Debate Conversa de
pássaros
«Um Conhecimento
Prudente para Uma Vida Decente», de Boaventura de Sousa
Santos, faz reavivar uma velha polémica
«Dado que a aproximação entre
ciências naturais e ciências sociais se fará (sic) no sentido
destas últimas, caberá especular se é possível, por exemplo,
fazer a análise filológica de um traçado urbano, entrevistar
um pássaro ou fazer observação participante entre
computadores.»
Boaventura de Sousa Santos, «Um
Discurso sobre as Ciências», 12ª edição, Afrontamento, Porto,
2003, pág. 49 (1ª ed., 1987)
Creio que nunca esquecerei o relato oficial da reunião de
biólogos convocada - não me recordo se em 1947 ou 1948 - pela
Academia Soviética das Ciências para discutir o futuro da
genética na União Soviética. Trata-se de um episódio da
história da ciência que ultrapassa nas suas consequências
humanas, particularmente económicas, qualquer outro episódio
das perturbadas relações entre a ciência e os poderes,
religiosos ou políticos. A certa altura, um dos geneticistas
presentes lembrou que os cromossomas, que contêm os genes,
cuja existência era até posta em dúvida pelos lysenkoistas,
poderiam ser vistos, depois de coloração apropriada, ao
microscópio. E o relato verista intercalava uma voz: «Isso é
pintura» (risos). Depois de algumas horas de discussão,
levantou-se para falar Trofim Denisovich Lysenko. Encheu-se a
sala de um respeitoso e temeroso silêncio. E disse Lysenko:
«Venho de uma reunião onde Iosif Vissarionovich me informou
que o Comité Central do Partido Comunista da União Soviética
decidiu que está de acordo com as minhas doutrinas condenando
a genética ocidental como reaccionária, elitista, capitalista
e burguesa.» Estaline, o grande mestre, tinha falado. Consta
do mesmo relato que «todos se levantaram e aplaudiram vibrante
e longamente». Estava encerrada a discussão. As colheitas
desta decisão foram notáveis em mortes, torturas e sucessivos
desastres agrícolas, até à queda, em 1964, do último protector
de Lysenko, Nikita Khrushchev.
Vem isto a propósito de um insólito e enxundioso livro que
o professor Boaventura de Sousa Santos (BSS), da Universidade
de Coimbra, compilou, intitulado Um Conhecimento
Prudente para Uma Vida Decente (Afrontamento, Porto, 2003,
€27), e que foi apresentado ao público (Fnac, Centro Comercial
Colombo) em 14 de Outubro. Conforme o compilador anuncia na
sua Introdução, esta colectânea é uma resposta internacional
motivada pelo meu livro O Discurso Pós-Moderno
contra a Ciência. Obscuridade e Irresponsabilidade
(Gradiva, Lisboa, 2002). Quando tomou a palavra, BSS informou
que tinha acabado de chegar de uma reunião com o Presidente da
República. Ao escutá-lo, estremeci, lembrando-me de Lysenko:
«Ai que o dr. Sampaio me condenou e se pronunciou a favor das
doutrinas ‘científicas’ de BSS.» Imaginem o meu alívio quando
o ouvi contar que, acompanhado pelo professor João Caraça e
por directores de institutos científicos, tinha ido protestar
junto do Presidente da República contra os cortes de fundos
para a ciência feitos pelo Governo actual. Isto era como se
soubéssemos que um músico «pimba» (sem ofensa) tinha ido com
Sequeira e Costa e Maria João Pires queixar-se do Governo ao
Presidente da República por cortes de fundos para instituições
de cultura musical.
O livro agora publicado reúne 32 artigos de muitos autores,
todos, com certeza, muito ilustres, convidados por BSS para,
como disse, se manifestarem sobre o ataque lançado por mim ao
seu livro Um Discurso sobre as Ciências.
Prontificou-se mesmo, segundo diz na Introdução, a enviar o
meu livro aos estrangeiros que podiam ler português.
Quando referi o episódio de Lysenko não estava a insinuar
que este ponderoso livro fosse equivalente à reunião que
condenou na URSS a genética «ocidental». Felizmente nem
calculam (quão fervorosamente o digo...) nem BSS me pode
mandar encarcerar e matar-me à fome, como fizeram ao insigne
biólogo Vavilov, nem eu conseguiria, por mais tentador e
saudável que considere o facto, ter poder para suspender
qualquer apoio financeiro do Estado ao instituto, dito
«científico», que dirige o professor BSS na Universidade de
Coimbra.
Passa-se com esta colectânea e a sua apresentação algo de
incrivelmente interessante. Creio que há uma corrente na
arquitectura moderna chamada «efemeralista» (juro que não é
termo de minha invenção). Como exemplo dela é dado um edifício
onde o arquitecto, por meio de espelhos colocados em volta do
edifício, pretende criar a ilusão de que, afinal, o edifício
não existe. Assim, o professor BSS e alguns dos seus
colaboradores se poderiam classificar, na mesma veia, como
«anti-efemeralistas». Com os espelhos (é metáfora, claro) da
sua retórica pretendem criar a ilusão de que têm qualquer
mensagem encoberta importante a revelar, proclamando, até, que
é «científica».
Deveria considerar-me lisonjeado pelo fracasso deste
ruidoso e esforçado empenho em me tentarem sepultar neste
grave monumento livresco, mas não. Naturalmente, depois da
apresentação, peguei no livro e fui ler o que diziam alguns
dos colaboradores que melhor conhecia. Lá estão os físicos,
professores João Caraça, Jorge Dias de Deus e Mariano Gago,
que, comprovadamente, lêem português. O que veio fazer A Relíquia à Academia, perguntava Eça de Queirós?
O que vieram trazer estes autores a um livro cujos objectivos
são os que vêm expressos por BSS na sua Introdução?
Curiosamente, nem sequer fazem referência ao meu livro,
ainda que Dias de Deus desafine um pouco do coro quando
escreve que, «quanto à emergência de um ‘novo paradigma‘ para
as ciências, proposto por Santos, aí, permito-me discordar».
Só aí?... Ao contrário do que diz a máxima famosa, pode-se
ser, ao mesmo tempo, «amigo da verdade e amigo de Platão». É
possível e talvez seja, até, eticamente correcto, mas é
preciso alguma coragem. Aqui, lamentavelmente, declaram-se
mais amigos de Platão que da verdade. O insólito deste caso,
como no celebrado conto de Sherlock Holmes, é que o «cão não
ladrou», ou, como se diz, não há, por qualquer fumo, sinais de
fogo. O mesmo aconteceu (eu estava lá) na apresentação do
livro, que poderia ser intitulado (tanto faz), talvez mais de
acordo com a ideologia do seu compilador, «Uma Vida Prudente
para Um Conhecimento Indolente».
Foi convidado para apresentar o livro o professor Alexandre
Quintanilha, físico teórico e biólogo bem conhecido.
Curiosamente, não se referiu nunca ao livro que tinha sido
convidado a apresentar, excepto para dizer que não o tinha
compreendido perfeitamente. Contou, depois, como se desenvolve
a investigação científica, e, aqui, fiquei perplexo, pois não
consegui perceber qualquer sinal de desconforto no professor
BSS sentado a seu lado. Com efeito, aquilo de que falou está
no meu livro, quase (quase...) na mesma forma, justificando a
minha radical oposição ao que BSS escreve sobre «ciências».
Isto não acontece porque o professor Quintanilha esteja de
acordo comigo, mas porque ambos, aqui, como quase todos os
cientistas, sabemos como, em linhas gerais, se desenvolve a
actividade científica, um pouco anarquicamente: hipóteses,
observações, experiências, conjecturas, teorias, curiosidade,
muita imaginação, validação e verificação, coerência lógica,
percepções (possibilitadas pelos sentidos, muitas vezes
auxiliados por instrumentos), e tudo isto não necessariamente
por esta ou outra ordem. Eu acrescentaria o que Paul Dirac
dizia aos seus alunos no início das suas lições de mecânica
quântica: «A crença na existência de um mundo exterior é toda
a metafísica de que vocês necessitam para este curso.» O
professor Quintanilha, com ligeira vénia a BSS sentado a seu
lado, falou, de passagem, na existência de ciências «moles»
(referiu-se, creio, várias vezes, a ciências sociais) e
ciências «duras» e discordou das chamadas «guerras da
ciência». Tratava-se, segundo percebi do que disse e dos seus
gestos expressivos, de correntes que passavam ao lado uma da
outra sem estabelecerem um conveniente diálogo. Eu também não
estou de acordo em chamar-lhes «guerras das ciências», não
simplesmente porque a palavra guerra é excessiva, mesmo como
metáfora, mas porque não há «guerras» (neste sentido ou
noutro) entre quaisquer ciências. Existem movimentos que
querem desacreditar a ciência. Uma das formas é os seus
promotores considerarem-se, eles mesmos, cientistas (o que já
é descrédito bastante), como o fazem BSS e muitos outros, de
«cujo nome me recordarei amanhã», como dizia o Aquilino
Ribeiro, e uma outra é fazerem supor que o «cientismo» é a
posição, quanto ao conhecimento (epistemológico, como dizem os
filósofos), dos cientistas, em geral, o que é, evidentemente,
falso. Creio que a grande maioria dos cientistas não acredita
que a ciência consiga ter respostas para tudo, em particular o
que é afectado pelos valores que dão um sentido mais profundo
à vida humana. Há portanto movimentos (pace ao simpático
«pacifismo» do professor Quintanilha) que colidem frontalmente
e que, se se consideram mais próximos da «verdade», é evidente
que os contrários estão mais próximos da «mentira». Deixo aqui
as palavras «verdade» e «mentira» como se todos soubéssemos, e
sabemos mesmo, aproximadamente, o que significam.
Em público, no Congresso Internacional de Física e
Matemática, que se realizou em Lisboa em Julho deste ano, e
aproveitando a oportunidade única (para mim) de BSS estar
presente em corpo, disse que, em forma «mole», se poderia
definir que «insulto se pode considerar qualquer conclusão não
baseada em argumentação». Desta forma, poderia mostrar
evidentemente que os escritos de BSS sobre ciência estão
recheados de «insultos» ao leitor. A minha amostra de
colaboradores do livro agora apresentado, como se vê, é
selectiva de homens que têm verdadeira influência em Portugal,
como professores, educadores e, até, políticos. Como é
possível que eles (e muitos outros da nossa comunidade
científica) guardem um cúmplice e comprometido silêncio sobre
os «grandes temas» de que trata BSS e contra os quais
protestei e protesto?
Escreve BSS: «A ciência moderna não é única explicação
possível da realidade e não há sequer qualquer razão
científica para a considerar melhor que as explicações
alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da
arte ou da poesia.»
Nada têm que dizer sobre isto estes nossos mentores?
Depois: «Todo o conhecimento científico-natural é
científico social. Todo o conhecimento é autoconhecimento...
Todo o conhecimento é autobiográfico», «não conhecemos do real
senão o que nele introduzimos, ou seja não conhecemos do real
senão a nossa intervenção nele (bem) expressa no princípio da
incerteza de Heisenberg», etc., etc., etc.
Estão de acordo com isto, ou é de pouca importância o que
aqui se afirma tão convencidamente? E podíamos continuar com
inúmeros exemplos do mesmo ou parecido teor.
Quando BSS recolhe, com aprovação, o que escreveu Kelvin
Harris, dizendo que (cito BSS) «o darwinismo devia chamar-se
spencerismo biológico»; ou quando, noutro lado, BSS acrescenta
solenemente, como se isso fosse evidência axiomática
universal, «Mas se é verdade que Darwin absorveu na sua teoria
a ideologia do liberalismo...», disseram os nossos professores
que BSS se esqueceu de lembrar (se me permitem dizê-lo assim)
que Karl Marx desejava dedicar o seu livro O
Capital a Charles Darwin (o tal que absorveu no seu livro
a ideologia do liberalismo) mas que Darwin recusou?
Estas são algumas das novidades trazidas pelo livro recente
de BSS com o divertido título A Crítica da Razão
Indolente. Contra o Desperdício da Experiência, que
manifesta (para mim, pelo menos) uma perfeita coerência: não
se compreende o título, o que não tem grande importância,
pois, em grande parte, tão pouco se entende bem o que lá está
escrito. Mas o que se entende é que BSS afirma, sem hesitar,
entre outras coisas, que «verdade científica é uma ‘verdade
fiduciária’ baseada na determinação da credibilidade dos
cientistas e da genuinidade das suas motivações. Não há outras
garantias ‘mais objectivas’ do que esta fidúcia». Aqui,
também, como de costume, não há exemplos ou argumentos
(recorde-se a definição de insulto) em toda a verborreia, que
se alarga, como indelével nódoa, por páginas e páginas. Daqui
passa BSS à «retórica». Informo os leitores desde já que,
segundo BSS, aprovado por um silêncio amigo e cúmplice, «a
importância da retórica como elemento fundador da ciência
moderna é a histórica luta entre o topos da quantidade e da
qualidade». Mas não é bastante esta retórica para BSS. Tem
sempre que anunciar mais uma «sua» revolução. Assim, profetiza
uma «novíssima retórica». Tenho de terminar, até porque a
prosa do professor de sociologia de Coimbra, tão fluentemente
rara de argumentos, se adorna e recreia (como dizem os
aficionados tauromáquicos) em páginas e páginas.
Uma das críticas repetidamente feitas por BSS e
correligionários é que só decorridos 17 anos após a
apresentação de Um Discurso sobre as Ciências
me resolvi a escrever uma sua crítica. É como se dissessem
que, surpreendentemente, muitos séculos depois de morrer
Platão (desculpem o exaltado exemplo, pois me estou referindo
a BSS), ainda se faz a crítica à sua filosofia!!! A implicação
é que critiquei um texto desactualizado e ultrapassado, até
por outras obras mais recentes do autor e avanços recentes da
epistemologia. Isto concluiu-se da Introdução de BSS ao novo
livro, repetindo o que afirmou em público numa sessão muito
divertida do Congresso Internacional de Física e Matemática a
que me referi acima. Mas o curioso do caso é que A
Crítica da Razão Indolente. Contra o Desperdício da
Experiência foi publicado em 2000 e, numa nota ao seu
capítulo 1, intitulado «Da Ciência Moderna ao Novo Senso
Comum», escreveu BSS: «Neste capítulo aprofundo e amplio as
teses já apresentadas em Um Discurso sobre as
Ciências (1987). Para garantir a coerência e a
inteligibilidade das novas análises, reproduzo com
ligeiríssimas alterações, em algumas das secções deste
capítulo, o que foi escrito e publicado anteriormente.»
E sobre tudo isto, e muito mais do que isto, nada têm a
dizer os colaboradores? Falo dos já identificados e dos que
estão, também, sepultados nas 775 páginas do livro.
E, depois, falta acrescentar o que mais importa. Não se
trata de uma questão entre os professores BSS e AMB e muito
menos entre os srs. BSS e AMB, insignificantes actores -
apesar das suas vaidades, motivações e ambições de poder - de
um drama mais sério, que tem lugar no palco planetário onde a
humanidade procura descobrir caminhos menos dolorosos e
custosos do seu próprio destino - se é que ele
existe.
TEXTO DE ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA
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