. Creio que 150 francos são um
preço justo pelo teu alojamento." Rothschild ia morrendo de
espanto e indignou-se mesmo: "Depois do que fiz por ti, tu
pedes-me dinheiro pelo alojamento?..." "Bem", diz David, "não
vale a pena discutir. Vamos falar com o rabi e, se
concordares, qualquer que seja a sua decisão, vamos acatá-la."
Rothschild aceitou. O rabi ouviu atentamente os argumentos
apresentados e, depois de meditar, decidiu: "Tu, Rothschild,
és um homem rico e David é muito pobre; acho que 150 francos
são um preço justo." Furioso, Rothschild quase que atirou o
dinheiro à cara de David e dirigiu-se para a estação. Estando
à janela do comboio, Rothschild viu chegar David, que,
sorridente, lhe devolveu os 150 francos: "Então, estavas
convencido de que eu queria o teu dinheiro?" E explicou-lhe:
"Sabes, depois do que fizeste por mim, em Paris, perguntei-me:
"O que é que lhe poderei mostrar, aqui, que ele não conheça?"
E lembrei-me então do rabi. Tu fazias ideia de que pudesse
existir um homem como o nosso rabi? Já conheceste alguém tão,
tão... como ele?" Aqui, o leitor inventará um qualificativo
para o rabi, já que eu não quero assumir essa
responsabilidade.
Serve o conto para dizer que, como
David, com o meu livro, quis que muitos portugueses soubessem
que entre nós havia um rabi, perdão, um professor catedrático,
como Boaventura de Sousa Santos...
É pena que lhe
tenham traduzido o notório livro, porque, assim, não podemos
guardar mais o segredo... E, em todos os artigos que vai
escrevendo, cada vez me parece ficar mais perto daquilo que
deve ser, um zeloso SS do pensamento.
Um esboço vai-se
transformando num quadro davinciano quase tão perfeito como
uma boa teoria científica na sua correspondência com a
realidade.