27.09.2003
 
'R A N K I N G' / E X P R E S S O  D O  E N S I N O  S E C U N D Á R I O


Opinião
Os «rankings»

RANKING É bom que se tenha alterado o modo de apresentação pública dos resultados dos exames do 12º ano. Porque não cabe ao Estado elaborar quaisquer listas. Esta função compete aos diferentes protagonistas, entre eles universidades, jornais, revistas ou centros de investigação, que analisam a informação através dos critérios que consideram mais importantes. Ao Estado cumpre apresentar publicamente os dados, de um modo fácil de ler e com total transparência. É bom que o Estado se limite a este papel. Para que não aconteça, como no ano passado, em que ficou a sensação de que o Estado apresentava um estudo que, com maior ou menor rigor científico e através de uma ponderação muito discutível, acabou por deturpar os verdadeiros objectivos da publicação dos resultados dos exames.

VANTAGENS A apresentação pública dos resultados é importante a dois títulos: porque, no mesmo ano, as escolas se podem comparar entre si. Mas também para que cada escola, ao longo dos anos, se possa analisar a si própria. Esta análise deve ser um elemento de reflexão, em particular para a escola e para todos os seus responsáveis pedagógicos, professores, pais, estudantes.

RESULTADOS Os resultados de um exame têm de ser relativizados, uma vez que por si só não podem ser os únicos indicadores a ponderar no funcionamento de uma escola. No entanto, podem ser vistos como um indicador em simultâneo do funcionamento da escola e da qualidade do trabalho pedagógico do corpo docente. Mas são, sem dúvida, um indicador da qualidade dos estudantes. Com estes critérios, o «ranking» identifica, não a melhor escola, mas os estudantes com melhores resultados. Importa, a partir daqui, perceber a razão pela qual são aquelas escolas a ter os melhores alunos. É, sem dúvida, difícil distinguir as diferentes componentes deste processo. Mas, o que aconteceria se trocássemos os estudantes? Trocando os alunos das primeiras dez escolas deste «ranking» com os das últimas dez, o que aconteceria aos resultados? Seguramente que, em muitos casos, os estudantes que transitassem para as escolas colocadas nos dez primeiros lugares, teriam resultados substancialmente melhores. Tal como os estudantes que passassem das 10 primeiras para as 10 piores não teriam resultados substancialmente piores.

ANÁLISE Vale a pena que quem pesquisa - jornalistas ou investigadores - analise as escolas que têm melhores resultados. As escolas privadas dominam as médias gerais (90%, no primeiros dez lugares), mas há um grupo de escolas públicas nos primeiros 30, que são estabelecimentos grandes e que, mesmo assim, apresentam bons resultados. Vale a pena perceber (nomeadamente na Matemática, com a qual os portugueses têm uma relação difícil), a razão deste sucesso. Porque terá o Colégio de São João de Brito ou o Valsassina tão boas médias a Matemática? E as públicas Garcia de Orta, Filipa de Lencastre, Portela, Dona Leonor, Pupilos do Exército ou Herculano de Carvalho, como conseguem médias acima dos 13 valores?

MATEMÁTICA Os números confirmam o padrão de mau desempenho na disciplina. Há 52 escolas com médias abaixo dos 6 valores, tendo a última escola da lista uma média de 2,5 pontos. Com estes resultados, os pais e, em especial, os alunos vão ter que interiorizar que não é facilitando que se melhora. O que melhora os resultados é o trabalho, o esforço, a disciplina e por vezes os sacrifícios que é necessário fazer. Na Matemática têm de se fazer muitos exercícios, não basta compreender os problemas. Não tenhamos receio de dizer que para saber matemática é necessário estudar e estudar muito.

Marçal Grilo