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Para Se Construir Um País Constrói-se Primeiro Uma Escola
Por GUILHERME VALENTE
Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2003

Parecendo óbvio que uma sociedade muito atrasada terá dificuldade em criar a escola adequada, é também evidente que qualidade do ensino e desenvolvimento se reforçam mutuamente. O que não significa que o processo de desenvolvimento, uma vez iniciado, esteja garantido para sempre

É o desenvolvimento que conduz à qualidade do ensino, ou o contrário?

A questão, cada vez com menos sentido na sociedade do conhecimento dos nossos dias, não deve ser assim formulada, no quadro de um modelo causal linear, inadequado para explicar uma realidade que é um sistema complexo. Se assim não fosse, poderia concluir-se que bastaria agir sobre uma das alternativas consideradas, o que não é verdade, porque desenvolvimento é uma resultante, uma etiqueta, de muitos indicadores interactivos (justiça, cultura, economia, saúde, instrução, etc.) e é sobre os conteúdos que se tem de agir. Se assim não fosse, tendo surgido em Portugal oportunidades económicas, factos políticos e sociais favoráveis, por que não aconteceu o surto de crescimento que deveria determinar a tal pressão para o sistema educativo se adequar à emergência de uma procura exigente, mas compensadora? O que resultou e restou dessas oportunidades caídas do céu, as especiarias, o ouro do Brasil, as remessas dos emigrantes, os biliões da Europa? Se assim não fosse, não haveria razão para não termos hoje, neste nosso mundo globalizado, vindos de fora, a enriquecer o país e a desafiar a nossa escola, indústrias e serviços verdadeiramente geradores de riqueza.

Parecendo óbvio que uma sociedade muito atrasada terá dificuldade em criar a escola adequada, é também evidente que qualidade do ensino e desenvolvimento se reforçam mutuamente. O que não significa que o processo de desenvolvimento, uma vez iniciado, esteja garantido para sempre.

Na altura em que muita gente ainda supunha que o enriquecimento de Taiwan se devia à mão-de-obra barata, um prémio Nobel da física, o paquistanês Abdul Salam (formado, hélas!, na Inglaterra), explicava que o trunfo da ilha é a muita matemática e física que sabe. Os exemplos e os contra-exemplos abundam, no passado e nos nossos dias, tal como os exemplos de investimentos na educação sem resultados. Gastar mais não significa gastar bem. Colocar todas as crianças na escola é, obviamente uma condição necessária, mas não suficiente. A questão é: que escolas, que universidades? Não existe qualquer semelhança entre o caso português e, por exemplo, o da Coreia do Sul, em que a prioridade dada à educação a partir da década de 50 contribuiu reconhecidamente para o sucesso económico subsequente (46% de ocupação no terciário, uma das mais altas taxas do mundo; 4,4% do PIB fizeram o que Portugal, com os seus 6,3%, não conseguiu, sendo dramática a discrepância entre os dois países no referente às percentagens da população no secundário e na formação técnico-profissional).

O desenvolvimento sustentado não depende da existência de matérias-primas (os árabes transpiram petróleo...) ou da luta de classes. Depende das pessoas, depende - como a história ilustra - de um complexo de factores em que o conhecimento, a qualificação, a responsabilidade, a auto-exigência, a cultura (no sentido antropológico, valores, comportamentos), o mental, são os factores decisivos e catalisadores. E a escola é a sede privilegiada em que a sociedade, num esforço programado e voluntarista, feito o diagnóstico da realidade e definida a ambição, pode intervir para a mudança cultural.

Todos os conteúdos do desenvolvimento exigem agentes qualificados, uma cultura de confiança, emanação de um conjunto de valores éticos e sociais que só podem emergir na liberdade e têm de ser cultivados e promovidos na escola.

Se há prioridades - e, insisto, o modelo é "não linear" -, entre elas está, seguramente, a educação. É este o sentido do título do artigo do prémio Nobel Amartya Sen publicado recentemente no "New York Times": "Para se construir um país constrói-se primeiro uma escola." Uma escola centrada no conhecimento, na formação, na liberdade e na responsabilidade, na exigência, que forneça os instrumentos para a valorização humana e a qualificação profissional. Uma escola que seja o contrário do sistema educativo que continuamos a ter, desresponsabilizador e idiotizante, promovendo, em vez de enfrentar, a cultura do atraso dominante, responsabilidade não dos professores, como frequentemente se pretende, mas do Estado, dos governos, que permitiram que no Ministério e no sistema se instalasse o poder totalitário e obscurantista que ainda continua a dominá-los.

Uma escola que promova a auto-reflexão crítica, condição para nos conhecermos e podermos traçar o caminho que desejarmos percorrer.

Membro do Conselho Nacional de Educação, designado pelo governo