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CARTA ABERTA
Entre Batoteiros e Demancha-feiras Intelectuais

Por ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA
Domingo, 28 de Abril de 2002

Eduardo Prado Coelho recorda-me "Os Interesses Criados" de Jacinto Benavente. Com efeito, Prado Coelho, ele mesmo (o dos" altos pensamentos") - nome que me recorda o seu pai - começa a escrever-lhe os artigos (PÚBLICO, de 6 e 24 de Abril) mas, depois, é o "criado", Eduardo de seu nome, que os continua. Agora ao discurso cordato e sereno, defendido ao princípio, sucede-se logo a referência à minha pessoa "indignada que na desmesura da indignação não consegue nem ler o que outro escreve, (e outros mimos)..." Isto relativamente ao meu livro "O Discurso Pós-moderno Contra a Ciência. Obscurantismo e Irresponsabilidade, Gradiva, 2002" e ao artigo "Os moedeiros falsos da cultura " (PÚBLICO, 11 de Abril.) (...)

1. "A dromoscospia é uma máquina de guerra" é uma das frases de EPC que citei como exemplo de uma "escola" que deseja fazer passar por pensamento tudo o que passa pela cabeça dos seus autores, desde que se possa exprimir com uma obscuridade suficiente para se conseguir disfarçar o vazio das ideias. Mas vem agora EPC explicar melhor o que escreveu. Se EPC promete que me não insulta, queria confessar uma coisa. Promete?... Então, digo-lhe que, excepto num sentido trivial, quase tudo o que a humanidade constrói se poderá considerar 'uma máquina de guerra', e continuo a não compreender o que EPC ou o seu mentor, Paul Virilio, copiosamente citado por ele, querem dizer. A "explicação" dada por EPC lembra-me um episódio passado há muitos anos numa aula de Economia Política na Faculdade de Direito de Lisboa. A aula, como de costume, resumia-se à leitura pelo Professor Ruy Ulrich de um livro da sua autoria. Durante essa leitura os alunos (frequência obrigatória) entregavam-se, em geral, a actividades extracurriculares, não muito ruidosas, mas interessantes, como a topologia ("batalha naval"), aerodinâmica (lançamento de aviões de papel), balística (arremesso de bolas de papel). etc. Mas, um dia, um estudante levantou-se e disse para espanto dos colegas: " Sr. Professor não entendo bem o que acabou de dizer". Ruy Ulrich levantou a cabeça do livro, sem se mostrar incomodado pelo insólito comportamento do aluno, e respondeu; "Não compreendeu? Então, explico melhor". E voltou a ler o que tinha já lido, antes de continuar a leitura, como de costume.

2. Repare-se que continuamos deliberadamente a fugir à discussão que mais nos deveria importar. Foram feitas ou não distorções grosseiras do conhecimento científico com objectivos ideológicos no sentido de validar interpretações metafísicas, por exemplo, da mecânica quântica? Já procuraram explicar o que seja isso de "todo o conhecimento ser autoconhecimento" ou de a "ciência ser assim, autobiográfica", ou "de toda a ciência ser científico social"? Poderiam, por favor, explicar, sempre com exemplos, porque é que "a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há qualquer razão científica (sic) para a considerar melhor do que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia?" E poderíamos continuar, como mostrámos abundantemente...

Era aqui que os princípios tão cordatamente enunciados por Prado Coelho, apenas no início dos seus artigos, encontrariam campo para se manifestarem. De outra forma tudo se parece passar entre batoteiros (os que fingem que aceitam as regras do jogo para proveito próprio) e os desmancha-feiras (aqueles que se mostram completamente desinteressados pelo jogo) (Ernest Cassirer, Homo Ludens), encobertos todos com a larga e opaca capa de intelectuais. Topo de Página

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