Edição 1620
15.11.2003
 

Debate
Conversa de pássaros

«Um Conhecimento Prudente para Uma Vida Decente», de Boaventura de Sousa Santos, faz reavivar uma velha polémica

«Dado que a aproximação entre ciências naturais e ciências sociais se fará (sic) no sentido destas últimas, caberá especular se é possível, por exemplo, fazer a análise filológica de um traçado urbano, entrevistar um pássaro ou fazer observação participante entre computadores.»
Boaventura de Sousa Santos, «Um Discurso sobre as Ciências», 12ª edição, Afrontamento, Porto, 2003, pág. 49 (1ª ed., 1987)

Creio que nunca esquecerei o relato oficial da reunião de biólogos convocada - não me recordo se em 1947 ou 1948 - pela Academia Soviética das Ciências para discutir o futuro da genética na União Soviética. Trata-se de um episódio da história da ciência que ultrapassa nas suas consequências humanas, particularmente económicas, qualquer outro episódio das perturbadas relações entre a ciência e os poderes, religiosos ou políticos. A certa altura, um dos geneticistas presentes lembrou que os cromossomas, que contêm os genes, cuja existência era até posta em dúvida pelos lysenkoistas, poderiam ser vistos, depois de coloração apropriada, ao microscópio. E o relato verista intercalava uma voz: «Isso é pintura» (risos). Depois de algumas horas de discussão, levantou-se para falar Trofim Denisovich Lysenko. Encheu-se a sala de um respeitoso e temeroso silêncio. E disse Lysenko: «Venho de uma reunião onde Iosif Vissarionovich me informou que o Comité Central do Partido Comunista da União Soviética decidiu que está de acordo com as minhas doutrinas condenando a genética ocidental como reaccionária, elitista, capitalista e burguesa.» Estaline, o grande mestre, tinha falado. Consta do mesmo relato que «todos se levantaram e aplaudiram vibrante e longamente». Estava encerrada a discussão. As colheitas desta decisão foram notáveis em mortes, torturas e sucessivos desastres agrícolas, até à queda, em 1964, do último protector de Lysenko, Nikita Khrushchev.

Vem isto a propósito de um insólito e enxundioso livro que o professor Boaventura de Sousa Santos (BSS), da Universidade de Coimbra, compilou, intitulado Um Conhecimento Prudente para Uma Vida Decente (Afrontamento, Porto, 2003, €27), e que foi apresentado ao público (Fnac, Centro Comercial Colombo) em 14 de Outubro. Conforme o compilador anuncia na sua Introdução, esta colectânea é uma resposta internacional motivada pelo meu livro O Discurso Pós-Moderno contra a Ciência. Obscuridade e Irresponsabilidade (Gradiva, Lisboa, 2002). Quando tomou a palavra, BSS informou que tinha acabado de chegar de uma reunião com o Presidente da República. Ao escutá-lo, estremeci, lembrando-me de Lysenko: «Ai que o dr. Sampaio me condenou e se pronunciou a favor das doutrinas ‘científicas’ de BSS.» Imaginem o meu alívio quando o ouvi contar que, acompanhado pelo professor João Caraça e por directores de institutos científicos, tinha ido protestar junto do Presidente da República contra os cortes de fundos para a ciência feitos pelo Governo actual. Isto era como se soubéssemos que um músico «pimba» (sem ofensa) tinha ido com Sequeira e Costa e Maria João Pires queixar-se do Governo ao Presidente da República por cortes de fundos para instituições de cultura musical.

O livro agora publicado reúne 32 artigos de muitos autores, todos, com certeza, muito ilustres, convidados por BSS para, como disse, se manifestarem sobre o ataque lançado por mim ao seu livro Um Discurso sobre as Ciências. Prontificou-se mesmo, segundo diz na Introdução, a enviar o meu livro aos estrangeiros que podiam ler português.

Quando referi o episódio de Lysenko não estava a insinuar que este ponderoso livro fosse equivalente à reunião que condenou na URSS a genética «ocidental». Felizmente nem calculam (quão fervorosamente o digo...) nem BSS me pode mandar encarcerar e matar-me à fome, como fizeram ao insigne biólogo Vavilov, nem eu conseguiria, por mais tentador e saudável que considere o facto, ter poder para suspender qualquer apoio financeiro do Estado ao instituto, dito «científico», que dirige o professor BSS na Universidade de Coimbra.

Passa-se com esta colectânea e a sua apresentação algo de incrivelmente interessante. Creio que há uma corrente na arquitectura moderna chamada «efemeralista» (juro que não é termo de minha invenção). Como exemplo dela é dado um edifício onde o arquitecto, por meio de espelhos colocados em volta do edifício, pretende criar a ilusão de que, afinal, o edifício não existe. Assim, o professor BSS e alguns dos seus colaboradores se poderiam classificar, na mesma veia, como «anti-efemeralistas». Com os espelhos (é metáfora, claro) da sua retórica pretendem criar a ilusão de que têm qualquer mensagem encoberta importante a revelar, proclamando, até, que é «científica».

Deveria considerar-me lisonjeado pelo fracasso deste ruidoso e esforçado empenho em me tentarem sepultar neste grave monumento livresco, mas não. Naturalmente, depois da apresentação, peguei no livro e fui ler o que diziam alguns dos colaboradores que melhor conhecia. Lá estão os físicos, professores João Caraça, Jorge Dias de Deus e Mariano Gago, que, comprovadamente, lêem português. O que veio fazer A Relíquia à Academia, perguntava Eça de Queirós? O que vieram trazer estes autores a um livro cujos objectivos são os que vêm expressos por BSS na sua Introdução?

Curiosamente, nem sequer fazem referência ao meu livro, ainda que Dias de Deus desafine um pouco do coro quando escreve que, «quanto à emergência de um ‘novo paradigma‘ para as ciências, proposto por Santos, aí, permito-me discordar». Só aí?... Ao contrário do que diz a máxima famosa, pode-se ser, ao mesmo tempo, «amigo da verdade e amigo de Platão». É possível e talvez seja, até, eticamente correcto, mas é preciso alguma coragem. Aqui, lamentavelmente, declaram-se mais amigos de Platão que da verdade. O insólito deste caso, como no celebrado conto de Sherlock Holmes, é que o «cão não ladrou», ou, como se diz, não há, por qualquer fumo, sinais de fogo. O mesmo aconteceu (eu estava lá) na apresentação do livro, que poderia ser intitulado (tanto faz), talvez mais de acordo com a ideologia do seu compilador, «Uma Vida Prudente para Um Conhecimento Indolente».

Foi convidado para apresentar o livro o professor Alexandre Quintanilha, físico teórico e biólogo bem conhecido. Curiosamente, não se referiu nunca ao livro que tinha sido convidado a apresentar, excepto para dizer que não o tinha compreendido perfeitamente. Contou, depois, como se desenvolve a investigação científica, e, aqui, fiquei perplexo, pois não consegui perceber qualquer sinal de desconforto no professor BSS sentado a seu lado. Com efeito, aquilo de que falou está no meu livro, quase (quase...) na mesma forma, justificando a minha radical oposição ao que BSS escreve sobre «ciências». Isto não acontece porque o professor Quintanilha esteja de acordo comigo, mas porque ambos, aqui, como quase todos os cientistas, sabemos como, em linhas gerais, se desenvolve a actividade científica, um pouco anarquicamente: hipóteses, observações, experiências, conjecturas, teorias, curiosidade, muita imaginação, validação e verificação, coerência lógica, percepções (possibilitadas pelos sentidos, muitas vezes auxiliados por instrumentos), e tudo isto não necessariamente por esta ou outra ordem. Eu acrescentaria o que Paul Dirac dizia aos seus alunos no início das suas lições de mecânica quântica: «A crença na existência de um mundo exterior é toda a metafísica de que vocês necessitam para este curso.» O professor Quintanilha, com ligeira vénia a BSS sentado a seu lado, falou, de passagem, na existência de ciências «moles» (referiu-se, creio, várias vezes, a ciências sociais) e ciências «duras» e discordou das chamadas «guerras da ciência». Tratava-se, segundo percebi do que disse e dos seus gestos expressivos, de correntes que passavam ao lado uma da outra sem estabelecerem um conveniente diálogo. Eu também não estou de acordo em chamar-lhes «guerras das ciências», não simplesmente porque a palavra guerra é excessiva, mesmo como metáfora, mas porque não há «guerras» (neste sentido ou noutro) entre quaisquer ciências. Existem movimentos que querem desacreditar a ciência. Uma das formas é os seus promotores considerarem-se, eles mesmos, cientistas (o que já é descrédito bastante), como o fazem BSS e muitos outros, de «cujo nome me recordarei amanhã», como dizia o Aquilino Ribeiro, e uma outra é fazerem supor que o «cientismo» é a posição, quanto ao conhecimento (epistemológico, como dizem os filósofos), dos cientistas, em geral, o que é, evidentemente, falso. Creio que a grande maioria dos cientistas não acredita que a ciência consiga ter respostas para tudo, em particular o que é afectado pelos valores que dão um sentido mais profundo à vida humana. Há portanto movimentos (pace ao simpático «pacifismo» do professor Quintanilha) que colidem frontalmente e que, se se consideram mais próximos da «verdade», é evidente que os contrários estão mais próximos da «mentira». Deixo aqui as palavras «verdade» e «mentira» como se todos soubéssemos, e sabemos mesmo, aproximadamente, o que significam.

Em público, no Congresso Internacional de Física e Matemática, que se realizou em Lisboa em Julho deste ano, e aproveitando a oportunidade única (para mim) de BSS estar presente em corpo, disse que, em forma «mole», se poderia definir que «insulto se pode considerar qualquer conclusão não baseada em argumentação». Desta forma, poderia mostrar evidentemente que os escritos de BSS sobre ciência estão recheados de «insultos» ao leitor. A minha amostra de colaboradores do livro agora apresentado, como se vê, é selectiva de homens que têm verdadeira influência em Portugal, como professores, educadores e, até, políticos. Como é possível que eles (e muitos outros da nossa comunidade científica) guardem um cúmplice e comprometido silêncio sobre os «grandes temas» de que trata BSS e contra os quais protestei e protesto?

Escreve BSS: «A ciência moderna não é única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia.»

Nada têm que dizer sobre isto estes nossos mentores?

Depois: «Todo o conhecimento científico-natural é científico social. Todo o conhecimento é autoconhecimento... Todo o conhecimento é autobiográfico», «não conhecemos do real senão o que nele introduzimos, ou seja não conhecemos do real senão a nossa intervenção nele (bem) expressa no princípio da incerteza de Heisenberg», etc., etc., etc.

Estão de acordo com isto, ou é de pouca importância o que aqui se afirma tão convencidamente? E podíamos continuar com inúmeros exemplos do mesmo ou parecido teor.

Quando BSS recolhe, com aprovação, o que escreveu Kelvin Harris, dizendo que (cito BSS) «o darwinismo devia chamar-se spencerismo biológico»; ou quando, noutro lado, BSS acrescenta solenemente, como se isso fosse evidência axiomática universal, «Mas se é verdade que Darwin absorveu na sua teoria a ideologia do liberalismo...», disseram os nossos professores que BSS se esqueceu de lembrar (se me permitem dizê-lo assim) que Karl Marx desejava dedicar o seu livro O Capital a Charles Darwin (o tal que absorveu no seu livro a ideologia do liberalismo) mas que Darwin recusou?

Estas são algumas das novidades trazidas pelo livro recente de BSS com o divertido título A Crítica da Razão Indolente. Contra o Desperdício da Experiência, que manifesta (para mim, pelo menos) uma perfeita coerência: não se compreende o título, o que não tem grande importância, pois, em grande parte, tão pouco se entende bem o que lá está escrito. Mas o que se entende é que BSS afirma, sem hesitar, entre outras coisas, que «verdade científica é uma ‘verdade fiduciária’ baseada na determinação da credibilidade dos cientistas e da genuinidade das suas motivações. Não há outras garantias ‘mais objectivas’ do que esta fidúcia». Aqui, também, como de costume, não há exemplos ou argumentos (recorde-se a definição de insulto) em toda a verborreia, que se alarga, como indelével nódoa, por páginas e páginas. Daqui passa BSS à «retórica». Informo os leitores desde já que, segundo BSS, aprovado por um silêncio amigo e cúmplice, «a importância da retórica como elemento fundador da ciência moderna é a histórica luta entre o topos da quantidade e da qualidade». Mas não é bastante esta retórica para BSS. Tem sempre que anunciar mais uma «sua» revolução. Assim, profetiza uma «novíssima retórica». Tenho de terminar, até porque a prosa do professor de sociologia de Coimbra, tão fluentemente rara de argumentos, se adorna e recreia (como dizem os aficionados tauromáquicos) em páginas e páginas.

Uma das críticas repetidamente feitas por BSS e correligionários é que só decorridos 17 anos após a apresentação de Um Discurso sobre as Ciências me resolvi a escrever uma sua crítica. É como se dissessem que, surpreendentemente, muitos séculos depois de morrer Platão (desculpem o exaltado exemplo, pois me estou referindo a BSS), ainda se faz a crítica à sua filosofia!!! A implicação é que critiquei um texto desactualizado e ultrapassado, até por outras obras mais recentes do autor e avanços recentes da epistemologia. Isto concluiu-se da Introdução de BSS ao novo livro, repetindo o que afirmou em público numa sessão muito divertida do Congresso Internacional de Física e Matemática a que me referi acima. Mas o curioso do caso é que A Crítica da Razão Indolente. Contra o Desperdício da Experiência foi publicado em 2000 e, numa nota ao seu capítulo 1, intitulado «Da Ciência Moderna ao Novo Senso Comum», escreveu BSS: «Neste capítulo aprofundo e amplio as teses já apresentadas em Um Discurso sobre as Ciências (1987). Para garantir a coerência e a inteligibilidade das novas análises, reproduzo com ligeiríssimas alterações, em algumas das secções deste capítulo, o que foi escrito e publicado anteriormente.»

E sobre tudo isto, e muito mais do que isto, nada têm a dizer os colaboradores? Falo dos já identificados e dos que estão, também, sepultados nas 775 páginas do livro.

E, depois, falta acrescentar o que mais importa. Não se trata de uma questão entre os professores BSS e AMB e muito menos entre os srs. BSS e AMB, insignificantes actores - apesar das suas vaidades, motivações e ambições de poder - de um drama mais sério, que tem lugar no palco planetário onde a humanidade procura descobrir caminhos menos dolorosos e custosos do seu próprio destino - se é que ele existe.

TEXTO DE ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA