Caminhos para a Formação de Matemáticos
e de Professores de Matemática*
Eduardo Marques de Sá
A volubilidade dos mercados de trabalho, a compressão na oferta de empregos, a recente definição de estratégias europeias para a área de formação superior, a evolução demográfica, a multiplicação de ofertas de formação, a necessidade imperativa de garantir qualidade real são factores decisivos que terão de pesar no dia-a-dia futuro das instituições de ensino superior. Eles condicionarão a actividade das escolas e a sua existência. Muita imaginação vai ser precisa para travar a descida, num mundo e num tempo em que Matemática é zurzida... inocente, simples mensageira de um indício, ou de um presságio.
As ideias aqui apresentadas são, em parte,
resultado de uma reflexão colectiva do Departamento de Matemática da
Universidade de Coimbra, em curso desde Fevereiro de 2001; os escritos que
serviram de guia ao que aqui escrevo aparecem na bibliografia final, com
especial relevo para as propostas de acção [1] e [2] e o relatório [3]. Agradeço
aos meus Colegas Artur Alves, Joana Nunes da Costa, Paula de
Oliveira, Paulo Eduardo de Oliveira, João Queiró e José Miguel Urbano as discussões que temos mantido, através
das quais fui captando e apurando ideias de que aqui deixo algum testemunho.
PARTE I
A Mensagem
No resumo desta conferência refiro, de
modo oculto, criptografado na expressão “inocente…
mensageira”, algo que penso ser privilégio e fatalidade da Matemática como
matéria de ensino. Nesta qualidade, e também como área do conhecimento, a
Matemática implica, pressupõe e destina-se a desenvolver funções nobres do nosso intelecto, por vezes
ditas de alto nível: as capacidades
de reflexão, de raciocínio, de hierarquização, de relacionação, de
argumentação, entre outras, por esta ou outra ordem. Trata-se, por isso, de
disciplina muito sensível, de grande vulnerabilidade às mudanças metodológicas
e de estratégia didáctica.
Não admira, pois, que a Matemática tenha
sido a primeira a dar sinal de rebate: na década passada —e, já antes disso, em
todas as avaliações nacionais e internacionais— ela foi declarada em crise. Mas
a Matemática foi e é singular mensageira de que algo não andava nem anda bem no
nosso Sistema de Ensino. Do livro de E.D. Hirsch, The Schools we Need and Why We Don’t Have Them [6], retiro a
citação do diálogo shakespeariano em que Cleópatra ameaça desorbitar, flagelar
e curtir em vinagre o mensageiro de uma trágica notícia…
Cleopatra: What say you? Hence
Horrible villan! Or I’ll spurn thine eyes
Like balls before me, I’ll unhair thy head:
Thou shalt be whipp’d with wire, and stewed
in brine,
Smarting in lingering pickle
… ao que o pobre escravo responde:
Messenger: Gracious
madam,
I that do bring the news made not the match…
A Matemática tem sido hostilizada por
trazer uma notícia muito desagradável para todos nós, especialmente para quem
tem o poder de mandar: a de que o Sistema Educativo português se foi perdendo e
tarda em encontrar-se; que o brusco, e justíssimo!, acesso de muitos mais
portugueses a uma escolaridade alargada não tem sido acompanhado, nas últimas
décadas, por medidas adequadas; que a política fácil e popular do sucesso
nominal, promovida por sucessivos governos ansiosos por continuarem a sê-lo,
produziu o único resultado que se podia esperar: o insucesso real… A
Matemática, e a Língua Materna que anda ao nosso lado nisto, sem ser por acaso,
trazem a notícia de que as estratégias e metodologias adoptadas não estão a dar
os resultados previstos pelos que mandaram adoptá-las.
A nossa disciplina tem o fado e a sina de
ser a janela de onde melhor se observa o Sistema. Desde há muito que os
resultados escandalosos dos exames do 12º ano nos dizem algo que não queremos
ouvir… fomo-nos habituando a eles e, com o correr dos anos, fizemos dos cerca
de 6 valores em 20 um padrão nacional, passivamente aceite. Criou-se, em muita
gente, a ilusão de se tratar de algo exterior a nós…
Outros avançaram a ideia de aqueles exames
serem demasiado difíceis, adequados apenas para o acesso ao Ensino Superior,
que melhor seria acabar com eles, como se tinha feito com outros. Mas a notícia
de que o problema era muito mais profundo chegou com o TIMSS e outras
avaliações internacionais comparadas, que colocaram, de modo transparente, o nosso
Ensino Básico no âmago da questão.[1] Fez, nessa altura, parte do
anedotário jornalístico o alvitre de incompatibilidade dos portugueses com a
Matemática! E os nossos responsáveis não se ficaram atrás ao expulsar de cena o TIMSS:[2] foi determinado que o nosso País se não
submetesse a testes desse género, dado que, reza o dogma oficial, os exames são
de abolir por não avaliarem o que verdadeiramente interessa.
É interessante observar que a citação de
Shakespeare se faz, no livro de Hirsch, a propósito do “fusilamento” de
sistemas de avaliação,[3] os mensageiros, praticado nos EUA e, em má hora, transferido para o nosso
País.[4]
Para ilustrar a fragilidade da Matemática
face a mudanças metodológicas e ideológicas, refiro, apenas de passagem, que um
ensino demasiado “centrado no aluno”[5] leva fatalmente, no meu entender, a uma
lentidão tal no processo de aprendizagem, que aprendizagens básicas elementares
não se fazem no momento adequado, comprometendo o seu processamento posterior. [Cf.
Adenda na página 13.]
A “matemática moderna” foi uma experiência
ilustrativa dessa hipersensibilidade da nossa disciplina. Tratou-se de um
movimento gerado nos EUA e em França, no início dos anos 60, e adoptado no
nosso País no final dessa década; para abreviar, diga-se que consistiu na
introdução da teoria dos conjuntos como metodologia e matéria de ensino não
superior, implementada de modo retroactivo, desde o ensino secundário até
chegar ao primário. Procurou-se, com essa “modernidade”, uma abordagem directa
e imediata das ‘competências de alto nível’ já referidas, mediante uma
explícita fundamentação lógica dos conceitos matemáticos mais elementares: uma
colagem da ‘aritmetização’ da matemática —tal como foi concebida no século XIX—
ao ensino das camadas mais jovens. A implantação dessa reforma mostrou também,
do mesmo passo e por motivos diferentes, os efeitos destrutivos de duas
características que vão sendo peculiares das nossas ‘experiências pedagógicas’:
a sua má condução e a sua não avaliação. No caso da “matemática moderna” isso
esteve bem patente na extensão a todo o País de uma experimentação feita sobre
‘turmas-piloto’ constituídas pelos alunos mais capazes de escolas bem
escolhidas e na ausência de avaliação quer do que antes existia, quer do estado
de coisas após a modernização. O alargamento ao Ensino Primário foi feito de
modo ainda mais inconsequente, pela total impreparação dos professores deste
nível de ensino em matéria de teoria dos conjuntos.
A referida metodologia de ensino, que
directamente se dirigiu às ‘competências de alto nível’, implantou-se com
explícito menosprezo pela memorização e por um ensino rico em factos;
recordo-me, ainda, do anátema lançado há cerca de vinte anos sobre expressões
como “transmissão de conhecimentos” e de “culturas”, a qual (“transmissão”)
tanto quanto a entendo, existiu desde que o homo
foi sapiens até à introdução das
ciências da educação no século XX.[6] Felizmente, o resgate da memória,
pedra basilar de toda a História e de toda a Cultura, vai sendo paulatinamente
feito, quer na área da psico-neurologia quer na área da psico-pedagogia.[7]
Deu-se o primado às competências formais,
aos ‘processos’, esquecendo-se que, sem substância, o cérebro não encontra
matéria sobre a qual exercer as suas capacidades naturais de reflectir,
raciocinar, relacionar, etc. Não se teve em conta que, nos primeiros ciclos de
escolaridade, um ensino pobre em factos, sem solicitação condigna dos processos
de memorização, pode ter custos irrecuperáveis, mais gravosos para as crianças
de classes sociais mais desfavorecidas (e, mais geralmente, para todas as
crianças que não tenham tido um conveniente acesso ao conhecimento na fase
pré-escolar). Além disso, as qualidades de trabalho, esforço e persistência, de
que tão bem se fala na Lei de Bases, foram colocadas ‘na reserva’, como
mostram, por exemplo, os programas do Ensino Secundário de 1991… vale a pena
reler: [8]
Incentivar o reconhecimento pelos [sic]
valores da autodisciplina, da persistência e do trabalho
Proporcionar a existência de vivências
formais e não formais que favoreçam: [...] o domínio de capacidades, hábitos e
técnicas de trabalho pessoal e em equipa.
Trata-se de frases de grande subtileza,
que retiram ao professor o objectivo, e a “autorização”, de “criar hábitos de trabalho” nos seus
alunos, conforme consta na Lei de Bases; no texto que cito não se trata de
“trabalhar”, mas de “reconhecer o valor do trabalho”, atitude que o professor
apenas tem que “incentivar”. O ensino é algo passivo: há que “proporcionar
vivências que favoreçam”… os hábitos e técnicas de trabalho ficam por conta dos
alunos, de acordo com os resultados de uma negociação entre docentes e
discentes.[9]
O que se seguiu à experimentação dos
programas do Ensino Secundário da reforma curricular de 1991 foi o alargamento
a todo o País dessa experiência grosseiramente conduzida e muito mal avaliada. Isso
obrigou aos ‘cortes-à-medida’ —contidos nas Orientações
de Gestão do Programa, de 1995— que, posteriormente, desembocaram no fraco
‘programa ajustado’ surgido em 1997. Foram muitos anos de um processo
rocambolesco no qual, custe a quem custar, se tornou já clara a
responsabilidade política. Mostra, também, que a avaliação de novos programas
pelos próprios autores experimentadores, e pelos responsáveis políticos que
lançam uma reforma e que nisso apostam os seus lugares, é obviamente
insuficiente: impõe-se, sempre, uma avaliação de carácter externo com
participação de sectores críticos.
PARTE II
Formação de matemáticos
Acabamos de assistir a uma brusca
diminuição da procura de cursos de licenciatura em Matemática. Há diversas
razões, mais ou menos conhecidas, para que isso esteja acontecendo, umas algo
óbvias, outras previsíveis, todas elas concorrendo para o mesmo efeito. Aponto
as que me parecem mais importantes:
1.
Uma
generalizada volatilidade nos mercados de trabalho, ao nível do nosso País e a
níveis muito mais alargados como o da União Europeia;
2.
A diminuição
do número de jovens em idade escolar, que há muito se previa, e se prevê que vá
continuar;
3.
A brusca
compressão no número de vagas de professores de Matemática, por efeito
combinado da travagem demográfica indicada e dos despachos de habilitações dos
Ministérios da Educação, iniciados, tanto quanto me lembro, nos finais dos anos
60, reiterados no início dos anos 80, e engrossados com a cascata de despachos
dos anos 1998, 1999 e 2000.
Tais despachos não vieram, apenas,
reforçar a ‘causa demográfica’: foram atitudes estrategicamente erradas,
especialmente gravosas para o ensino da Matemática, com efeitos que se
arrastarão por muitos anos.
A estas razões junta-se uma outra que me
causa grande preocupação: a diminuição da procura dos cursos das áreas de
Ciências e Tecnologias que maior percentagem do seu esforço lectivo dedicam à
Matemática. Parece-me legítimo atribuir isto, pelo menos em parte, a uma fuga
generalizada à Matemática, que foi passando de assunto espinhoso a coisa
indesejável, que ameaça tornar-se dispensável
se não houver prudência por parte das escolas de formação de cientistas e
engenheiros. É interessante registar a reacção, por parte da Ordem dos
Engenheiros, a este efeito rarefactor da Matemática na formação tecnológica: o
sério aviso do Bastonário sobre a possibilidade de não homologação de cursos de
engenharia que admitam alunos sem preparação condigna na Matemática do Ensino
Secundário. De facto, uma escola que aceite tal impreparação à entrada nas
licenciaturas terá de praticar, em consonância, um ensino menorizado da
Matemática. Ora, nas áreas tecnológicas que exijam originalidade de concepção,
capacidade de planeamento e de traçado estratégico todo o mundo civilizado sabe
ser indispensável uma competência matemática de alto nível; a impreparação de
jovens engenheiros poderá comprometer-lhes o futuro profissional face à
concorrência do alto nível intelectual praticado na União Europeia.
Falei de engenheiros como poderia ter
falado, homologamente, de arquitectos, economistas, gestores, físicos,
biólogos, etc. Rendermo-nos à impopularidade da Matemática, permitindo o
afrouxamento da sua exigência será uma hipoteca irresponsável a pagar pelas
próximas gerações. Seria muito importante medir em que medida a actual geração
jovem vai pagar (em termos do confronto de competências na União Europeia) o
desfazer, durante as últimas décadas, de importantes sistemas de avaliação na
formação básica.
Nesta matéria é melhor não atirarmos
pedras, apenas. Teremos, no meu entender, que modernizar o estilo de ensino da
Matemática às diversas ciências e tecnologias, tornar esse ensino mais rico em
factos interessantes, específicos de cada uma delas —já estamos a fazê-lo, mas
temos de fazer mais e melhor— aliviando o formalismo que não seja completamente
justificado, incidindo nas ideias centrais, nos argumentos cruciais, nas razões
não triviais da Matemática, sem divagação por patologias colaterais e
‘justificações do óbvio’ tão do nosso agrado enquanto investigadores. Teremos
de ensinar matérias mais sofisticadas de modo mais eficaz.
Nos departamentos de ‘espectro largo’,
onde se praticam vários ramos de licenciatura, desde a pura à aplicada,
parece-nos como mais apropriado um tronco comum de três anos, em vez dos dois
que muitos departamentos praticam. Vemos várias condicionantes que motivam essa
adopção:
A primeira
condicionante é o desenvolvimento recente da estratégia europeia para a
área da educação superior, sob os auspícios de várias declarações de
princípios, de Bolonha a Praga, que apontam para uma aproximação entre os
diversos sistemas nacionais, que permita a mobilidade de estudantes e
professores no sistema europeu, a transparência e comparabilidade dos graus
conferidos.[10]
Nas referidas declarações, assinadas por
cerca de três dezenas de países, prevê-se a adopção de um sistema baseado em
dois ciclos, subgraduado e graduado,[11]
o primeiro dos quais com um mínimo de três anos, de “banda larga”, sem
especialização, e um ano com “alguma especialização” (dois anos, nas
tecnologias).
A segunda
condicionante tem a ver com o facto de uma fase propedêutica de dois anos
nos surgir como demasiado curta, dificultando a implantação de ramos (‘ciclos
graduados’, para usar a nova terminologia)
muito especializados. Além disso, o tempo curto implica, na
implementação desse ciclo de apenas dois anos, fortes graus de abstracção, que
acentuam a repetência de muitos estudantes.
Note-se que esta razão condicionante está
muito longe de justificar as taxas de insucesso verificadas. Tendo-as em conta,
parece correcto que se adoptem medidas de atendimento dos estudantes, com maior
proximidade docente-discente, em regime tutorial, com turmas pequenas, etc. Estas
medidas são possíveis pelo efeito benéfico da diminuição do número de alunos
nas universidades. Nem tudo é mau, afinal.
Uma terceira
condicionante a ter em conta é a previsão de que a já referida instabilidade
na oferta de empregos venha a determinar uma fragilização da correlação entre
os percursos escolares e as actividades profissionais. Dito por extenso, um
jovem licenciado passará por diversas situações profissionais pouco
previsíveis, sem grande ligação às matérias específicas
aprendidas numa escola superior, podendo especializar-se, na mesma ou noutra
escola, em cursos ad hoc adaptados a
uma actividade profissional que se tenha tornado dominante na sua vida. “Formação
ao longo da vida” é a expressão já consagrada para este tipo de percurso.
Uma estrutura compatível com estas
condicionantes é a seguinte:
-
Um tronco
comum de três anos, sem muita especialização, com diversidade e grandes
cuidados propedêuticos, seguidos de
-
Um quarto
ano, com alguma especialização;
-
A instalação
de percursos de pós-graduação, com diversos graus de exigência, de acordo com a
procura de quem pretende continuar a sua formação.
A solução adoptada no DMUC foi a de um
quarto ano totalmente optativo: cada aluno escolhe 8 disciplinas semestrais de
uma lista variada de cerca de 16 ou mais disciplinas. Deste modo se
responsabiliza o aluno pelo seu destino escolar, que será determinado pelo
conhecimento que haja do mercado de trabalho e pelas suas inclinações e gostos
pessoais. Essa escolha é orientada pelo Departamento, com indicação das
articulações possíveis com pós-graduações, mestrados e doutoramentos.
O quarto ano totalmente opcional, que não
constitui ideia nova, permite aos departamentos evoluirem, impulsionados pelas
próprias licenciaturas, para áreas que ainda não pratiquem, como a matemática
da informática, da genética, da biologia, da química, da física, da economia e
finanças e de muitas outras áreas aplicadas que venham a ser solicitadas pelo
mercado, sem a necessidade de se comprometerem com a rigidez, as complexidades
e os custos de administração de novos ramos. Pode mesmo encarar-se a
constituição de licenciaturas com um primeiro ciclo ‘subgraduado’ em
Matemática, completado com um quarto ano de especialização específica em
matérias tradicionalmente exteriores à Matemática (como genética, biologia,
química, etc, etc) que possam vir a constituir boas simbioses. No que respeita
à pós-graduação, muitas modalidades são concebíveis, para além dos mestrados e
doutoramentos já formalizados. Por exemplo, cursos curtos, cursos de férias,
para continuação dos percursos que já esbocei.
À imprevisibilidade dos mercados de
emprego temos que responder com estruturas flexíveis e a vontade de aprender e
mudar… os limites serão, apenas, os da imaginação e da exequibilidade.
PARTE III
Formação de Professores de
Matemática
Nesta matéria, a primeira questão que vou
considerar é a da pertinência de, em Departamentos de Matemática, continuarem a
ministrar-se cursos de professores de Matemática para o ensino não superior. Há
quem defenda, com alguma razão, que esses departamentos não deviam formar
professores; que a energia indispensável a uma conveniente centragem dos
problemas pedagógico-didácticos da Matemática no ensino não superior devia ser
investido na resolução de outros problemas mais importantes. Nessa óptica, o
esforço assim despendido seria melhor empregue na investigação científica e na
pós-graduação, deixando-se aos especialistas em educação as diversas vertentes
da pedagogia e da didáctica.
Se não fosse a óbvia tendência retórica e
burocrática das nossas ciências da educação, eu estaria 100% de acordo com
isso. Tal como as coisas estão, porém, parece ser importante manter, em alguns
departamentos virados para a investigação científica em Matemática, a formação
para outros níveis de ensino, por ser de todo o interesse melhorar o contacto
dos professores, actuais e futuros, com o rigor, a objectividade, a inovação e
a avaliação ali praticados. A expressão “melhorar o contacto” significa,
também, melhorar a nossa prestação como formadores e produtores de pensamentos
e ideias no domínio da exploração pedagógico-didáctica.
Claro que tudo isto assenta no pressuposto
de que uma formação técnica cuidada dos futuros professores do ensino não
superior será indispensável à captação do interesse dos jovens pela Matemática.
A manutenção dos ramos educacionais parece
ser importante, também, pela experiência já adquirida, o que nos torna
especialmente responsáveis no que respeita à defesa e explicitação de
princípios estratégicos nessa matéria. Aqui vão alguns, informalmente
enquadrados.
Quadro número 1. O primado da formação científica.
A constituição de um professor com perfil de alta qualidade é obra de uma vida e de um sistema, de que a formação inicial é, apenas, o arranque. Defendemos que a formação inicial deve incidir, com insistência muito particular, numa preparação científica e técnica de alta qualidade. Este princípio adequa-se especialmente ao caso da matemática, pela transversalidade que a caracteriza na organização do pensamento e na leitura e entendimento de aspectos estruturais em tudo presentes, particularmente nas novas realidades que nos vão surgindo. Não faz sentido uma preparação técnica de fraco nível, com o alibi de que a formação de um professor ao longo da vida acabará por suprir essas falhas, ou o argumento devastador de que o especialista em educação e comunicação consegue ensinar mesmo o que não sabe.
Parece-nos, pelo contrário, que a
impreparação técnica apenas acentuará a insegurança do jovem professor na
escolha das melhores soluções didácticas; além disso, o envolvimento na intensa
actividade da escola e o frequentíssimo isolamento científico em que se
encontra desmobilizam uma adequada completação da formação técnica; pelo seu
lado, a actividade lectiva diária obriga a permanente necessidade de decisão de
carácter pedagógico-didáctico, com permanente apuramento das respectivas competências.
Assim, na vertente científica e na vertente pedagógica a evolução de um
professor faz-se, ao longo da vida, a velocidades muito diferentes, por ser
muito mais urgente, no contacto com os alunos, o apelo e renovação das suas
qualidades didácticas. Essas duas áreas de formação específica não estão no
mesmo plano de praticabilidade no quotidiano de um professor, daí que
insistamos num maior impulso inicial à componente científica.
Quadro número 2. Formação pedagógico-didáctica, liberdade
e responsabilidade…
O improviso de cada aula, para que resulte
e tenha efeitos na aprendizagem, exige preparação aturada, pressupondo, para
além do domínio do aspecto técnico, bons conhecimentos dos instrumentos
didácticos adequados e de alternativas científicas e metodológico-didácticas
de abordagem de cada um dos temas. Sublinhamos a palavra alternativas por oposição a monolitismos
tão em voga nos nossos dias.
A avaliar pelos resultados observados nos
nossos programas dos ensinos Básico e Secundário —e não só nos de Matemática[12]— os ideólogos do establishment educacional advogam uma estreita normatividade
metodológica dos programas, preferindo-a à normatividade de matérias: assim, as
substâncias do ensino, as ‘matérias’, são deixadas um tanto ao acaso e ao gosto
do professor, numa “flexibilidade curricular” que considero estrategicamente errada;
insiste-se, isso sim, no papel do professor, normativizam-se comportamentos,
metodologias e sequências didácticas, atitude que é claramente invasiva da
competência profissional dos professores e da sua margem de discricionaridade,
ao arrepio do que se faz em países muito próximos de nós.[13] O conhecimento de alternativas e o
reconhecimento da sua importância, especialmente numa prática consciente de
pedagogia diferenciada, são fundamentais para um futuro professor, na gestão da
sua relação com os seus alunos. Em conformidade, defendemos o reforço das
actuais disciplinas de didáctica específica da matemática, leccionadas por
profissionais com formação de alto nível matemático, e grande cuidado quanto
aos conteúdos e métodos utilizados na leccionação dessas disciplinas.
Quadro número 3. Formação deontológica
Tem sido dado muito relevo à formação para
a cidadania, à formação explícita e específica do futuro professor nos aspectos
deontológico e axiológico. Trata-se, justamente, de formação em matéria essencial
à constituição de cada ser humano, formação que começa nos cinco anos de
educação pré-primária e só termina quando cessa a vida. É escusado pensar-se
que os cursos de formação inicial podem produzir licenciados com perfis de
grandes professores, muito especialmente no que respeita aos princípios e
valores de ética profissional. Trata-se de algo que se não ensina como se
ensinam outras coisas, mas que se aprende com a vida numa escola a sério, que
acompanhe os professores mais jovens, em cujo dia-a-dia todos os professores
participem, por cujas actividades escolares os pais se interessem; passa,
também, por uma cultura de exigência na escola, em que os alunos e os
professores se enquadram porque trabalham.
É também esta, na nossa opinião, uma
função importante dos processos exigentes de avaliação: o de interiorizar, nos
estudantes, o princípio da sua responsabilidade na sua formação e, nos professores, a sua responsabilidade na formação
de terceiros.
Não nos parece que este quadro ideal se
possa gerar mediante disciplinas semestrais de ética profissional nos cursos de
formação inicial. A aprendizagem de princípios e valores de cidadania, do
respeito pelos outros, pelos seus direitos e diferenças, faz-se em todos os actos
da vida, na família, na escola, na universidade: desde a assiduidade, à conduta
nas aulas e nos corredores, ao estudo, às praxes, ao exemplo que dermos no
acompanhamento dos nossos alunos.
Se a formação deontológica e axiológica
deve, no essencial, ser resultado do enquadramento dos jovens professores no
contacto com a realidade escolar em período probatório de início de carreira, e
na sua actividade profissional a partir daí, não se exclui que a formação
inicial possa dar um arranque e um primeiro entendimento de problemas que a
actividade profissional levanta. Note-se que isto é, aliás, obrigatório: a
legislação em vigor impõe um mínimo de um quarto de
um ano lectivo em formação cultural, social e
ética.
É reivindicação antiga e insistente dos
departamentos de Matemática que conheço, que a preparação de professores deve
fazer-se em dois tempos: um curso de Matemática (tout court), seguido de uma preparação para a docência, rica em
didácticas específicas e um estágio. Não foi esse o entendimento na área das
ciências da educação, que apontou, há mais de três décadas, para um modelo em
que disciplinas como psicologia geral, história da educação, psico-pedagogia,
técnicas gerais da educação, etc, etc, fossem integradas desde o primeiro ano
das licenciaturas educacionais. Muitos departamentos de Matemática (a par de
muitos outros, em outras áreas) não aceitaram esse tipo de integração, pela
medíocre preparação específica a que o dito modelo conduziu ao fim de alguns
anos de experimentação. Mas a ideia manteve-se com forte pressão sobre escolas
que praticaram um modelo de concentração da pedagogia e didáctica no final dos
cursos.
O modelo de “aspersão” das ciências da
educação e da iniciação profissional “ao longo do curso” parece-me sair
prejudicado com a assinatura dos documentos de Bolonha e Praga (Junho de 1999 e
Maio de 2001). De facto, os cursos desse tipo apontam para uma
profissionalização intensa e exclusiva para uma profissão —à qual os
licenciados dificilmente terão acesso, a manter-se a actual tendência dos
mercados de emprego. O que farão, então, os jovens candidatos a professores que
não o consigam ser? Talvez voltar atrás e tirar uma licenciatura com melhores
saídas…
Apesar disto, o INAFOP insiste na ideia,
conforme pode ler-se no número 3.8. ii)
dos Padrões de Qualidade da Formação
Inicial de Professores:
As actividades de iniciação à prática
profissional […] concretizam-se, ao longo do curso, de forma coerente com os
objectivos do programa, através de acções diferenciadas de duração crescente e
responsabilização progressiva, e concluem-se com o estágio profissional
supervisionado;
À questão “Qual a Matemática que deve
saber um professor de Matemática?” a resposta que damos é: toda a de um curso
(propedêutico, tipo bacharelato) de três anos, num departamento da
especialidade. Um estudante que o complete pode, depois, optar por um 4º ano
“científico” altamente optativo, ou por um ano de preparação profissional como
professor.
No meu Departamento, o Ramo Educacional
consiste numa forma imperativa de quarto ano; a não existência de opções na
formação de professores deve-se, em primeiro lugar, ao facto de se tratar de
uma licenciatura profissionalizante, com necessidades específicas bem determinadas
e sobre as quais há que cumprir legislação. Sem reclamar originalidade, antes
reafirmando um modelo de formação bem conhecido, ao primeiro ciclo de três anos de formação matemática, segue-se um
quarto ano com 8 disciplinas: psicologia da adolescência, diversas didácticas
da Matemática —com relevo para a resolução de problemas, meios computacionais
no ensino— e disciplinas de “introdução à realidade escolar”. Estas podem
incluir um contacto com problemas que a actividade profissional docente
levanta, incluindo atenção ao contexto social; outros tópicos são avaliação,
legislação, planificação do ensino, organização e funcionamento das escolas,
deontologia profissional. Esta disciplina deve ser preferencialmente da
responsabilidade de docentes com experiência efectiva no Básico e Secundário.
EPÍLOGO
Não terminarei sem vos dizer uma ou duas
coisas sobre a mensagem a Cleópatra. A mensagem não narrava, ainda, a derrota
de Actium, mas sim o casamento do seu amante, Marco António, com Octávia, irmã
do futuro Imperador Augusto… daí a cólera da Raínha egípcia… As indicações de
cena dizem-nos que o pobre escravo é invectivado, agredido, ameaçado de morte…
Cleopatra: Rogue, thou hast liv'd too long…! (Draw a knife)
O Mensageiro balbuceia um protesto e, à
cautela, sai de cena:
Messenger: Nay then I’ll run:
What mean you Madam, I have made no fault. (Exit)
Reentra passadas 12 linhas… e custa cerca de 20 linhas mais convencer
Cleópatra da inevitabilidade dos factos:
Cleopatra: He
is married?
Messenger: Take no offence, that I would not offend
you,
To punnish me for
what you make me do
Seems much unequall, he's married to Octavia.
Já que o conhecimento, o entendimento, as
imagens e as ideias são, sempre, construídas por cada um de nós, deixo-vos o
encargo de interpretar, cada um à sua maneira, a mensagem oculta neste final de
cena.
BIBLIOGRAFIA
Textos de referência
1.
Revisão
dos Planos de Estudos em Matemática. Conceitos e Método, Presidente da Comissão Científica do DM da Universidade de Coimbra,
aprovado na Comissão Científica, Fevereiro 2001, www.mat.uc.pt/~boletim
2.
Artur Alves, Notas
sobre a Revisão dos Planos de Estudos, DM da Universidade de Coimbra, Abril
2001, (veja-se referência [3], pp. 78-84)
3.
Maria Paula de Oliveira, Eduardo Sá, João Queiró (coordenador),
Paulo Eduardo de Oliveira, Joana Costa e José Miguel Urbano, Relatório da Comissão de Reflexão sobre a
Revisão dos Planos de Estudo de Matemática, DM da Universidade de Coimbra,
Outubro 2001, www.mat.uc.pt/~reflecte
Outros textos
4.
C. Fiolhais,
O “eduquês” continua a fazer estragos,
nautilus.fis.uc.pt/~cfiolhais
5. H. Gardner e E. Hirsch, Opposing Approaches so Johnny Can Read, artigos no The New York Times de 11 Setembro de 1999.
6. E. Hirsch, The Schools we Need, and why we don’t have them, Anchor Books, New York, Setembro de 1999.
7.
P. Norton, Paixão pela Educação, Visão 463, 17 de
Janeiro de 2002, p. 39
8.
João Queiró,
Educação:
Silêncios e Problemas, Público, 9 de
Dezembro de 1999, www.mat.uc.pt/~jfqueiro
9.
João Queiró,
A contratação de professores pelo Estado,
texto da conferência no Encontro da ACEULC, Coimbra, 7 Novembro 2001,
www.mat.uc.pt/~jfqueiro
10. João Queiró, A Publicação da Notas dos Exames do 12º Ano, Gazeta de Matematica,
142, Janeiro de 2002, pp. 28-31, www.mat.uc.pt/~jfqueiro
11. Eduardo Marques de Sá, Problemas da
Formação de Professores de Matemática, in O Ensino da Matemática na Universidade em Portugal e Assuntos
Relacionados, Publicações do CIM, nº 14, Coimbra 2000, pp. 22-29
12. W.
Shakespeare, Antony and Cleopatra,
ver, e.g., web.uvic.ca/shakespeare
13. Guilherme Valente e Carlos Fiolhais, A Secretária de Estado Que Não Quer Ser
Avaliada, Público, 24 de Janeiro de 2001
Textos no âmbito de actividades da SPM
14. Eduardo Marques de Sá (coordenador), Isabel Seruca dos Reis, Miguel Ramos e
Jorge Pato, Critérios de elaboração de
Programas de Matemática do 7º ao 12º ano, no âmbito de um projecto do
Instituto de Inovação Educacional e da SPM, 1998, 101 páginas.
15.
Eduardo Marques de Sá (coordenador), Isabel Seruca dos
Reis, Miguel Ramos e Jorge Pato, Critérios
de elaboração de manuais Escolares e Guiões para Professores de Matemática, do
7º ao 12º, no âmbito de um projecto do Instituto de Inovação Educacional e
da SPM, 1999, 100 páginas.
16. Amália Bárrios, Eduardo Marques de Sá, Isabel Maria C. da Cunha, Joana
Castro, Jorge Dias de Deus, José Vítor Adragão, Paulo Feytor Pinto, Teresa
Peña, Reflexões sobre Programas de Língua
Materna, Matemática e Ciências, Dezembro de 1999, a publicar pelo Instituto
de Inovação Educacional, 59 páginas.
17.
Amália Bárrios, Eduardo Marques de Sá, Isabel Maria C. da
Cunha, Joana Castro, Jorge Dias de Deus, José Vítor Adragão, Paulo Feytor
Pinto, Teresa Peña, Reflexões sobre
Manuais Escolares e Guiões para Professores de Língua Materna, Matemática e
Ciências, Janeiro de 2000, Instituto de Inovação Educacional, 43 páginas.
Adenda…
gerada por um comentário crítico, justíssimo, do meu
prezado amigo Jorge Buesco, sobre a palava “construídas” utilizada na última
frase do artigo acima. Tal palavra surge com um sabor muito post-moderno, a que
eu pretendi dar um sentido irónico… mas a ironia perdeu-se por eu ter cortado
frases essenciais à sua compreeensão, que foram ditas na apresentação pública. Aqui
vão elas, um tanto fora de tempo… queira o leitor imaginá-las no sítio certo,
assinalado na página 3:
Explicitando um pouco mais… o “construtivismo” educacional resulta de um
axioma homónimo da neuro-psicologia que foi mal colado pela
psicologia-educacional. O princípio, hoje largamente aceite, de que as nossas
memórias, ideias, raciocínios resultam de imagens (marcas deixadas pelo real
concreto) “construídas” e registadas no nosso cérebro (é ele que as sintetiza)
não tem como corolário que o melhor processo de ensinar seja esperar que o
aluno “descubra”, “construa” por si, uma definição, um teorema, uma relação, o
resultado de uma experiência, uma tabela periódica, um movimento planetário. O
ensino por docência ‘activa’, com intervenção expositiva atractiva, é muito
mais eficaz no potenciar da construção (!) conceptual por parte do aluno…
aliás, o seu cérebro (o do aluno) construirá SEMPRE, quer através de pesquisa
própria, quer por descrição que outros lhe façam.
Está também aqui em causa o “aprender pela descoberta”, o “ensinar ao ritmo
do aluno” (este pode redundar no melhor processo de consolidar atrasos na
aprendizagem, tantas e tantas vezes originados por falta de cultura factual), e
em causa fica, também, o primado da compreensão relativamente aos factos (como
diz E. Hirsh, em [6]: “Se a compreensão
depende dos factos, é simplesmente contraditório louvar a compreensão em
detrimento dos factos”).
* Texto da conferência de abertura do
Encontro Nacional da SPM, Universidade de Coimbra, Fevereiro de 2002.
[1] Não se trata de uma atribuição de culpas
a este ou àquele grau de ensino, nem aos seus professores. O Sistema está, na
sua totalidade, em ruptura; a responsabilidade cabe-nos a todos, como
professores, alunos e pais, sem esquecer os responsáveis políticos e os seus
erros de condução estratégica, que urge detectar e reconhecer.
[2] Cf. o artigo [13].
[3] “Shooting the Messenger” é o título da
primeira secção do capítulo “Test Evasion” do livro [6].
[4] Por cá, o “tiro aos testes” começou a
praticar-se muito antes do TIMSS. A reacção do governo, ao determinar a
retirada de Portugal desse sistema de avaliação comparada, apenas mostra o
paradigma.
[5] Trata-se de matéria da maior importância
que procurarei tratar noutro local. Recomendo a leitura de [5] e [6].
[6] Relevem-me esta ironia. Dizendo as coisas
mais seriamente, a ‘trepadeira linguística’, a consagração de uma retórica
vazia e a condenação de expressões que não seguem a nova ortodoxia tornaram-se
uma preocupação dominante no interior profundo do Ministério da Educação, que
tomaram, há muito, o lugar da inovação real e substantiva no Sistema Educativo.
Seria muito interessante fazer-se um estudo sobre a arte retórica no Sistema,
relacionando-a com os fortes sintomas da sua decadência… os textos oficiais já
pedem meças ao ponto de exame da disciplina “Educação e Valores” citado em [7].
[7] Obviamente que não coloco em causa o
princípio da compreensão e integração do que se memoriza. A questão é que sem
memória não há conhecimento e, muito menos, ‘competência’; considero desprovida
de qualquer fundamento a afirmação da fraca importância do conhecimento factual
e da prioridade às ditas competências de alto nível, ou processos, como se
defende em muitos programas dos ensinos Básico e Secundário.
[8] Veja-se a discussão nas páginas 25-26 do
relatório [14].
[9] O meu protesto não é contra as
palavras mas contra o que elas de facto
representaram durante muitos anos e ainda representam: a ideia de um professor
contemplativo aliada à já referida desvalorização dos processos de avaliação. Seria
muito interessante que se fizesse a história deste processo.
[10] No relatório [3] discutimos com mais
desenvolvimento e múltiplas referências as questões da estratégia europeia para
a área da educação superior.
[11] ‘undergraduate’ and ‘graduate’.
[12] Vejam-se os relatórios [16,17].
[13] Esta questão foi considerada, com mais
pormenores, em [14,15,16], onde se discute a questão da liberdade dos
professores e da inerente responsabilidade.