Primeiro de Janeiro

ROUSSEAU E RIBEIRO SANCHES

Carlos Fiolhais

(Cientista)

A expressão "filhos de Rousseau" deu o título a um livro de Maria Filomena Mónica sobre a situação calamitosa da educação em Portugal (Relógio D’Água, 1997). Filhos de Rousseau são os adeptos modernos (ou, como alguns deles preferem chamar-se, pós-modernos) das ideias de suíço Jean Jacques Rousseau, o autor do mito do bom selvagem. Escreveu Mónica, com meridiana clareza:

"As crianças eram seres sem pecado, original que a sociedade corrompia através das suas normas. Rousseau rejeitava as ideias de Locke, para quem as crianças deviam ser gradualmente introduzidas no mundo da racionalidade. Levada à sua conclusão lógica, a doutrina de Rousseau acaba no totalitarismo. Os homens tinham de ser felizes, mesmo que a isso tivessem de ser forçados. Já que não se podiam manter selvaticamente bons, entre as florestas primitivas, competia à escola conduzi-los até si mesmos. Ora, quem melhor do que os professores para os encaminhar até à Luz? Rousseau introduziu a ideia de que a criança era um botão de rosa. Ao professor competiria estrumar a alma infantil. Foi assim que a Pedagogia substituiu o Saber".

A educação está, portanto, roída entre nós pela doença do rousseauismo serôdio. Mas, se isso nos serve de algum consolo, não é apenas entre nós: o fenómeno grassa a nível mundial. Nós somos mais frágeis que outros porque não possuímos os anticorpos que outros têm. De resto, e como uma desgraça nunca vem só, não se trata apenas de um problema com a educação mas também de um problema com a ciência. Por exemplo, o biólogo norte-americano Edward Wilson, no seu livro Consilience - The Unity of Knowledge (Knopf, 1998; um dos grandes ensaios contemporâneos que ainda não foi traduzido em Portugal) faz uma profissão de fé no saber humano e na possibilidade de unir no futuro os vários saberes dispersos. Mas, logo no primeiro capítulo, acusa Rousseau de estar na base da "coabitação da ideologia igualitária e da coerção totalitária", aquilo que designa por "praga dos últimos séculos". O genebrino, ao defender o naturalismo, teria abandonado as ideias de racionalidade de progresso. Para Wilson, tal como para a socióloga portuguesa, Rousseau foi o mais claro antecessor de Robespierre, que espalhou o terror por conta de uma suposta felicidade social (incidentalmente dando assim razão à resposta de um aluno que, quando o professor lhe perguntou quem tinham sido os três percursores da Revolução Francesa, afirmou: "Foram Jean, Jacques e Rousseau!").

Rousseau teve, porém, opositores de monta, que também estiveram na origem da Revolução Francesa. Falamos, por exemplo, de Voltaire e Diderot, que acreditavam firmemente no poder da razão humana, na sua expressão através dos livros e na unidade do conhecimento. Por isso foi escrita a "Enciclopédie". Wilson defende a actualidade nos dias de hoje desse sonho iluminista (o título "consiliência" denota precisamente a "união das ciências"), em contraste perfeito com as ideias românticas, relativistas ou pós-modernas que ignoram ou desprezam o valor da ciência.

Como chegaram as ideias de Rousseau a Portugal? E que impacte tiveram? Um estudo publicado há um ano por Fernando Augusto Machado ilumina esta questão. Depois de algumas resistências iniciais (pois como não haveria uma sociedade fortemente hierarquizada e bastante influenciada pela igreja de resistir à ideia de igualdade entre os homens?) essas ideias acabaram por ser bem recebidas por pré-românticos e românticos de todos os matizes. Entre os últimos pontifica Almeida Garrett. E, como que dando razão à expressão "filhos de Rousseau", não se esquece de referir a admiração que pedagogos portugueses como António Sérgio e Delfim Santos nutriram pelo autor de "Émile". Mas Machado não se esquece também de referir a oposição a Rousseau. Nomeadamente, informa-nos que, em 1755, o "Émile" provocou uma "brutal reacção em Voltaire, que o denunciou com um insulto ao género humano e um elogio da animalidade, insinuando mesmo ao autor um convite ao exercício da quadrupedia". E refere também o caso do estrangeirado português António Ribeiro Sanches.

Machado acaba de publicar um outro livro, dedicado integralmente a Ribeiro Sanches. Sanches, que primeiro estudou na Universidade de Coimbra e depois se doutorou em Salamanca, viu-se obrigado, em virtude da sua origem judaica, a emigrar primeiro para a Holanda e depois para a Rússia e para a França. Na Rússia, onde esteve 16 anos, chegou a médico da corte. Foi um defensor das reformas introduzidas por Pombal na educação, nomeadamente a laicização das escolas. Atribuiu à influência da igreja a causa da decadência nacional. E afirmou que a educação é a chave da transformação social e económica. Advogou uma escola pública e aberta, embora duvidasse da igualdade entre os estudantes (defendeu uma educação especial para as elites). Para ele:

"Os mais excelentes monarcas que celebra a história sagrada e profana foram aqueles que tomaram a educação dos seus povos à sua conta; fundando escolas públicas, para ali adquirirem ali os hábitos da virtude, e as ciências de que precisavam os seus estados".

No bom espírito das luzes, defendeu também a ciência e a experimentação:

"É necessário exercitarem-se as mãos e os olhos na investigação das partes do corpo humano, tanto como na leitura que trata das mesmas partes: este estudo obriga o médico a observar, a trabalhar, e a indagar; e é o mais poderoso para adquirir aquele génio filosófico tão necessário nesta ciência".

E que pensava Sanches sobre Rousseau? Pois, pura e simplesmente, que era "doido". Acusa-o de excesso de especulação e de falta de espírito prático. Sobre o livro "Émile" escreve, em 1763, que "é um livro impraticável, cheio de paradoxos contrários à construção do estado civil e que sapa todas as leis fundamentais."

Mas Sanches não estava em Portugal nem fez escola entre nós. Se o tivesse feito não teríamos hoje nas nossas escolas tantos "filhos de Rousseau" (Rousseau só não é um "doido varrido" porque não foi varrido). Teríamos antes "filhos de Sanches" e não estaríamos tão mal.

 

LIVROS PARA SABER MAIS

- Fernando Augusto Machado, "Rousseau em Portugal", Campo das Letras, 2000

O autor obteve, com esta tese, o doutoramento em 1999 na Universidade do Minho em História da Filosofia e Cultura Portuguesa. Actualmente é professor nesta Universidade, integrando o Departamento de Filosofia e Cultura do Instituto de Letras e Ciências Humanas. O volumoso livro (713 páginas) debruça-se sobre a recepção em Portugal das ideias de Jean Jacques Rousseau. O subtítulo elucida o período que está em questão: "da clandestinidade setecentista à legalidade vintista". Nomes como Teodoro de Almeida, Filinto Elísio, Manuel Maria Bocage, Marquesa de Alorna, Almeida Garrett foram de uma maneira ou de outra prosélitos da obra de Rousseau.

- Fernando Augusto Machado, "Educação e Cidadania na Ilustração Portuguesa. Ribeiro Sanches", Campo das letras, 2001

O médico natural de Penamacor António Ribeiro Sanches foi um opositor ferrenho das teses de Rousseau. Se Rousseau pode ser considerado um pré-romântico, Ribeiro Sanches assume-se decididamente com um racionalista, contemporâneo e solidário com Voltaire, Diderot e outros grandes iluministas. Este livro aborda algumas das ideias de Ribeiro Sanches sobre a educação, concluindo com a transcrição e tradução na íntegra de um manuscrito, que se encontra no Arquivo Distrital de Braga, com recomendações para a educação dos fidalgos russos. Pormenor interessante: Machado pesquisou abundantemente em fontes russas, o que lhe foi facilitado pelo facto da esposa, a quem dedica o livro, ter essa nacionalidade. A edição foi patrocinada pela Câmara Municipal da Guarda, para assinalar os 300 anos que ocorreram em 1999 da morte do médico português.

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