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Ensinantes e Aprendentes
Por
GUILHERME VALENTE Sábado, 3 de Novembro de 2001
1. O ensino básico abrange um período estruturante na formação
das crianças e adolescentes. Pode dizer-se, de um modo geral, que
tudo se ganha ou se perde nesses anos de escolaridade obrigatória.
Ao permitir a execução do Decreto-lei 6/2001 de 18 de Janeiro de
2001, herdado da anterior equipa governativa, o actual ministro da
Educação tornou-se cúmplice de um passo fulcral no "genocídio"
intelectual e cultural em curso.
Apresentando o Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências
Essenciais (ver PÚBLICO de 26 de Setembro) - documento dito
fundamental da "reforma" posta já em prática num certo número de
escolas e a generalizar nos próximos anos -, o director do
Departamento de Ensino Básico afirmou tratar-se de "um guia a partir
do qual as escolas estabelecem as suas prioridades". "Tudo o que
existe (programas e manuais escolares) deve ser lido e interpretado
à luz deste documento."
De acordo com o relato do PÚBLICO, em 240 páginas o Ministério da
Educação define as competências gerais e transdisciplinares que um
aluno deve ter no final do 9º ano. Estas competências, previamente
definidas, para cada disciplina e cada ciclo de ensino, não devem
ser vistas "como objectivos mínimos", alerta a tutela. "Não se
trata, definitivamente, de procurar que os alunos cumpram a
escolaridade obrigatória à custa da promoção de um ensino cada vez
mais pobre", ressalva a introdução do documento. (Freud acharia uma
delícia a emergência incontrolável da verdade expressa pelo seu
contrário...) A grande novidade do "currículo", afirma o director do
Ensino Básico, reside no facto de estar formulado "em termos de
competências essenciais", em vez de falar de conteúdos, e de estar
estruturado "numa lógica de ciclo de ensino, em vez de definir
objectivos para cada ano escolar".
Repare-se na reacção de um membro da Associação de Professores de
Matemática que, ainda segundo o PÚBLICO, não esconde o seu
entusiasmo: este documento "permite aos professores terem um grande
espaço de manobra". "No passado a máxima era: o programa é para ser
cumprido; agora este documento permite que o mote seja: o programa
não tem que ser dado do primeiro ao último item, de forma ordenada."
O director do Ensino Básico confirma a tragédia: trata-se de um
guia "a partir do qual as escolas estabelecem as suas prioridades";
é um documento que "ajuda a relativizar a importância dos
programas". "Daqui a uns anos, espero que haja cada vez menos coisas
normativas e prescritivas e que os programas sejam definidos pelas
escolas."
Ficaremos, assim, muito perto da descoberta portuguesa de uma
matemática regional, de uma gramática e uma história de cada escola
ou mesmo de cada professor, de uma física de Alguidares de Baixo, de
uma ciência... relativa. E teremos um Ministério da Educação a
realizar, finalmente, o grande sonho da maioria da nossa classe
política: não poder ser responsabilizada por nada.
Escolas e professores entregues a si próprios (não é neste
domínio, obviamente, que a autonomia das escolas é imperativa),
alunos encerrados no seu universo de referências (culturais, sociais
e regionais) e de ambições, caldo de exclusão e de guetos, resultado
último do relativismo extremo subjacente às concepções obsoletas
que, instaladas no Ministério da Educação, têm contribuído
substancialmente para que sejamos cada vez mais, intelectual,
cultural e materialmente, o país que nunca conseguimos deixar de
ser. Revela-se, assim, claramente, a lógica da eliminação gradual de
provas globais e de exames nacionais que se vem verificando, exames
agora tornados impraticáveis pela "relativização" dos conteúdos e do
calendário dos programas.
Quem tenha presente a realidade da escola e da sociedade
portuguesas, a cultura dominante de ignorância, irresponsabilidade,
desqualificação e falta de exigência (os filhos do eduquês começam a
encher os ministérios, os serviços, as empresas e as ruas)
concluirá, com um mínimo de sensatez, que esta "reforma" é uma
espécie de "solução final". Note-se que não estão previstos
critérios de avaliação objectivos da "reforma". O único critério
parece ser a proclamada auto-satisfação do director do Departamento
de Ensino Básico (ver PÚBLICO de 31 de Outubro). Satisfação por ser
um dos responsáveis do sistema de ensino que é, comprovadamente, em
todos os registos, o pior da Europa?
Para além de se apontar, como sugere inequivocamente o senhor
director, para o desaparecimento gravíssimo de um currículo
nacional, os objectivos enunciados no documento apresentado irão
ficar, de acordo com o passo que agora é dado, ainda mais distantes
de serem atingidos pela generalidade das nossas crianças, sobretudo,
acentue-se, pelas mais desfavorecidas. Mas da verificação directa
desse fracasso ficará o sistema defendido, uma vez que passará a
estar inviabilizado qualquer tipo de avaliação comparativa.
Cada escola, cada professor, cada aluno serão assim... os
melhores deles próprios. Sem programa, sem prazos, sem exigência,
sem avaliação, o sistema terá atingido a sua redonda perfeição.
Alunos, professores, escolas, ministério, governo, estarão,
finalmente, no melhor dos mundos. E os alunos portugueses - todos
eles - tornar-se-ão, enfim, sem contestação, os melhores do mundo. O
último a sair que apague a luz, não é senhor ministro?
2. Parece mentira, mas não é. As expressões "ensinantes" e
"aprendentes" são retiradas da proposta para o programa de Português
do 10º Ano, elaborada e distribuída pelo Ministério da Educação.
Essas e outras expressões do mesmo calibre foram, acrescente-se,
retomadas no documento O Ensino e Aprendizagem do Português na
Transição do Milénio - Relatório Preliminar, editado, imagine-se,
pela Associação de Professores de Português, com o apoio e o aval do
Ministério da Educação, departamentos do Ensino Secundário e de
Educação Básica (Fevereiro de 2001).
A confusão que percorre o conteúdo dos dois documentos, o seu
carácter palavroso e redundante, o espírito dogmático de ambos, o
uso pretensioso mas deficiente da língua, indicam a origem comum:
são o retrato expressivo das "concepções educativas", da cultura,
das deficiências de formação e instrução dos "especialistas" em
cujas mãos os sucessivos governos abandonaram a educação e o destino
dos nossos filhos. Não sabem português (nem... francês), mas decidem
sobre as obras e os anos do seu estudo no nosso sistema educativo.
Atente-se no último dos dois parágrafos da "Nota prévia" do
documento distribuído pelo ministério: "O texto, na globalidade ou
parcialmente, poderá vir a sofrer alterações que dependem [não será
"dependerão"?] da reflexão já iniciada pelos autores para os 11º e
12º anos e das opiniões construtivas dos leitores, desde que não
colidam com as opções metodológicas tomadas." Ou, ainda, no seguinte
parágrafo, que ilustra perfeitamente a insuportável verborreia
recorrente das sucessivas "reformas": "À escola compete então, e ao
ensino secundário em particular, contribuir para a aquisição,
desenvolvimento e consolidação da competência comunicativa dos
alunos, nas suas várias componentes, através da sua exposição a
vários géneros públicos e formais do oral de complexidade e
formalidades crescentes, cuja compreensão exige focalização
prolongada da atenção, extensão e diversidade vocabular, rapidez de
acesso lexical, e domínio de estruturas sintácticas de grande
complexidade."
O senhor ministro sabe ler? Sabe.
O que mais será preciso para que os portugueses informados e
responsáveis se ergam e exijam que seja enfrentado a sério o mais
grave problema do país?
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