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FotoA Guerra das Ciências
Por EDUARDO PRADO COELHO
Quinta-feira, 06 de Novembro de 2003

Paradoxal é que um livro deste teor seja acolhido por um silêncio quase total. Será que o trabalho sério não compensa?

Lembram-se? Aqui há meses foi lançado com algum estrépito um pequeno livro de António Manuel Baptista, intitulado "O discurso pós-moderno contra a ciência: obscurantismo e irresponsabilidade". Foi acolhido com alguma curiosidade pelos meios jornalísticos, que cuidaram pouco da qualidade do produto e visaram mais o barulho da operação.

Tratava-se de um ataque a um dos mais importantes pensadores portugueses, Boaventura de Sousa Santos, autor de um livro "Introdução a Uma Ciência Pós-Moderna", publicado em 1989. Estranhava-se o atraso e desatenção de António Manuel Baptista, mas estranhava-se sobretudo a pressa leviana com que o livro tinha sido atamancado. Não era preciso ser especialista na matéria para perceber que certos textos referidos por António Manuel Baptisa não eram entendidos ao nível elementar da análise do discurso, o que levava a argumentações estapafúrdias. Contudo, como o próprio Boaventura de Sousa Santos reconhece, estavam em jogo problemas importantes.

O livro de Boaventura tinha uma intuição de base, mas levava a conclusões certamente discutíveis e talvez, na perspectiva de hoje, algo datadas. Apetecia discuti-lo seriamente, mas não nos termos demagógicos e atabalhoados com que António Manuel Baptista tinha decidido intervir - como um bombeiro que quinze anos depois de um incêndio de uma floresta vai a correr à procura de uma chama por apagar.

Como os adversários não souberam elaborar uma discussão séria, Boaventura de Sousa Santos, como assinalável probidade intelectual, viu-se obrigado a organizá-la. Reconhece que o contexto filosófico e epistemológico aponta para novas formulações. E lançou na Afrontamento um impressionante volume de perto de 800 páginas (o título não é feliz: "Conhecimento Prudente para Uma Vida Decente"), com ampla e diversificada colaboração portuguesa e internacional. Se o ponto de partida é a polémica de há dois anos, o resultado é muito mais ambicioso: trata-se de um material de primeira qualidade sobre a racionalidade nos nossos dias, a guerra das ciências, os critérios epistemológicos, o famoso caso Sokal, as relações entre ciências humanas e ciências duras, o papel da metáfora e a análise da especificidade dos discursos científicos, e por aí fora, num elenco de problemas e propostas que constitui uma soma absolutamente imprescindível. Entre os numerosos colaboradores (muitas vezes discordantes em relação a Boaventura de Sousa Santos) temos Peter Wagner, Immanuel Wallerstein, Richard Lee, Isabelle Stengers, Roberto Follari, Stephen Toulmin, Walter Mignolo, entre os estrangeiros, e Mariano Gago, Arriscado Nunes, João Caraça, Jorge Dias de Deus, Miguel Baptista Pereira ou Hermínio Martins, do lado português.

Paradoxal, paradoxal mesmo, é que um livro deste teor seja acolhido por um silêncio quase total. Será que o trabalho sério não compensa? Topo de Página