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"Por
Vezes nem Há Tempo para Dar Os Conteúdos Previstos"
Por
POR ISABEL LEIRIA
Sexta-feira,
18 de Junho de 2004
O presidente da Associação de Professores de Matemática,
Fernando Nunes, tem as maiores reservas em relação às provas
nacionais. "Os exames, tal como os conhecemos, têm
características muito más e muito perversas", defende.
PÚBLICO - O que falta fazer no ensino da Matemática?
Fernando Nunes - Falta fazer bastante. Aquilo que foi uma
tentativa de contextualizar o ensino da Matemática, com a
definição do Currículo Nacional do Ensino Básico (2001) teve
uma espécie de paragem e as coisas estão a regredir. Tudo o
que lá está e que é positivo - a flexibilização do ensino,
a aposta na aprendizagem pela experiência, a utilização das
novas tecnologias (como instrumento e não como matéria de
estudo, numa disciplina autónoma) - está a ser ignorado.
Agora, com aprovação da Lei de Bases da Educação, é
desmembrado o ensino básico de nove anos e a lógica que
presidia ao currículo nacional perde-se. Além disso, havendo
um currículo estruturado em torno de competências, a
avaliação devia deitar mão a uma série de instrumentos. Ora
as últimas orientações vão no sentido de instituir os exames
à moda antiga.
P. - Discorda da existência de exames no 9º e no 6º
ano?
R. - Os exames, tal como os conhecemos - uma prova escrita,
realizada num determinado período de tempo e em que o aluno
está isolado de tudo -, têm algumas características muito
más e muito perversas. Se acharmos que os aspectos que os
exames permitem testar são os importantes, nada a opor. Agora,
se temos um currículo que enumera competências fundamentais,
como a oralidade ou a procura da informação e análise,
estamos a cometer um erro porque os exames não dão espaço
para isto.
E quando o sucesso é medido por estas provas, os professores
vão fazer tudo para dar todos os aspectos que estão contidos
num exame. Estes testes existem há bastante tempo no 12º ano e
nada indica que a situação tenha melhorado ou os problemas se
tenham resolvido.
P. - Os alunos são preparados em função do exame e os
resultados são medíocres. A contradição explica-se pelo
facto de chegarem ao 12º mal preparados?
R. - Acho eticamente incorrecto - e não corresponde à
verdade - acusar os colegas dos anos anteriores de
incompetência. Essa contradição existe e temos de ir à
procura das causas. Acredito que existem factores exógenos e
também características inerentes a estas provas que ajudam a
explicar, como o facto de valorizarem sobretudo a parte mais
frágil do conhecimento. Mas o que temos no nosso sistema de
ensino é completamente artificial.
Se um professor se depara com um aluno que apresenta lacunas
impeditivas da aprendizagem das matérias previstas para um
determinado ano, então devia ter a liberdade de dizer: vamos
inverter isto e depois é que avançamos. Mas com uma estrutura
curricular e programas inflexíveis o que acontece é que, por
vezes, nem há tempo para dar os conteúdos previstos, quanto
mais voltar atrás e aprofundar as coisas.
P. - O Plano para a Promoção do Estudo da Matemática
e das Ciências foi uma oportunidade perdida?
R. - Qualquer tentativa para melhorar o ensino da Matemática
e que não resulta é uma oportunidade perdida. A comissão que
preparou o plano devia reflectir uma abrangência grande de
pessoas que estão ligadas ao ensino da disciplina. Uma das
razões porque falhou logo à partida foi por não ter sido
formada de forma coerente. É estranho e anómalo que, sendo um
órgão consultivo, criado para aconselhar o ministro da
Educação, seja o próprio a presidir à comissão.
Depois, nada se conhece sobre o trabalho da comissão, a não
ser um resumo de seis ou sete medidas, onde se dizem banalidades
ou se pega no senso comum e se apresenta como algo de
científico. A comissão nasceu mal e cresceu mal, pelo que era
muito difícil que resultasse. Temos de ter coragem de pôr no
terreno mudanças reais, mas continua a ensinar-se Matemática
no mesmo estilo de há anos. Há bastante tempo que esta deixou
de ser uma disciplina de quadro e giz.
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