Acaba de ser publicado entre nós um
volume insólito. Trata-se de um livro sobre outro livro, uma
vasta denúncia cultural, uma polémica violenta sobre temas
científicos. Todas estas coisas são raras num país de brandos
costumes e interesses românticos.
Por isso, a
edição de O discurso pós-moderno contra a Ciência-
Obscurantismo e irresponsabilidade (Gradiva, Lisboa,
2002), do professor António Manuel Baptista, merece muita
atenção.
Para todos os que se deliciaram durante
anos com os seus excelentes programas de divulgação científica
na televisão, é difícil imaginar a indignação do tranquilo
professor António Baptista. Mas a sua zanga ressoa bem alto,
ao longo das páginas do pequeno livro, com um colorido e
interesse bem patentes. O alvo da sua cólera é um outro livro,
de um outro académico, também ele muito mediático, Um
discurso sobre as Ciências (Afrontamento, Porto, 12.ª;
ed., 2001), do professor Boaventura Sousa Santos.
O
trabalho original de Sousa Santos (S), obra de 1987,
repetidamente republicada, constitui uma referência
fundamental da Sociologia da Ciência, em Portugal. Trata-se de
uma lição impressionantemente erudita, carregada de
referências académicas, citando textos de Física, Biologia,
Filosofia, Epistemologia e outras áreas, num turbilhão
avassalador. É este volume que o professor Baptista vem agora
atacar de forma violentíssima, escrevendo um livro (B) que
curiosamente tem exactamente o dobro das páginas do texto que
comenta.
O problema explica-se em poucas palavras.
Segundo a escola pós-moderna e o seu representante português,
Sousa Santos, depois da revolução de Einstein, Planck, Gödel e
outros, no século XX, dá-se "a crise do paradigma dominante"
(S, p. 23; cf. B, p. 61), na ciência moderna, pondo em causa
os velhos conceitos de rigor, medição, simultaneidade e
causalidade em que se baseava toda a ciência. Nasce uma
atitude nova. "Em vez da eternidade, a história; em vez do
determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a
interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez
da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez
da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e
o acidente." (S, 28; B, 63).
Perdem-se, assim, segundo
a visão pós-moderna, as características de solidez e confiança
que a ciência garantia. A teoria da relatividade, a mecânica
quântica, a incerteza de Heisenberg levam os pós-modernos a
relativizar todas as coisas. Já não há rigor, certeza: tudo é
contingente, inseguro, discutível. Assim, as ciências exactas
passam a ser incertas e fluidas e há uma aproximação das
várias disciplinas, num todo holístico. "À medida que as
ciências naturais se aproximam das ciências sociais, estas
aproximam-se das humanidades." (S, 43) É por isso que os
pós-modernos falam de coisas como "teatro molecular" (S, 45),
"democracia nuclear" (S, 41), "natureza política da
matemática" (B, 44) e "perversões machistas" na ciência (B,
30).
O professor António Baptista, no seu volume de
crítica, limita-se a afirmar o óbvio: o rei vai nu. Estas
elucubrações pós-modernas do professor Sousa Santos e colegas
são um disparate pegado, sem qualquer sentido científico,
filosófico ou sequer lógico. A escola não compreende os
teoremas que cita e distorce os modelos que comenta. Einstein
não diz o que se lhe atribuiu e a Física Quântica não
significa nada do que dizem dela. O apregoado novo paradigma é
um tecido de confusões, extrapolações, dislates e
lugares-comuns, criando uma monstruosidade de "obscurantismo e
irresponsabilidade", com o único fim de minar a confiança na
ciência.
O elemento central que subjaz a toda a questão
é um supino desrespeito pela realidade. O pós-modernismo
possui uma ideologia e impõe-na, independentemente da verdade
dos factos. Se as coisas não são como lhe agrada, distorce-as,
para as colar à doutrina. Esta é a atitude do relativismo
contemporâneo, em todos os campos, aqui em aplicação ao
elemento mais rigoroso e formal, a ciência. Como sempre, o
resultado é estéril e tonto. O próprio professor Sousa Santos
refere a inanidade e vacuidade das suas elucubrações: "Nenhum
de nós pode visualizar projectos concretos de investigação que
correspondam inteiramente ao paradigma emergente que aqui
delineei." (S, 58; B, 84).
Mas há um outro elemento,
muito mais sinistro, em tudo isto. Como aponta o professor
Baptista (B, 50), esta atitude pós-moderna é dominante no
ensino, e, sobretudo, na formação de professores.
Os
nossos filhos são educados por pessoas a quem tentaram ensinar
estes disparates, como verdades indiscutíveis. Existe, aqui,
um fenómeno semelhante à mecânica quântica. Quando o
observador atento olha para as teorias pós-modernas, elas
colapsam no disparate; mas, enquanto não observadas, vivem num
estatuto difuso, absorvidas como verdade absoluta, em muitos
meios. Esta é uma das principais razões do desastre educativo
nacional.