SECÇÕES

A Secretária de Estado Que Não Quer Ser Avaliada

Por GUILHERME VALENTE e CARLOS FIOLHAIS

Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2001

Na avaliação internacional comparativa de conhecimentos em Matemática e Ciências realizada em 1997, os alunos portugueses do 1.º e do 3.º ciclos do básico foram os piores da Europa. Nos resultados, recentemente divulgados (ver PÚBLICO de 7/12/2000), do estudo idêntico realizado em 1999, Portugal já não aparece em último. Não aparece em último porque... não participou. A Secretaria de Estado da Educação impediu a presença das crianças portuguesas nessa avaliação.

Não há povos mais estúpidos do que outros. Por isso, os avaliados nesses estudos internacionais são, no fundo, os sistemas, as políticas e os políticos que são responsáveis por estas. Não foram os jovens portugueses que fugiram à emulação e ao desafio, decisivos não só para o seu progresso pessoal como para o desenvolvimento do país. Quem fugiu foi a Secretaria de Estado e a secretária de Estado, que não quis ver avaliados a sua política e o seu trabalho.

Para sairmos do último lugar, o Ministério da Educação adoptou, assim, a mesma solução que é promovida internamente para enfrentar o insucesso e a ineficácia patente do nosso sistema educativo: fugir às avaliações, isto é, à responsabilidade. Em vez de aproveitar o insucesso internacional de 1997 para melhorar o sistema, para promover o brio e o orgulho das nossas crianças, para fomentar - e este é um dos objectivos desta iniciativa internacional - a emulação e a superação das deficiências dos sistemas de ensino, este nosso deplorável Ministério da Educação esconde as chagas, abandona o campo e rende-se à sua comprovada incompetência.

Mas algo começa a mudar. Não conseguindo já resistir ao que começa a ser, felizmente, uma manifesta pressão pública e a exemplo do que está a ser feito pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia, a Secretaria de Estado da Educação viu-se forçada a avançar com... aferições, que, no entanto, não quer divulgar, ao contrário, mais uma vez, do exemplo dignificante e responsabilizador da avaliação do sector da Ciência e Tecnologia (pena é que o programa "Ciência Viva" seja uma excepção, continuando a recusar a avaliação). Inacreditavelmente, chega-se ao ponto de dizer que nós, cidadãos empenhados, financiadores e vítimas nas questões da educação, "não saberíamos interpretar os resultados"!

Repare-se no significativo recurso ao termo aferição, evitando a palavra correcta avaliação. Freud ficaria deliciado! Não conseguindo distanciar-se das concepções arcaicas que a alimentam e que têm feito do nosso país uma nação desqualificada e pedinte, a Secretaria de Estado da Educação nem a palavra certa consegue suportar. Foge da avaliação como o diabo da cruz, exibindo, assim, um traço nuclear da mais velha cultura portuguesa, uma cultura da aparência e não da realidade.

A avaliação é o antídoto da aparência. É por isso que a ciência, que exige, exercita e promove uma permanente avaliação, é uma ameaça para a velha cultura nacional. É talvez por isso que a ciência e a cultura científica têm tanta dificuldade em emergir na sociedade portuguesa...

Perdemos as revoluções científicas e as revoluções industriais. Continuando a ser uma sociedade marcada por um significativo analfabetismo, total ou funcional, e generalizadamente pouco qualificada, só nas palavras desacreditadas de alguns políticos poderemos vir a ganhar a revolução da sociedade do conhecimento. Como poderá progredir uma sociedade em cujo sistema de ensino não se promove a responsabilidade, não se distingue o empenho, o saber e as competências, não se elege e aponta o mérito pessoal como exemplo? Como poderá progredir uma sociedade que continua a ser, por isso, uma sociedade subserviente perante os poderes, acrítica, irresponsável, injusta, sem confiança e sem iniciativa?

Num artigo recente, no PÚBLICO (de 14/12/2000) o actual Ministro da Educação, Augusto Santos Silva, acentua, muito justamente, a questão da responsabilidade. Mas não vê o senhor ministro que o principal pólo gerador, estruturante, da irresponsabilidade nacional é o, agora "seu", sistema educativo?

E que deveremos pensar do artigo, também no PÚBLICO (de 23/12/2000), de Marçal Grilo sobre a questão da aferição/avaliação, a recomendar, agora, que se faça o que, aparentemente, ele próprio não terá conseguido realizar quando dirigiu o Ministério? Apoiado! Mas quem tem, afinal, dirigido o Ministério (ou, talvez melhor, o Mistério) da Educação nestas questões essenciais? A par da competência técnica, que ninguém regateará a estes ministros, não deveria também exigir-se-lhes coragem? Não estão eles a dever uma explicação ao país?

Quando perceberão os pais e as mães que as suas crianças estão a ser condenadas à dependência e à exclusão pela ideologia arcaica que tem dominado o nosso sistema educativo e que vem atingindo, com a actual secretária de Estado (que fica enquanto os ministros passam), uma evidência extrema? Até quando se continuará a jogar com o futuro das nossas crianças e os nossos jovens, prejudicando sobretudo os mais desfavorecidos pessoal e socialmente, condenando Portugal a continuar um país desqualificado e pedinte?

*Editor, Gradiva

**Professor catedrático, Universidade de Coimbra