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Director Mário Bettencourt Resendes    Director Adjunto António Ribeiro Ferreira
Segunda Feira
08 de Abril
de 2002
edição n.2290

 
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JOÃO CÉSAR DAS NEVES
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João César das Neves
A formalização do disparate

Acaba de ser publicado entre nós um volume insólito. Trata-se de um livro sobre outro livro, uma vasta denúncia cultural, uma polémica violenta sobre temas científicos. Todas estas coisas são raras num país de brandos costumes e interesses românticos.

Por isso, a edição de O discurso pós-moderno contra a Ciência - Obscurantismo e irresponsabilidade (Gradiva, Lisboa, 2002), do professor António Manuel Baptista, merece muita atenção.

Para todos os que se deliciaram durante anos com os seus excelentes programas de divulgação científica na televisão, é difícil imaginar a indignação do tranquilo professor António Baptista. Mas a sua zanga ressoa bem alto, ao longo das páginas do pequeno livro, com um colorido e interesse bem patentes. O alvo da sua cólera é um outro livro, de um outro académico, também ele muito mediático, Um discurso sobre as Ciências (Afrontamento, Porto, 12.ª; ed., 2001), do professor Boaventura Sousa Santos.

O trabalho original de Sousa Santos (S), obra de 1987, repetidamente republicada, constitui uma referência fundamental da Sociologia da Ciência, em Portugal. Trata-se de uma lição impressionantemente erudita, carregada de referências académicas, citando textos de Física, Biologia, Filosofia, Epistemologia e outras áreas, num turbilhão avassalador. É este volume que o professor Baptista vem agora atacar de forma violentíssima, escrevendo um livro (B) que curiosamente tem exactamente o dobro das páginas do texto que comenta.

O problema explica-se em poucas palavras. Segundo a escola pós-moderna e o seu representante português, Sousa Santos, depois da revolução de Einstein, Planck, Gödel e outros, no século XX, dá-se "a crise do paradigma dominante" (S, p. 23; cf. B, p. 61), na ciência moderna, pondo em causa os velhos conceitos de rigor, medição, simultaneidade e causalidade em que se baseava toda a ciência. Nasce uma atitude nova. "Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente." (S, 28; B, 63).

Perdem-se, assim, segundo a visão pós-moderna, as características de solidez e confiança que a ciência garantia. A teoria da relatividade, a mecânica quântica, a incerteza de Heisenberg levam os pós-modernos a relativizar todas as coisas. Já não há rigor, certeza: tudo é contingente, inseguro, discutível. Assim, as ciências exactas passam a ser incertas e fluidas e há uma aproximação das várias disciplinas, num todo holístico. "À medida que as ciências naturais se aproximam das ciências sociais, estas aproximam-se das humanidades." (S, 43) É por isso que os pós-modernos falam de coisas como "teatro molecular" (S, 45), "democracia nuclear" (S, 41), "natureza política da matemática" (B, 44) e "perversões machistas" na ciência (B, 30).

O professor António Baptista, no seu volume de crítica, limita-se a afirmar o óbvio: o rei vai nu. Estas elucubrações pós-modernas do professor Sousa Santos e colegas são um disparate pegado, sem qualquer sentido científico, filosófico ou sequer lógico. A escola não compreende os teoremas que cita e distorce os modelos que comenta. Einstein não diz o que se lhe atribuiu e a Física Quântica não significa nada do que dizem dela. O apregoado novo paradigma é um tecido de confusões, extrapolações, dislates e lugares-comuns, criando uma monstruosidade de "obscurantismo e irresponsabilidade", com o único fim de minar a confiança na ciência.

O elemento central que subjaz a toda a questão é um supino desrespeito pela realidade. O pós-modernismo possui uma ideologia e impõe-na, independentemente da verdade dos factos. Se as coisas não são como lhe agrada, distorce-as, para as colar à doutrina. Esta é a atitude do relativismo contemporâneo, em todos os campos, aqui em aplicação ao elemento mais rigoroso e formal, a ciência. Como sempre, o resultado é estéril e tonto. O próprio professor Sousa Santos refere a inanidade e vacuidade das suas elucubrações: "Nenhum de nós pode visualizar projectos concretos de investigação que correspondam inteiramente ao paradigma emergente que aqui delineei." (S, 58; B, 84).

Mas há um outro elemento, muito mais sinistro, em tudo isto. Como aponta o professor Baptista (B, 50), esta atitude pós-moderna é dominante no ensino, e, sobretudo, na formação de professores.

Os nossos filhos são educados por pessoas a quem tentaram ensinar estes disparates, como verdades indiscutíveis. Existe, aqui, um fenómeno semelhante à mecânica quântica. Quando o observador atento olha para as teorias pós-modernas, elas colapsam no disparate; mas, enquanto não observadas, vivem num estatuto difuso, absorvidas como verdade absoluta, em muitos meios. Esta é uma das principais razões do desastre educativo nacional.

naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

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