23.12.2005
Edição 1730
 
Cruzes que pesam no ensino da Matemática

João Filipe de Matos

«Educar matematicamente passa por desenvolver a capacidade de identificar e analisar modelos matemáticos do quotidiano com vista a tornar as pessoas mais críticas e dar-lhes meios e poder de intervenção social.»

NO ARTIGO «Quem nos liberta desta cruz?» (EXPRESSO, 10/12/05) H. Monteiro utiliza (de forma desastradamente descontextualizada) algumas das ideias que defendo sobre o ensino da Matemática. Se Monteiro tivesse pesquisado sobre o tema, procurando encontrar bases mais sólidas para argumentar para lá de um posicionamento primariamente reactivo, tinha percebido que existe a nível mundial um movimento que questiona a neutralidade da formação matemática feita na escola básica e aponta para a necessidade de a tornar crítica. Isto está estreitamente relacionado com o facto (por mais que lhe custe) da escola ter, em inúmeras situações, um papel produtor e reprodutor de desigualdades sociais. Tivesse reflectido sobre o que leu no meu artigo, tinha percebido que os exemplos que cito levam a interrogar a matemática (redutora e simplista) da escola básica que não promove nos alunos um posicionamento crítico sobre a vida. Se é importante saber que 4x2=8, é igualmente importante perceber que o modelo da proporcionalidade tem uma aplicação absolutamente selvagem na sociedade e é um elemento formatador de inúmeras actividades. Já se questionou porque é que os aumentos salariais ou os impostos são tipicamente proporcionais?

Transformar a disciplina de matemática numa disciplina de educação matemática significaria dar atenção à formação de cidadãos mais competentes em termos de pensamento matemático e modelação matemática que é muito mais do que adquirir mecanizações de procedimentos matemáticos. Educar matematicamente passa por desenvolver a capacidade de identificar e analisar modelos matemáticos do quotidiano com vista a tornar as pessoas mais críticas e dar-lhes meios e poder de intervenção social. Compreendo que para Monteiro (como para outras pessoas igualmente presas à escola tradicional) não seja imediata a percepção do alcance duma transformação deste tipo. Mas se se pensar no que foi no passado a transformação da disciplina de Ginástica na de Educação Física, ou na diferença entre o ensino da música e a educação musical, poderá perceber-se onde quero chegar. É fundamental dar um contributo mais forte na educação de cidadãos socialmente activos e não recatados na conformidade.

Colar este tipo de proposta a uma desvalorização do conhecimento científico, do saber e dos valores é não perceber do que se fala quando se fala de educação. Os portugueses enquanto cidadãos (e não só os que se ligam temporariamente à educação porque têm filhos na condição de «alunos») precisam obviamente de educação matemática. E não de mais argumentos para não acreditar na educação.

Professor Universitário

NR:

DE acordo com o sítio do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) o prof. João Filipe de Matos é membro do Conselho do Departamento, da sua Comissão Científica, orientador de um Mestrado em Didáctica da Matemática e representante à Assembleia de Representantes da FCUL. Não é, de facto um dos dirigentes do Centro de Investigação em Educação da mesma Faculdade. Peço desculpa pelo meu lapso, embora em nada isso altere a argumentação do artigo em causa.