Duas Visões sobre a Disciplina na Escola

«Vale a pena falar de disciplina e de autoridade?»

Grande Reportagem, Setembro de 2002, p. 48

 

1    Quando se tomam medidas alegadamente para reforçar a disciplina pergunto-me se se terá feito uma reflexão sobre as causas mais profundas da indisciplina. Castiga-se o «mau comportamento», a falta de respeito, as provocações, que afinal são sinais exteriores de algo que vai mal na interioridade emocional e afectiva dos alunos. A indisciplina dos estudantes nas escolas decorre, na maioria dos casos, de um descontenta­ mento em relação a si próprios e em relação aos outros. A ajuda efectiva e «afectiva» que poderia vir do professor não se concretiza, muitas vezes, por falta de condições. Esse descontentamento nem sempre tem origem na es­cola e provoca uma desvalorização do «eu» que vai reflectir-se na relação com o ambiente envolvente. Há que reparar na estrutura do habitat esco­lar e perguntar se nela há lugar para uma efectiva relação humana; se a den­sidade populacional existente e a organização horária dos trabalhos estimula o convívio e o diálogo na resolução de conflitos. Assentar a disciplina na es­cola sobretudo na burocratização de processos disciplinares, através da ca­tegorização das faltas, e nas correspondentes sanções é privilegiar um modelo repressivo. Defendo um sistema que promova a responsabilidade do indivíduo perante a comunidade. Cada um tem o direito de se constituir como elemento activo na organização dessa comunidade, na elaboração das normas pelas quais ela tem de se reger. O fim último dessas normas é o respeito e o bem-estar de todos, tanto no convívio como no trabalho. O não cumprimento das normas estabelecidas impõe, naturalmente, uma análise das motivações e das consequências dos actos cometidos, tentando ultrapassá-las ou penalizá-las numa perspectiva de defesa dos valores humanos. Gostaria de referir um outro foco que também pode provocar indisciplina. Na escola, nem sempre está associado o prazer à actividade pro­posta. Quando digo prazer não excluo o esforço que lhe está ligado. A diferença está em despendermos esforço numa acção de que se gosta ou, pelo contrário, se detesta. Não se trata de só fazer aquilo de que se goste - mas do que tem significado para o sujeito e que constituirá caminho para a elaboração de novas ideias e de novos conhecimentos. Não é com reorganizações curriculares nem com reforços disciplinares, nem com aulas de cinquenta ou noventa minutos, que construímos uma escola que através da sua paisagem urbanística e do fervilhar de um trabalho assen­te na expressão, na comunicação, na arte e na ciência, faculte a todos os humanos que nela cresçam «o prazer de escrita»

Lucinda Atalaia, Directora do Jardim Infantil Pestalozzi, Lisboa

 

 

2     A disciplina e as regras são estruturantes e fundamentais no desen­volvimento psíquico das crianças, logo essenciais numa escola. A confusão que se gerou entre autoridade e autoritarismo, herança dos anos sessenta e um pouco do pós-25 de Abril, criou como que um com­plexo em relação a qualquer tomada de posição mais firme.

Passámos de uma escola sem liberdade, limitadora da criatividade e quase castradora - realmente autoritária - para o extremo oposto da permissividade quase total e do laxismo. Como consequência, nas últimas décadas tem-se assistido a uma desautorização da escola e do papel dos professores e educadores que arrasta perversamente a desautorização da família e mina os valores cívicos e de respeito pelo outro. A excessiva con­taminação ideológica desta questão produziu uma associação simplista e grosseira da afirmação da autoridade e da disciplina com posições con­servadoras e de direita. Para mim, que sempre assumi os ideais e valores humanistas da esquerda democrática, esta questão coloca-se claramen­te a outro nível. Trata-se da compreensão do funcionamento psicológi­co das crianças e adolescentes, da dinâmica dos grupos e das relações hu­manas e das exigências da sociedade moderna. As figuras de referência e os limites por estas impostos são absolutamente imprescindíveis à criança na construção da sua identidade. Na ausência de limites, a diferença do outro não é reconhecida, não é respeitada. Na escola, a autoridade e a disciplina devem ser entendidas nesta perspectiva.

Assistimos hoje em dia a uma escalada de indisciplina e actos violentos nas escolas, como se os jovens necessitassem de transgredir sem cessar até que finalmente alguém os oiça. A ausência de resposta ao apelo contido neste tipo de comportamentos, isto é, a demissão da autoridade dos adultos, reforça o desespero, lançando os jovens numa fuga para a frente traduzida em actos pré-delinquentes que reforçam um senti­mento falacioso de impunidade e omnipotência. Vale a pena falar em autoridade e disciplina na escola, para restituir aos educadores a premên­cia do seu papel formativo e educativo, a necessidade de se envolverem efectivamente, de exercerem verdadeiramente a sua autoridade, numa lin­guagem partilhada de direitos e deveres com os pais e as famílias.

A escola atravessa, sem dúvida alguma, uma crise, mas que reside essencialmente na representação que tem de si própria. Isto é, a escola, de certa maneira, interiorizou a desautorização que lhe é feita.

Isabel Soares Directora do Colégio Moderno, Lisboa