Uma Elite, Dois Sistemas
Por AUGUSTO SANTOS SILVA
Sábado, 27 de Dezembro de 2003
Admitamos esta hipótese: existe uma elite social, constituída por reputados académicos, dirigentes políticos no activo ou na reserva, directores e colaboradores de jornais, que goza de uma justificada influência, de tal modo grande que se pode dizer que hoje define parte considerável da agenda pública. Essa elite dedica particular atenção aos temas da educação e da cultura. O registo geral é a crítica severíssima do que entende serem as consequências nefastas de uma alegada hegemonia, no passado recente, de duas correntes e modos de pensamento: os "filhos de Rousseau", na educação, e os "subsidiodependentes", na cultura.
Haveria de fazer-se múltiplas especificações para dar conta da variedade de posições e apreciações que a elite alberga, mas creio não trair o seu denominador comum se disser as duas coisas seguintes: que fala muito de educação e cultura porque faz profissão de fé nas virtudes da respectiva articulação, tanto que chega a reduzir a política de cultura, descontada a função patrimonial, a uma subdivisão da política educativa; e que reivindica a perspectiva de um senso comum, esse que falta aos nefelibatas que inspiram os técnicos e burocratas que dominam e paralisam o aparelho de Estado.
Não quero, por ora, nem proceder à ponderação minuciosa da substância das propostas geradas no clima mental desta elite, nem fazer a defesa dos que toma por alvo. Limito-me a um acto mais simples, que é chamar a atenção para a flagrante (mas pouco anotada) descoincidência, se não contradição, entre o que a elite afirma no âmbito da educação e o que afirma no âmbito da cultura.
Leia-se ou ouça-se as várias intervenções doutrinárias que poderíamos sem forçar referir à elite de que falo, versando sobre a nossa escola, os professores, os currículos e os programas e métodos. Lamentos sobre lamentos, mas sempre segundo o mesmo fio de raciocínio. A escola não ensina, não exige, não avalia, não selecciona, esmagada pela lógica "facilitista" supostamente difundida pelas ciências da educação e apadrinhada pelo Ministério. Efeitos: falta de autoridade dos professores, falta de rotina de estudo, falta de objectivos exigentes, falta de rigor, menosprezo do esforço e da disciplina intelectual. Causa determinante: essa ideia peregrina de que aprender é um prazer e que a função do professor não é transmitir conhecimentos mas ajudar as crianças a desenvolver as suas capacidades "naturais". Remédios sugeridos: mais autoridade, mais normalização, mais conteúdos científicos, mais exames, mais exigência, mais rigor, mais trabalho.
Escute-se agora os mesmos a dissertar sobre cultura. Loas e mais loas aos bens patrimoniais, de cuja conservação se fazem campeões. Umas frases genéricas sobre quão necessário é levar as crianças desde cedo ao contacto com tais bens. E sarcasmo, muita troça mesmo, face à criação e aos criadores contemporâneos. Com que argumentos? Pois que são muito difíceis, pois que são herméticos, pois que escrevem, filmam, expõem ou representam uns para os outros, pois que escolhem temas e usam linguagens que nada dizem aos públicos e assim alienam o interesse dos espectadores e por isso buscam o apoio do Estado, a cuja sombra querem viver. E quais as propostas? Que se incentivem os filmes que atraiam públicos, que saibam contar histórias compreensíveis pelas pessoas, que se valorize também o teatro dito comercial, que enche as salas, e se contrarie o peso excessivo que hoje terão, no sistema de financiamentos estatais, as obras vanguardísticas. Isto é: menos arte de ensaio, mais arte para as pessoas, menos experimentalismo, mais narratividade e mais entretenimento.
Quer dizer: deveríamos exigir ao Manuel, enquanto estudante do fim do ensino básico, que soubesse discutir a relação entre o poder espiritual e o poder temporal com a profundidade de dois peritos do Sacro Império e do Papado. Que admirasse as estrofes de "Os Lusíadas" com o olhar esclarecido do especialista em mitologia clássica e lesse "Eurico, o Presbítero" quase como confrade de Herculano. E degustasse Racine e Cervantes, Petrarca e Tolstoi, ao mesmo tempo que resolvesse equações de segundo grau e cultivasse os mistérios da teoria da evolução.
Mas dêem-nos o pai e a mãe do Manuel, ou tirem-nos o Manuel da escola, e já lhes diremos o exacto oposto. A palavra que totalmente lhe negámos, como instruendo ("menino, decora Sôbolos Rios que Vão, que é do cânone, e sem protesto!"), devolvemo-la aumentada como poder soberano e absoluto, de "público" a que se devem dirigir, se não subordinar, os criadores. Faremos, então, curiosas teorias.
A primeira é que o prazer (o tal a expulsar quanto antes da escola) constitui fim legítimo e saudável da fruição cultural. A segunda é que entendemos (nós os que castigamos o "comunicacionalismo" no ensino das línguas) que uma apreensão directa e imediata do "conteúdo" ou da "mensagem" constitui requisito a cumprir por realizadores, encenadores ou coreógrafos - e valorizamos o saber contar uma história, saber prender a um enredo, saber tocar uma emoção, como qualidades cimeiras do criador. A terceira teoria, a mais curiosa de todas, é a apologia do "gosto médio" e da "arte média" como estrada de acesso à mais alta cultura: nós que queremos banir os regulamentos da disciplina de português e não nos conformamos com o excesso de vida quotidiana nos programas de história, nós que vilipendiamos (e bem!) a deriva hodierna para as equivalências globais, para a negação de hierarquias de qualidade e gosto, se rumamos à cultura logo descobrimos as imensas virtualidades da música ligeira como antecâmara da fruição cultivada dos eruditos e do teatro comercial como formador do gosto pelas artes do palco. Como se, a bem dizer, não houvesse diferença essencial entre Filipe La Féria e Jorge Silva Melo, ou entre Inês Pedrosa e José Luís Peixoto, ou entre Joaquim Leitão e Pedro Costa, ou entre a banda do coreto e a orquestra sinfónica.
Vale a pena voltar ao tema, que o mistério deve ter alguma explicação. Mas o que verdadeiramente quer esta nossa querida e fogosa elite? Quer instituir uma espécie de esquizofrenia nas políticas públicas, o Palácio da Ajuda a compensar com o prazer fácil e agradável das salas de teatro e cinema o programa jansenista da 5 de Outubro? Acha que o rigor que exige para as escolas é o mesmo que requer para os espectáculos, isto é, nenhum? (Não é uma hipótese absurda, nunca como agora o Ministério da Educação foi tão permeável à influência desta elite e veja-se o que propõe para o ensino secundário: menos peso da literatura e menos peso da formação científica...). Ou o que a elite quer é mesmo consagrar uma lógica de dois sistemas: a excelência escolar para os filhos de parte das classes médias e uma espécie de mediania cultural para o público em geral?
O melhor, à cautela, é rever a hipótese e colocar elite entre aspas.
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