O “EDUQUÊS” CONTINUA A FAZER ESTRAGOS

 

Carlos Fiolhais*
Professor de Física da Universidade de Coimbra

tcarlos@teor.fis.uc.pt

http://nautilus.fis.uc.pt/~cfiolhais

 

Há boas e más notícias no ensino das ciências. A boa notícia é que o ensino das Ciências Físico-Químicas vai começar um ano mais cedo, no 7.º ano do básico. A má notícia é que, em nome da chamada “flexibilização”, não há programa fixo e obrigatório, pelo que dificilmente haverá manuais. Também não há exames. Fica tudo ao “deus-dará”. O documento “Ensino Básico. Ciências Físicas e Naturais – orientações curriculares para o 3.º ciclo do ensino básico” do Ministério da Educação (ver http://www.deb.minedu.pt/1pagina/orientacoes_curriculares/ciencias_fisicas_naturais.pdf ) procura justificar o dislate. Mas essas orientações estão escritas em “eduquês”, o dialecto incompreensível com o qual se tem tentado justificar o nosso “status quo” educativo. O “eduquês” continua, portanto, a fazer estragos.

 

A entrada do texto dá logo o tom geral da escrita:  Cabe a cada escola e grupos de professores a gestão curricular atribuída a esta área disciplinar”. Mas o texto continua: “Entende-se aqui currículo como a indicação de um processo cognitivo e social contextualizado, em que as oportunidades de aprendizagem são resultantes da interacção do professor com os seus alunos (...) O currículo é o que os professores e alunos vivem...” Aparece na p. 9 um esquema em que a Terra se divide em “mundo material” e “mundo vivo” e o  “ser humano” em “agente ecológico” e “sujeito biológico”. Um dos temas organizadores é uma autêntica pérola: “Sustentabilidade da Terra”. Os actuais programas do 8.º ano e 9.º ano de Ciências Físico - Químicas são misturados entre si e com os das Ciências Naturais. O acréscimo de entropia será decerto enorme e ninguém beneficiará com isso.

 

Ficou famosa a invectiva do ex-ministro da Educação Marçal Grilo, quando um dia pediu que se deixasse de falar “eduquês” para se passar a falar português corrente que todos entendessem. Estava visivelmente incomodado com a obscuridade do discurso de alguns educadores. O certo é que, sob o manto cerrado dessa prosa, se escondem por vezes os maiores erros e outras vezes simples vacuidades, que nem sequer erros chegam a ser. Esses erros e essas vacuidades são co-responsáveis pelo estado pouco mais do que calamitoso da educação nacional, incluindo em particular o ensino das Ciências Físico-Químicas.

 

Vale a pena apontar alguns casos concretos da linguagem subjacente à  “flexibilização” em curso, quanto mais não seja para impedir que um leitor mais incauto compre gato por lebre. Uma vez que tal discurso vaporoso é copiado em segunda ou terceira mão de autores bem intencionados mas desligados das realidades ou simplesmente desactualizados e já foi ou está a ser contraditado noutras paragens, bastará referir uma polémica que há poucos anos teve lugar nos Estados Unidos. Contra o “eduquês” norte-americano ergueu-se, entre outras, a voz de E. D. Hirsch, Jr., professor na Universidade de Virginia. Num  livro cujo título se pode traduzir por “As escolas que precisamos e por que razão as não  temos” (Anchor Books/Doubleday, Nova Iorque, 1999), aponta os cinco temas maiores do “eduquês”. Vejamos quais são e uma mão cheia de expressões que os sustentam:

 

- Concepção instrumental da educação: “aprender a aprender”, “aptidão para o pensamento crítico”, “aptidões metacognitivas”, “aprendizagem permanente”.

 

-         Desenvolvimentalismo romântico: “aprendizagem ao ritmo dos alunos”, “escola centrada na criança”, “diferenças individuais dos alunos”, “estilos individuais de aprendizagem”, “inteligências múltiplas”, “ensinar a criança e não a matéria”.

 

-         Pedagogia naturalista: “construtivismo”, “aprendizagem cooperativa”, “aprendizagem por descoberta”, “aprendizagem holística”, “método de projecto”, “aprendizagem temática”.

 

-         Antipatia ao ensino de conteúdos: “os factos não contam tanto como a compreensão”, “os factos ficam desactualizados”, “menos é mais”, “aprendizagem para a compreensão”.

 

Estas expressões poderão parecer familiares aos leitores que frequentaram escolas de educação ou simplesmente certas disciplinas educacionais noutras escolas. Apesar de algumas poderem fazer sentido sozinhas (encerram geralmente algo de trivial), aparecem baralhadas umas com as outras, confundindo quem as ouve e quem as lê.

 

Por exemplo, o dito “aprender a aprender” é, em geral, apenas um jogo de palavras que inebria quem as profere e que pretende inebriar quem as ouve. Usa-se também neste contexto o provérbio “mais vale ensinar a pescar que dar um peixe”. De acordo com esta concepção, interessa mais o instrumento - a cana de pesca - do que propriamente o fim – o peixe. Quem diz isso seria capaz de ficar a pescar horas perdidas sem pescar nada, não se importando nada com o seu comprovado fracasso. Mas quem diz isso parte de um erro: que se pode separar o conhecimento factual da atitude para o adquirir. Como se poderão transmitir atitudes em abstracto sem objectos que as exijam?

 

Outro exemplo: a “aprendizagem ao ritmo dos alunos” pretende inculcar a ideia romântica de que os alunos se devem desenvolver naturalmente, sem imposições exteriores. Poderá parecer sensata, mas é, de facto, ingénua e irrealista. Muita evidência acumulada desde há bastante tempo mostra que a imposição pelos professores de objectivos, prazos, níveis de exigência e recompensas adequadas consegue aumentar a aprendizagem dos alunos. Os alunos, abandonados ao seu ritmo, estão condenados ao fracasso.

 

O construtivismo, por sua vez, é uma doutrina cuja fama já conheceu melhores dias. Defende que só as ideias construídas pelo próprio têm consistência suficiente para permanecerem. Há um certo fundo de verdade nessa afirmação, mas é completamente delirante esperar que o menino Joãozinho, que está no nono ano do ensino básico, corra um dia da banheira a gritar “eureka!” ou que construa por si próprio a tabela periódica.

 

Por último, desmonte-se a frase “os factos não contam tanto como a compreensão”. É óbvio que os factos contam mais se forem relacionados entre si, podendo nós chamar compreensão à visão global que daí resulta (nomeadamente, a relação entre a constituição atómica e as propriedades químicas dos elementos). Mas estas relações, se forem bem estabelecidas, são evidentemente novos factos. Portanto, os factos e a sua compreensão são inextrincáveis. Como diz Hirsh: “Se a compreensão depende dos factos, é simplesmente contraditório louvar a compreensão em detrimento dos factos”.

 

Muito mais haveria a dizer a este propósito. Poder-se-ia mostrar “in extenso” como é absurdo instaurar entre nós uma escola sem currículo e sem avaliação. Este é um remédio errado para os problemas bem reais que afligem as nossas escolas e para os quais a confluência de várias soluções é benvinda, incluindo naturalmente os contributos das ciências da educação. É um “tiro ao lado”...

 

A desconstrução curricular que alguns teóricos defendem seria inócua se ela não fosse uma espécie de pensamento único no nosso Ministério da Educação. Não haverá uma exclusiva responsabilidade individual de um governante. Mas, no passado, houve um ministro, engenheiro mecânico, que, em momento de clarividência, interpelou o “eduquês”. E agora que temos um químico?