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                     28-04-2002  































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O Pós Modernismo explicado às crianças

O título de cima coincide com o de um livro de Jean François Lyotard publicado há anos na Dom Quixote. Lyotard é um filósofo pós-moderno que faz nessa obra um esforço para expor de uma maneira simples as principais ideias da corrente de pensamento que professa. Mas trata-se de uma tarefa difícil, quase impossível. Porque o pós-modernismo caracteriza-se, na maioria das vezes, por um discurso de frases tão pedantes como ocas que nenhuma criança entende (e muito menos um adulto).

Carlos Fiolhais
(Cientista)

O problema é que anda por aí uma horda de gente a explicar o pós-modernismo às crianças. O pós-modernismo é uma verdadeira praga intelectual que aflige a pedagogia no nosso país (como em outros, mas nós temos piores defesas: não desenvolvemos anticorpos em tempo útil) e que tem consequências terríveis sobre a qualidade de ensino que se pratica.

Não há nada como um exemplo concreto para se perceber do que se está a falar. A revista "Visão" (de 12 de Janeiro) divulgou recentemente, pela pena de Pedro Norton, um teste da disciplina da "Educação e Valores" da Escola Superior de Educação Almeida Garrett. Vamos acreditar na veracidade do inacreditável documento (a escola essa existe mesmo), que a "Visão" divulgou na Internet em

http://www.visaoonline.pt/paginas/conteudo.asp?CdConteudo=26872

sob o título "Ver para crer" (eu, se não visse, confesso que não acreditava). Eis uma das perguntas do teste – as outras são de semelhante jaez - para que o leitor, qualquer que seja a sua idade, possa avaliar por si próprio:


ESEAG – Escola Superior de Educação Almeida Garrett

Disciplina de Educação e Valores

Questionário

— Numa época de canhestros, sistemáticos e fragmentários dogmatismos, labilismos, labialismos, «turismos» culturais, pragmatismos, cepticismos, determinismos, fatalismos, autismos, narcisismos, parolismos... – mais ou menos camuflados por dinâmicas endógenas e exógenas – um relance, embora perfunctório, sobre a ossatura programática da Disciplina, permite afigurar-se razoável, liminarmente, a susceptibilidade de desfibrá-la, entre outras, nas seguintes dicotomias axiológicas mediáticas multifacetáveis, confinantes, congruentes, sinalagmáticas..., a entrecruzaram-se, transumirem-se, transubstanciarem-se, transversalizarem-se, etc.v. g; Cultura-Civilização; Valores-Referências

Sem irrelevar o subjacente, atipico e ágrafo património – genético, material e espiritual – a montante e a jusante do aluno, teça um comentário sinóptico (corroborante ou repudiante), ancorado em dimensão axiológica e argumentos, empíricos ou especulativos, minimamente válidos.


Educação? Valores?

Com a formação de professores que está à vista pela amostra, seria muito de admirar que o nosso sistema de ensino pudesse estar diferente da situação de quase-catástrofe em que está (se o leitor se quiser juntar a muita e boa gente que concorda com esse diagnóstico e está disposta a ajudar na necessária mudança clique em http://www.assinar.net para subscrever o "Manifesto para a Educação da República" ou envie a sua assinatura para Apartado 3008 Coimbra 3001-401) . O problema adicional é que a confusão não se fica pelo discurso. Quando o discurso tem algum conteúdo (o que não é obviamente o caso da questão apresentada, esteja o leitor tranquilo), trata-se em geral de um discurso anti-científico e, por isso, perigoso para a sanidade mental dos professores e, por extensão, das crianças e jovens. É um discurso que não apenas recusa a clareza, que é a maior virtude do raciocínio, como nega a realidade, que é o grande termo de referência com o qual qualquer discurso tem de se confrontar. Vale a pena dar a palavra ao Prémio Nobel da Física de 1979, Steven Weinberg, que tem sido um dos grandes defensores modernos não só da ciência como, mais em geral, da honestidade intelectual. Escreve ele no seu mais recente livro, ainda não traduzido em português: "Facing up. Science and Its Cultural Adversaries":

"Os pós modernos não apenas duvidam da objectividade da ciência mas não gostam da objectividade. Eles gostariam de algo mais quente e esquisito do que a ciência moderna. Estes pós-modernos são os descendentes intelectuais do herético que Tomás de Aquino mais detestava – Siger de Brabante. Siger argumentava que apesar da imortalidade da alma individual não ser filosoficamente permitida e portanto ser, de um ponto de vista filosófico, não verdadeira, estava teologicamente correcto. Assim, é ao mesmo tempo verdadeira e não verdadeira, dependendo do modo de pensar. Este parece ser o modo de pensar preferido dos pós-modernos."

Para eles uma coisa é e não é, está certa e está errada ao mesmo tempo. E Weinberg, em tom evidentemente jocoso, acrescenta mais adiante:

"Tal como qualquer agricultor sabe reconhecer uma vaca quando a vê, nós cientistas sabemos usualmente o que é a verdade quando a vemos."

Pois a formação de professores, com as honrosas excepções das pessoas que não se reconhecem no teste da Escola Almeida Garrett (pobre Garrett que, apesar de não ser muito prosélito da ciência, escrevia muito melhor do que o autor do teste!) está entregue a quem não sabe o que é uma vaca. E as pobres crianças, se não souberem antes de entrar para a escola a diferença entre uma vaca e um boi, estão simplesmente perdidas.

O discurso pós-moderno foi desmascarado há alguns anos por um físico-matemático norte-americano que enviou um texto de brincadeira (um bem preparado embuste) repleto de frases sem sentido umas e outras redondamente erradas à revista "Social Text". A revista aceitou pensando que o obscuro texto irradiava luz... A polémica está explicada no livro "Imposturas Intelectuais" do mesmo Sokal e de um seu colega belga Brimont, que a Gradiva publicou há poucos anos.

Costumam ser interessantes as polémicas que se geram quando alguém diz que o "rei vai nu". O professor de Física e divulgador da ciência António Manuel Baptista acaba de publicar entre nós um texto de crítica ao pós-modernismo que bem mereceria um debate aprofundado. Explica como alguns autores, enredando-se e procurando-nos enredar num discurso densamente enevoado, partem de uma incompreensão profunda do que é a ciência, quais são as suas motivações e quais são os seus resultados (conhecimento acrescido sobre essa realidade). E utilizam, por vezes, como meios de argumentação interpretações da física moderna que são objectivamente falsas.

Uma vaca é uma vaca, por muito que se lhe queira chamar um boi... E as nossas crianças, para crescerem saudáveis, têm o direito inalienável a que não as confundam.

LIVROS PARA SABER MAIS

- Steven Weinberg, "Facing up – Science and its cultural adversaries", Harvard University Press, Cambridge Ma. e Londres, 2001.

O grande físico autor de "Os Primeiros Três Minutos" e "Sonhos de uma Teoria Final"

reúne aqui os seus últimos ensaios sobre o significado e valor da ciência. Debruça-se em particular sobre o embuste de Sokal, republicando os textos que preparou para o "The New York Review of Books".

- António Manuel Baptista, "Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência Obscurantismo e Irresponsabilidade Intelectuais", Gradiva, 2002.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos é um autores citados no embuste de Sokal. Ele já afirmou que o pós-modernismo que defende não é o pós-modernismo atacado por Sokal. No entanto, Baptista escalpeliza o livro de Sousa Santos "Um Discurso sobre as Ciências", da editora Afrontamento, encontrando lá motivos para contencioso.

tcarlos@teor.fis.uc.pt

http://nautilus.fis.uc.pt/~cfiolhais



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