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CULTURA PORTUGUESA COM CERTEZA
Sábado, 10 de Janeiro de 2004

Guilherme Valente

O inquérito "As Leituras de 2003" promovido pelo Mil Folhas (PÚBLICO, 3-1-2004) aponta para: (a) o domínio asfixiante dos "media" pelos intelectuais literatos e pela cultura literata; (b) a formação e os interesses intelectuais das nossas elites literárias; (c) a formação e os interesses intelectuais distintos dos cientistas; (d) a endémica fragilidade ou a quase ausência na cultura portuguesa do que temos designado por cultura científica (os valores e atitudes que a prática da ciência necessariamente exige). Continuamos a ser, por isso, o reino das ideologias, que, como dizia Oliveira Martins, entre nós nem ideologias são, mas etiquetas.

Esse domínio dos meios de comunicação social pela cultura literata (também exercido corporativamente como acontece noutros sectores da vida nacional) condiciona, por sua vez, pelo gosto e preferências que induz, a actividade editorial portuguesa, limitando a sua diversidade. E assim se alimenta o círculo vicioso que vem impedindo a emergência de uma cultura global rica de interacções, facto que implica, afinal, a própria indigência de parte significativa da produção literária portuguesa.

Atente-se no seguinte:

1. Das 29 personalidades inquiridas, 22 são literatos, uma filósofa, uma socióloga e cinco cientistas (presença, aliás, em número surpreendente, que se deve, porventura, ao relativo êxito do combate desigual que vem sendo travado por um reduzido número de "agitadores" culturais e universitários). Das ciências sociais e humanas, com excepção da socióloga referida, zero. Como certamente não faltariam ao Mil Folhas referências e contactos de personalidades de outras áreas culturais, parece ficar provado o que referi em a), isto é, neste caso, o domínio asfixiante da cultura literata e dos intelectuais literários no suplemento de livros de um dos mais importantes jornais de referência portugueses (apesar da resistente lucidez da editora do Mil Folhas, que tem conseguido, mesmo assim, que o seu suplemento se distinga no desolador panorama nacional das revistas de livros).

É interessante notar, a propósito, que entre os temas e os autores cobertos pelo programa de televisão Acontece no último ano da sua transmissão, os livros e autores de ciência não tenham tido um número de presenças suficiente para surgirem com um valor estatístico, nem mesmo o menos expressivo (apesar, mais uma vez, do notório empenho do seu autor e criador).

2. Dos literatos inquiridos pelo Mil Folhas, apenas dois e, de certo modo, outros dois, referiram uma obra de um género diferente do que cultivam. Facto que apontará para a asserção que enunciei em b): a pobreza de leitura, formação e interesses de parte significativa dos intelectuais literários que temos. Como nada do que é humano deveria ser estranho a um criador literário e foram, seguramente, apesar de tudo, editadas em 2003 obras relevantes no domínio do ensaio, da história, da filosofia (gritante essa ausência na preferência dos inquiridos), da economia, para não falar das ciências exactas e naturais, etc., parece poder supor-se que parte significativa dos nossos autores literários terá vivido num buraco, revelando-se, afinal, como a generalidade dos portugueses, gente pouco dada à leitura e significativamente inculta.

3. A inversa não é verdadeira, o que parece corroborar o que enunciei em c): a distinção da formação e dos interesses intelectuais dos cientistas. Tendo presentes outros visíveis indicadores, não pode deixar de ser significativo, apesar da exiguidade da amostra, que, dos cinco praticantes de ciência inquiridos, quatro tivessem mencionado, entre as suas preferências, obras literárias e um deles um ensaio. Um dos cientistas mencionou mesmo apenas obras literárias. Se tivessem sido inquiridos médicos e engenheiros, por exemplo, revelariam por certo a mesma mais informada e culta diversidade de leituras e interesses intelectuais.

De acordo com o que amostra parece indiciar, que educação do espírito, da sensibilidade e da inteligência poderemos esperar de parte significativa dos nossos criadores literários? Julgo que grande parte da melhor literatura portuguesa estará hoje nas páginas de ensaios e textos não catalogados como literários, designadamente, mas não só, em obras de cultura científica.

Não se trata, como C. P. Snow diagnosticou na Inglaterra dos anos 50, de uma falta de diálogo entre os cientistas e os intelectuais literários, mas da quase inexistência de uma cultura crítica, assente no conhecimento, indutora da irreverência face ao saber sabido, do inconformismo, da confiança.

O binómio de Newton é, de facto, tão belo como a Vénus de Milo. Como poderemos aprender a descobrir isso? Como poderemos chegar a essa cultura nova, condição para a respiração, modernização e progresso do país? A resposta aponta para muitas sedes. A comunicação social é, seguramente, uma dessas sedes (com astrólogas a zumbirem em todos os canais de televisão poderemos surpreender-nos que 30 por cento dos portugueses atribuam ao destino a causa dos acidentes de viação?). Mas a sede nuclear, estruturante, é a escola. Não é na escola que se aprende a ler e a gostar de ler, a escrever, a contar e a pensar? Aprende?