NO ARTIGO «Quem nos liberta desta
cruz?» (EXPRESSO, 10/12/05) H. Monteiro utiliza (de forma
desastradamente descontextualizada) algumas das ideias que
defendo sobre o ensino da Matemática. Se Monteiro tivesse
pesquisado sobre o tema, procurando encontrar bases mais
sólidas para argumentar para lá de um posicionamento
primariamente reactivo, tinha percebido que existe a nível
mundial um movimento que questiona a neutralidade da formação
matemática feita na escola básica e aponta para a necessidade
de a tornar crítica. Isto está estreitamente relacionado com o
facto (por mais que lhe custe) da escola ter, em inúmeras
situações, um papel produtor e reprodutor de desigualdades
sociais. Tivesse reflectido sobre o que leu no meu artigo,
tinha percebido que os exemplos que cito levam a interrogar a
matemática (redutora e simplista) da escola básica que não
promove nos alunos um posicionamento crítico sobre a vida. Se
é importante saber que 4x2=8, é igualmente importante perceber
que o modelo da proporcionalidade tem uma aplicação
absolutamente selvagem na sociedade e é um elemento formatador
de inúmeras actividades. Já se questionou porque é que os
aumentos salariais ou os impostos são tipicamente
proporcionais?
Transformar a disciplina de matemática numa disciplina de
educação matemática significaria dar atenção à formação de
cidadãos mais competentes em termos de pensamento matemático e
modelação matemática que é muito mais do que adquirir
mecanizações de procedimentos matemáticos. Educar
matematicamente passa por desenvolver a capacidade de
identificar e analisar modelos matemáticos do quotidiano com
vista a tornar as pessoas mais críticas e dar-lhes meios e
poder de intervenção social. Compreendo que para Monteiro
(como para outras pessoas igualmente presas à escola
tradicional) não seja imediata a percepção do alcance duma
transformação deste tipo. Mas se se pensar no que foi no
passado a transformação da disciplina de Ginástica na de
Educação Física, ou na diferença entre o ensino da música e a
educação musical, poderá perceber-se onde quero chegar. É
fundamental dar um contributo mais forte na educação de
cidadãos socialmente activos e não recatados na
conformidade.
Colar este tipo de proposta a uma desvalorização do
conhecimento científico, do saber e dos valores é não perceber
do que se fala quando se fala de educação. Os portugueses
enquanto cidadãos (e não só os que se ligam temporariamente à
educação porque têm filhos na condição de «alunos») precisam
obviamente de educação matemática. E não de mais argumentos
para não acreditar na educação.
Professor
Universitário