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A Estranha Morte da Sociologia
Por MARIA FILOMENA MÓNICA
Sexta-feira, 29 de Março de 2002

Poucas coisas terão contribuído mais para a degradação das ciências sociais do que o jargão que os sociólogos optaram por usar. O desconstrutivismo e a semiótica, o marxismo althuseriano e o estruturalismo, as discussões epistemológicas e o post-modernismo passaram a dominar uma área do conhecimento que havia iniciado a sua vida, no século XIX, com força de expressão, clareza de estilo e capacidade de observação. A evolução, em Portugal, foi duplamente catastrófica.

FotoSalazar decidira proibir a disciplina, situação que Marcello Caetano manteve com a hipocrisia típica do final do regime. No início dos anos 1970, o prof. Sedas Nunes começou a planear uma licenciatura. A solução consistiu na criação de um curso em que a designação aparecesse disfarçada. Foi assim que, nos finais de 1973, a Sociologia nasceu sob o eufemismo de "Ciências do Trabalho e da Empresa". O curso foi invadido pelo marxismo primário, substituído, numa segunda fase, pelo jargão tecnocrático. Num país analfabeto, o facto de ninguém entender o que os sociólogos escreviam, longe de os prejudicar, transformou-os em gurus. É aqui que Sousa Santos entra em cena.

Antes que alguém se lembre de inventar que faço parte de uma conspiração para o desacreditar, uma vez que o mesmo foi recentemente atacado por um professor de Física de Coimbra, devo dizer que o meu artigo nasceu de um convite feito, há cerca de um mês, para escrever uma recensão sobre "Transnacionalização da Educação", uma obra que faz parte do projecto dirigido por Sousa Santos. Decidi então consultar o volume inaugural da série, intitulado "Globalização: Fatalidade ou Utopia" (Porto, Afrontamento, 2001). Não é esta, aliás, a primeira vez que critico uma obra de Sousa Santos. Em 1996, quando da publicação de "Os Tribunais na Sociedade Portuguesa", denunciei a sua "linguagem burocrática", a "exibição avulsa de gráficos" e a sua "incapacidade de interpretar o real".

Mas vamos ao que importa: o ensaio que apresenta o "maior e mais caro" projecto jamais realizado na área das Ciências Sociais em Portugal ("Diário de Notícias", 23-2-02). Generosamente financiado pela JNICT, FCT e pela Fundação Gulbenkian, Sousa Santos pode queixar-se de tudo, excepto de não ter recebido dinheiro. Eis o que nos diz, no Prefácio Geral, quanto aos objectivos do seu trabalho: "Entretanto, a partir de meados de oitenta, dois factores vieram alterar profundamente a inserção internacional e mundial do nosso país: a integração na União Europeia e o Consenso de Washington, através do qual os países mais desenvolvidos impuseram a todos os demais um novo modelo económico, social e político, o modelo neoliberal, gradualmente difundido no discurso político e mediático sob o nome de globalização." Notem-se os termos, "impuseram", "modelo neoliberal", "globalização", todos com forte carga ideológica. No Prefácio do Volume I, escreve: "Uma das características salientes da globalização que designamos por hegemónica é o facto de os custos e as oportunidades que produz serem muito desigualmente distribuídos no interior do sistema mundial, residindo aí [meu sublinhado] a razão do aumento exponencial das desigualdades sociais entre países ricos e países pobres e entre ricos e pobres do mesmo país nas últimas décadas." Depois de citar uma dezena de sociólogos, ilustra o "quadro teórico" com estatísticas dos relatórios do Banco Mundial (pág. 39-40), esquecendo que, além da ganância dos EUA, outro fenómeno é responsável pela pobreza no Terceiro Mundo: a corrupção dos seus governantes. A África pode estar, hoje, mais pobre do que há 40 anos. As suas elites estão certamente mais ricas.

Notemos, agora, o jargão. A partir da pág. 63, Sousa Santos fornece acrónimos para alguns dos fenómenos de que quer falar. Assim, passa a usar SMET, quando quer designar "sistema mundial em transição" e SMM para "sistema mundial moderno". O quadro sobre "Os processos da globalização" é tão inútil que apenas pode servir para que, nas suas múltiplas conferências, ele use uma daquelas batutas electrónicas que estão na moda. À medida que nos aproximamos do fim, a componente política vai-se tornando mais visível. Veja-se o subcapítulo 10: "A própria natureza do sistema mundial em transição é problemática e a ordem possível é a ordem na desordem." O autor prossegue com uma distinção, cujos pormenores poupo ao leitor, sobre a leitura paradigmática e a leitura subparadigmática, concluindo: "A actual financeirização da economia global aponta para a crise final da última e mais recente hegemonia, a dos EUA." Neste período, considera inevitável a "turbulência", vista por uns como controlável, e por outros (supõe-se que pelo próprio) como "prenúncios de rupturas radicais". O texto termina em estilo confessional: "As minhas análises do tempo presente, a minha preferência pelas acções transformadoras e, em geral, a minha sensibilidade - e esta é a palavra exacta - inclinam-me a pensar que as leituras paradigmáticas interpretam melhor a nossa condição do novo milénio do que as leituras subparadigmáticas." Tal como sucede com o tabaco, este livro deveria ostentar, na capa, um aviso, declarando que o seu consumo pode ser prejudicial, não propriamente à saúde física, mas à mental.

Sousa Santos não é apenas um autor, mas o conjunto de sintomas que tipificam a doença que atacou as ciências sociais. Como se isto não bastasse, simboliza a geração que, depois de 1974, iniciou a carreira docente. Liberta dos catedráticos - alguns deles saneados - os assistentes, sobretudo os que não tinham

passado antifascista, como é o seu caso, radicalizaram, sem escrúpulos, a disciplina. Finalmente, faz parte do grupo de intelectuais que, tendo beneficiado da tradição cultural do Ocidente, lhe voltaram, por motivos longos de explicar, as costas. As suas prédicas privam os discípulos do acesso ao cânone tradicional, impedindo-os de conhecer o que de melhor se produziu nas ciências sociais. Para quem veio do curso de Direito - e muitos foram os sociólogos que, como ele, percorreram este caminho - os modelos parecem corresponder à ideia de ciência. Sousa Santos é um dos grandes carrascos da tradição sociológica em Portugal. Senhor, não lhe perdoai, porque ele sabe o que faz. Topo de Página

 

   
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