PÚBLICO 97-10-05
Educação científica: os males e os remédios
Carlos Fiolhais*

Portugal tem motivos à vista para se preocupar com a educação científica (sintomas recentes são os resultados das provas finais do ensino secundário, dos testes internacionais a alunos e dos inquéritos sobre cultura científica). Estamos roídos pela doença da ignorância científica, que nos pode ser fatal. Mas ninguém parece preocupar-se demasiado. Não há uma ideia mobilizadora, uma acção abrangente que nos encha o horizonte. Quando muito, vão-se administrando, com a ajuda de "especialistas" da educação, alguns remédios caseiros, circunstanciais e inconsequentes. Vejamos alguns problemas, criticando as mezinhas e alvitrando a cura.

1) Currículos, manuais e exames
O axioma de partida é a centralidade da escola, pese embora o contributo não despiciendo de outros meios. É na escola que se deve aprender, por exemplo, que a Terra gira em volta do Sol e que o homem proveio da evolução de organismos primitivos. Estes factos devem ser do conhecimento comum – é questão básica de cultura saber onde estamos e de onde vimos. O currículo tem de determinar que isso é ensinado. É também preciso um currículo de atitudes. Para além de um conjunto de factos, o ensino das ciências deve transmitir uma postura, fundada na dúvida e no método. A escola, além de fornecer respostas convencionais, deve treinar para vencer desafios, deve
preparar para a vida e para a mudança.

O primeiro problema é o desrespeito dos currículos e o desvalor de manuais e exames. Temos remendos permanentes, em vez de programas estáveis (as "orientações de gestão", que recortaram os currículos à pressa, são o reflexo da desorientação reinante). Os manuais, que muitos julgavam essenciais, são, em modernas concepções pedagógicas, apenas mais um elemento do "processo de ensino/aprendizagem". E os exames, que muitos julgavam incontornáveis para apurar a qualidade, constituem, em correntes moderníssimas, uma violência desnecessária sobre as crianças. Deveras perturbante, neste "processo de ensino/aprendizagem", é a linguagem dos "lobbies". Incomodado no topo do aparelho, mas com impotência evidente, o ministro chamou-lhe "eduquês". Para o leitor analfabeto nesse dialecto, eis algumas expressões: "núcleo significativo de..." (em geral, de conhecimentos), "matriz de..." (pode ser de qualquer coisa), "integrar" (embora o rigor seja nulo, parece matemática), "no quadro de" (de referência ou outro), "em termos de..." (a construção costuma estar errada), "estratégias/actividades", "enformar/informar" (a barra está omnipresente...), "implementar", "horizontal", etc. O aluno já não ignora, tem "deficientes competências cognitivas". O professor já não ensina, é um "facilitador do processo de ensino/aprendizagem". O aluno já não diz asneiras, mas cria "conceitos
alternativos". O professor já não dá matérias, mas "rentabiliza os tempos de leccionação", de acordo com "uma possível abordagem metodológica". Na matéria, o átomo é o "conceito" e a molécula é o "esquema". Com os vários "conceitos" controem-se vários "esquemas", todos eles possíveis. E assim se vai aprendendo muito pouco!

Tudo isto é justificado em nome de duvidosas doutrinas educativas, que já não passam incólumes (e que na ideia dos seus autores devem ser infinitamente melhores do que na reprodução dos que as pretendem aplicar). Conforme notou João Queiró, em "A Universidade Portuguesa - uma Reflexão", Gradiva, 1995: "Nunca tanto se estudou pedagogia e ciências de educação em Portugal e ao mesmo tempo os jovens portugueses saem cada vez menos preparados dos ensinos básico e secundário." Não temos que inventar a roda mas sim olhar para as escolas dos países desenvolvidos. E não repetir, usando linguagem cifrada, o que falhou noutros lados. Temos sobretudo de valorizar os conteúdos e as atitudes - nomeadamente a emulação -, em detrimento do fraseado e da indiferença.

2) Instalações e equipamentos
A falta de ambientes agradáveis e de equipamentos úteis nas escolas é um outro problema. Com efeito, espaços que alunos e professores gostem de habitar podem fazer a diferença. E não há outra maneira de aprender ciência senão com as "mãos na massa". Os equipamentos começam pois por ser laboratórios decentes. Como estes não abundam e como os docentes não trazem da formação o hábito da experiência, a prática experimental é mais excepção do que regra.

O último grito dos equipamentos dá pelo nome de "tecnologias da informação e comunicação" (TIC, na sigla cómica tão ao gosto de alguns pedagogos). Trata-se afinal de uma mezinha, mesmo que o projecto de "dinamização" se chame "Nónio" (pobre Pedro Nunes, que se deve revirar na campa com a bambochata que fazem com o seu nome!). Uma nova ferramenta tão influente como o computador será decerto útil no ensino, mas não é um elixir. Os problemas do ensino permanecem hoje por resolver, apesar do manancial de tecnologias que a sociedade foi criando. As tais novas tecnologias, que supostamente ajudariam a debelar o insucesso escolar, não passam entre nós de uma miragem no deserto que é, em geral, a ausência de fins e conteúdos. Falta acentuar os objectivos da aprendizagem e não os eventuais instrumentos. Com tal falta de acento, as escolas queixam-se da falta de computadores - um álibi perfeito... E o Governo tem o álibi do investimento (exíguo) na informática, em desfavor de edifícios conviviais, turmas menores, mais tempos de matemática e línguas, e professores mais bem formados e pagos. Steve Jobs, o guru da Apple, resumiu assim a ilusão informática: "O que está mal na educação não pode ser curado com tecnologia... Podemos colocar um Web 'site' em cada escola - nada disto é mau. É apenas mau, se cairmos no engodo de pensar que estamos a resolver o problema da educação." Qualquer dia, perdidos no infolabirinto global, redescobriremos velhos mas seguros métodos de aprender: pensar um pouco, estudar nos livros, perguntar a quem sabe (proponho as siglas PUP, ENL e PQS, a ver se algum pedagogo lhes pega). E até lá navegaremos à deriva, impelidos pelos ventos da moda, sem saber para onde vamos nem porquê.

3) Professores e formação
Finalmente, enuncie-se o problema maior. Arranjem currículos adequados, instalações óptimas, com laboratórios, computadores e tudo, e esqueçam-se dos professores habilitados. O resultado é obviamente desastroso. Um bom professor é a chave para o sistema funcionar. Mas os bons professores que temos (e temo-los) são-no em ambiente hostil. A massificação descuidada e o laxismo instalado transformaram as salas de aulas em lugares de poluição sonora, onde os professores, por vezes mal preparados e sempre mal pagos, se esforçam por se fazer ouvir.
A mezinha lusitana para formar professores chama-se programa "Foco".

Deslumbrado com os milhões para a formação, um ministro de um ex-governo chegou a declarar que ele próprio a podia ministrar. O resultado do voluntarismo foi o descrédito geral dos cursos. O lema parece ser "anything by anyone", tal é a proliferação de temas triviais dados em "eduquês". Que fazer? Melhorar a formação inicial. Fazer formação contínua séria. A ligação reforçada da comunidade escolar com a comunidade científica, onde a aquisição do saber está - ou devia estar - entranhada, é o único modo de enfrentar o problema dos recursos humanos. Trata-se de uma solução lenta que sai do corpo dos intervenientes. Não há prestidigitações que substituam o saber sedimentado e ele demora a sedimentar. A comunidade educativa, reconhecendo este princípio nuclear, saberá premiar os professores que aprenderem mais as suas matérias e transmitirem a vontade de saber aos seus alunos. Saberá distinguir as escolas que forem melhores.

De resto, a experiência internacional mostra que a colaboração de professores e cientistas é imprescindível para superar as deficiências.
Também há entre nós, felizmente, adeptos dessa aliança estratégica (ver José Mariano Gago, "Manifesto para a Ciência em Portugal", Gradiva, 1990). Em geral, os cientistas não são professores-pardais, apartados das realidades. Sofrem com o estado calamitoso da educação e estão dispostos a colaborar num esforço de recuperação.

Para grandes males grandes remédios: a educação requer um trabalho árduo e contínuo que não se substitui por débeis medidas de conjuntura. Desiluda-se quem pense que os problemas da educação científica podem ser resolvidos por este ou aquele governo (o actual, contra as expectativas, desistiu logo de início, ao separar a educação da ciência, e continuou desistente, com a educação de costas para a ciência). Tem de se ir resolvendo com o esforço quotidiano dos interessados - na primeira linha os professores e cientistas, mas também as famílias, que podem ser mais exigentes em relação aos primeiros e a si próprias. Quanto ao governo, já seria suficiente que não estragasse. As condições na
educação são difíceis e os prazos são longos, mas tal não implica desistência. Ensinar e aprender ciência não acontecem por magia: exigem
atenção e tomam tempo, exigem a nossa atenção e tomam o nosso tempo.


* professor de Física da Universidade de Coimbra