Matemática: a Glosa do Seu Ensino
Por ANA BELA CRUZEIRO*
Domingo, 19 de Agosto de 2001
Muito se tem falado em matemática nos últimos tempos. O que é, naturalmente, uma boa notícia, não só para os seus agentes directos, mas também para o público em geral. Porque falar de matemática é, conforme Galileu, falar da linguagem em que o Universo está escrito; é falar desse "princípio criador", que Einstein referia. Porque a matemática é uma forma de pensamento presente na história da humanidade desde os tempos mais remotos, assim nos usos comuns da vida quotidiana como nas mais impressionantes descobertas científicas e tecnológicas, de que, afinal, somos todos beneficiários.
As diversas opiniões que têm vindo a lume são reflexo de visões distintas da educação, e do ensino da matemática em particular. O recente artigo de Eduardo Veloso (PÚBLICO, 14 de Agosto), reputado professor de quem tenho ouvido as melhores referências, levou-me a pensar ser tempo de "pôr os pontos nos is", ou, mais precisamente, de apontar as razões que efectivamente nos dividem.
Antes de mais, perfila-se a visão do que deve ser a educação. Para alguns um processo hedonista, empolgante, de familiarização com o conhecimento universal. Para outros uma forma esforçada de adquirir competências técnicas e conceptuais, que deve ser o mais eficaz possível, sendo o prazer que dessa aquisição advenha um assunto de somenos, estritamente subjectivo, pessoal.
Ora o ponto é como aferir de maneira justa essa aquisição de competências. Em nosso entender só através de provas, de exames, que haverão de ser bem elaboradas e em tanto maior número quanto possível. E isto não por sermos cegos fideístas de tais medidas, nem por ignorarmos da sua infalibilidade, mas tão somente por outro melhor recurso não conhecermos. E nestas provas a limitação do tempo é primordial factor, porque haverá sempre de se averiguar se o aluno age e reage em tempo útil. Se a escola tem por função primeira preparar para a vida, não deve o ensinante ignorar que toda ela é feita de suspresas, imprevistos que precisam de ser decididos, de imediato resolvidos. Que seria do nosso mundo se, por exemplo, um médico, em plena sala de operações, tivesse de consultar a Internet ou qualquer documentação, ou ainda trocar persistentes opiniões sobre o "modus faciendi" com colegas, porventura ausentes?
Velho e simples é o exemplo da aprendizagem da música. Os seus instruendos geralmente a abordam com prazer mas, se profissionais, eles tiveram necessidade de adquirir automatismos sem os quais não poderão exibir-se na arte instrumental.
Memorizar a tabuada! Mas eu nunca ouvi dizer a nenhum docente de letras que não é preciso memorizar a sua simbologia, nem que se deve evitar o automatismo na sua integração para formar sílabas, tão pouco que não se saibam de cor os significados das palavras. Ora se isto é assim nas artes, como pode deixar de o ser nas ciências e nas técnicas? Napoleão, cujo génio militar ninguém parece ter posto em causa, dizia que uma cabeça sem memória era como uma praça sem guarnição. E acrescento eu que exemplos há de notáveis professores de matemática que procuravam treinar a própria, por vezes com informações de pouca utilidade. A ciência tem demonstrado que, ao invés do que poderia prescrever a física tradicional, a capacidade de memorizar se alarga na justa medida em que mais informações armazena.
Na matemática existe um outro ponto que motiva várias opiniões sobre o seu ensino. É que há quem esteja sinceramente convencido que esta ciência, talvez devido ao formidável desenvolvimento da informática, se alterou em sua natureza. Ora isso não é, de todo, verdade. Será daí que vem o chamado "ensino actual", a que se refere Eduardo Veloso? Desconheço a definição deste conceito. Compreendo o que seja um bom ensino, "versus" um mau ensino, concebo mesmo um ensino excelente, ministrado por professores, não só competentes nas matérias, mas também entusiasmados por elas, entusiasmo contagiante, que leva por vezes o mestre a ser tomado por modelo. Mas não sei o que é isso de "ensino actual".
Fala Eduardo Veloso em trabalho cooperativo que, diz, "acontece" no exercício profissional da matemática. Felizmente, sendo Eduardo Veloso um homem de rigor, utilizou aqui a palavra "acontece". De facto, "acontece", mas raramente - a maior parte do trabalho de investigação em matemática é feito em longas horas de reflexão, longas horas solitárias de esforço com o recurso exclusivo desse laboratório único de que os matemáticos dispõem - o seu próprio cérebro. Porque há que não confundir investigação com mera recolha de informações. E "acontece" também que, como comunidade humana que formam, os matemáticos comunicam entre si o resultado das suas reflexões, e que as de uns estimulam as de outros. Esta comunicação é praticamente tudo o que "acontece" a nível cooperativo.
Folgo em saber que, pelo menos, neste ensino dito "actual" se procura que os alunos tenham a coragem de tentar resolver problemas não rotineiros. É louvável, e inteligente. Mas se são precisamente as questões de rotina que nos exames conduziram os alunos a tão fracos resultados, como pode esperar-se que eles tenham a capacidade de abordar os outros? Como pode alguém que não aprendeu a nadar fazer face a essa situação bem prática, bem real, que é um naufrágio em pleno mar? Com coragem? Com imaginação e criatividade? Pelo sim pelo não, antes de embarcar, melhor será ter consagrado umas horas a essa enfadonha e repetitiva tarefa de aprender a coordenar os movimentos, isto é, melhor será ter adquirido os automatismos necessários ao nado.
Há ainda e importante questão dos conteúdos. Que vão diminuindo, ao longo dos anos e das sucessivas reformas curriculares. Como se se entendesse que, quanto menor a quantidade de matéria a conhecer, mais eficazmente se alcançasse o seu conhecimento. Ora o que a ciência nos diz sobre o funcionamento do cérebro aponta precisamente no sentido contrário. O saber, não só não ocupa lugar, como abre caminhos para novos saberes. Sejamos exigentes. Saber mais abre-nos horizontes mais vastos, faz-nos subir a outras alturas para dominar campos largos, desconhecidos. É esta subida que os professores, designadamente os universitários, devem ajudar os seus discentes a fazer. E não, com o sugere Eduardo Veloso, fornecer-lhes tão só a matéria que eles irão mais tarde transmitir aos alunos do secundário. É que esta até já deve estar sabida à entrada da universidade.
Finalmente, já que estamos nas comemorações centenárias de Eça de Queiroz, deixemos aqui a sua conspícua receita sobre o ensino: "Para ensinar há uma formalidadezinha a cumprir: saber".
*Professora universitária, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática
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