Duas Culturas

Jorge Nuno Silva
(Jornal de Letras 869, 21 de Janeiro de 2004)

Há hoje um choque entre pós-modernos, por um lado, e alguns profissionais das ciências naturais, por outro.

Entre as várias acusações mútuas constam a dos pós-modernos de que a ciência é arrogante e não passa de uma convenção social, sustentando os outros que a apropriação dos resultados científicos pelos pós-modernos é muitas vezes abusiva e inconsistente, sendo o seu discurso pseudo-erudito e de conteúdo duvidoso.

O facto mais marcante desta luta, nos últimos tempos, foi o episódio Sokal. Este físico norte-americano submeteu à revista Social Text um artigo construído propositadamente como paródia, recheado de incongruências e disparates, mas vestido com uma roupagem de erudição, pejado de citações sonantes (Lacan, Kristeva, Irigaray, Latour, Baudrillard, Deleuze e Guattari, Virilio) e referências a factos científicos muito referidos nos meios pós-modernos (caos, relatividade, princípio da incerteza, mecânica quântica, teorema de Godel). O artigo apareceu em 1996, com o título "Transgressing the boundaries: towards a transformative hermeneutics of quantum gravity" (Social Text 46/47, pp. 217-252 (spring/summer 1996)).

Pouco depois, Sokal publicou "A physicist experiments with cultural studies" (Lingua Franca, May/June 1996, pp. 62-64), onde se auto-desmascarou. Sokal e Bricmont publicaram então o hoje célebre Impostures Intellectuelles, em 1997, editado entre nós pela Gradiva.

Longos debates se seguiram, e permanecem, sobre o significado e alcance do episódio Sokal.

Em Portugal os protagonistas são outros. Em 1985 Boaventura Sousa Santos (BSS), sociólogo da Universidade de Coimbra, proferiu uma palestra intitulada Um Discurso sobre as Ciências, publicado em 1987 e hoje na sua 14ª edição (Afrontamento, 2003).

Neste pequeno livro, com 58 páginas, podem ler-se frases como (pág 52):

"...a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia."

O livro de BSS foi alvo de crítica por parte de António Manuel Baptista (AMB), um físico da Universidade de Coimbra, que publicou O Discurso Pós-moderno Contra a Ciência-Obscurantismo e Irresponsabilidade, (Gradiva 2002, 126 págs). Aqui AMB defende que a ciência pretende descobrir as leis da natureza, não se limitando a ser uma convenção social, como pensa BSS. AMB contesta também a utilização que BSS faz de conceitos físicos, como a mecânica quântica.

BSS replicou e, no jornal Expresso de 9 de Março de 2002, entre outros reparos ao texto de AMB, escreve:

"Este escrito tem menos a ver com uma necessidade súbita, mas genuína, da comunidade científica do que com o perfume do poder que está a inebriar uma nova direita sobre a ciência e a educação."

Parece claro que BSS não apreciou a crítica, as acusações políticas a AMB parecem deslocadas. A polémica que nasceu com o livro de AMB foi recebendo participação variada. Assim, por exemplo, Eduardo Prado Coelho (EPC), na sua crítica ao livro de AMB, dirige o seguinte comentário ao autor ("O paraíso dos tontos", Público, 6 de Abril de 2002):

"Quando António Manuel Baptista ler algo mais sobre estas coisas além de uns artigos em revistas verá que tem de distinguir entre pós-modernidade, pós-estruturalismo, desconstrucionismo, construcionismo social, neopragmatismo, multiculturalismo, pós-colonialismo e sociologia das ciências."

EPC coloca muito alto a fasquia para poder criticar BSS.

Caricaturando: só um reaccionário inculto que já bebeu demais se atreve a criticar BSS...

Em 31 de Julho de 2003 pudemos assistir a um debate em que estiveram presentes os dois protagonistas deste duelo (Science and its critics, Aula Magna, UL) contando ainda com a participação de Sokal, Bricmont, João Caraça, Nuno Crato, Desidério Murcho. O debate desiludiu um pouco, já que o autor do Discurso remeteu a resposta ao físico para um livro a aparecer em breve. Apareceu agora: Conhecimento Prudente para uma Vida Decente---'Um Discurso sobre as Ciências' Revisitado, (Afrontamento 2003). Trata-se de um livro com 34 artigos, de diferentes académicos mundiais, organizado por BSS (que é autor de um deles e de uma introdução geral que sumaria todos). São 775 páginas, mais de um litro e meio de volume.

Os contribuintes distribuem-se pelos mais diversos ramos, há sociólogos, matemáticos, físicos, antropólogos, filósofos, psicanalistas, economistas e biólogos, entre outros.

A razão de ser da obra já foi referida, e consta do título, trata-se de revisitar o Discurso e responder a AMB ("...ressaibos das já desgastadas "guerras da ciência"" pode ler-se na pág. 273, no artigo de Anna Regnar, sobre o livro de AMB).

Creio que muitos destes artigos se inserem com naturalidade nas tomadas de posição que se têm sucedido. Teremos de esperar para ver se são boas contribuições para a discussão em curso. Contudo, alguns mostram outras preocupações. Por exemplo, Samuel Macdowell, um físico americano, esclarece alguns conceitos físicos e matemáticos, enquanto Mariano Gago reflecte sobre a divulgação da ciência, inspirado pelo programa Ciência Viva, que em boa hora instituiu entre nós.

De entre a enorme diversidade de trabalhos há um que, por se referir a um tema matemático, me merece um comentário. Trata-se do artigo de Joan Fujimura, antropóloga de uma Universidade dos Estados Unidos ("Como conferir autoridade ao conhecimento na ciência e na antropologia", pp 143-171). Numa parte deste artigo a autora pretende

"...analisar um incidente da história da geometria [...] que eclodiu em torno de um desafio ao quinto postulado de Euclides, desafio que desde então tem vindo a transformar o nosso entendimento da circunferência do círculo unitário (ou Pi) e os nossos conceitos de tempo e de espaço." (ênfase minha).

A autora refere-se ao episódio da paródia de Sokal e repara que há uma passagem em "Transgressing the boundaries" que não foi desmontada em "A Physicist Experiments With Cultural Studies", que se refere à "historicidade de Pi". Daqui parece concluir que o valor de Pi varia no tempo, diz mesmo que a universalidade de Pi foi refutada há 170 anos pelas geometrias não euclidianas. Fujimura refere os nomes dos protagonistas da criação das geometrias não euclidianas e insiste:

"Enquanto parte da revolução na geometria, o valor do perímetro do círculo unitário (ou Pi) mudou". (ênfase minha).

E prossegue:

"Nessas novas geometrias o perímetro de um círculo unitário (isto é, Pi) deixa de ser constante e universal. Pode ser um valor diferente de 3.14159... e é um dos mais interessantes temas de estudo da geometria pós-euclidiana." (ênfase minha).

Quando a autora se refere às distâncias não euclidianas, podemos ler:

"...apresento a seguir outro exemplo, o das distâncias não-euclidianas, a partir do qual é mais fácil explicar como se calcula valores alternativos." (ênfase minha).

E continua, dando exemplos de distâncias definidas no plano e dos respectivos "valores alternativos" de Pi. No começo da secção 8, encontramos:

"Os matemáticos e os cientistas mudaram o mundo ao desafiar os cânones universais e as constantes." (ênfase minha).

Na realidade, o número habitualmente designado pela letra grega Pi é uma constante, cujo valor aproximado é 3.14159. É a razão entre o perímetro e o diâmetro de qualquer circunferência do plano munido com a Geometria Euclidiana. Nem as geometrias não euclidianas nem as diversas métricas que se podem definir no plano têm qualquer impacto no seu valor.

Este texto contém muitas imprecisões matemáticas, nomeadamente nas secções 4, 5, 6 (A historicidade de Pi, Geometria não-euclidiana, Distâncias não-euclidianas). Os argumentos utilizados lembram os de vos Savant em The World's Most Famous Math Problem (St. Martin's Press 1993). É certo que há várias falhas na tradução para português do original (por exemplo, na página 165, a famosa citação de Kronecker aparece "Deus criou os mundos inteiros --- tudo o resto é obra do homem"), mas esses deslizes estão longe de poder justificar todas as deficiências do texto.

Espero que os restantes trabalhos, que não sou competente para analisar, se revelem mais sensatos.