Os Dada estão lançados

Onésimo Teotónio de Almeida  (Ler, 55, Verão 2002, pp.84-85)


É uma das histórias da Natália Correia que às vezes conto entre amigos. Não daquelas em que a sua  verve brilha, mas ainda assim natalíssima. A poeta viera a um festival de cultura luso-brasileira na Brown University. O ano terá sido 77 ou 78 (não juro por nenhum). A visita fora atribulada e cheia de equívocos, com a Natália a provocar histórias em catadupa. Tinha-me chegado horrorizada pelo estado em que descambara a pátria por mão da esquerda. No serão de despedida em minha casa, sabendo-me embrenhado em filosofices por via de uma tese-a-arrastar-se, perguntou-me à queima-roupa: Qual é a corrente filosófica dominante agora na América?

Hesitei. A filosofia anglo-saxónica passava então por transformações importantes. Wittgenstein infiltrara-se havia muito nos departamentos de Filosofia; Quine era o mais respeitado nome na filosofia americana; Rawls dominava na Ética; Thomas Kuhn na Filosofia das Ciências, e seria difícil resumir tudo entre copos, política e larachas. Socorri-me da então célebre tese, tornada refrão, de Paul Feyerabend no seu Against Method: anything goes. Em subtítulo, o livro publicado anos antes anunciava uma teoria anarquista do conhecimento. Herdara-se uma filosofia onde haviam desmoronado as grandes construções metafísicas, mas adivinhava-se o terramoto Rorty com o seu Philosophy and the Mirror of Nature contra o grande projecto da filosofia analítica. Advogava-se com frequência o pluralismo de perspectivas. Lembro-me ainda de ter procurado contextualizar um pouco a minha resposta, relativizando-a. Não havia, porém, ambiente para isso, nem a Natália era de se demorar muito num tema só.

A poeta regressou a Portugal. Alguns dias depois o correio trazia-me um recorte de jornal. Natália lançara em entrevista um grito de Ipiranga. Na América a corrente dominante é anything goes. Vale tudo! E aproveitou para uma diatribe contra a ditadura intelectual da esquerda. Que estava ultrapassada e teria de abrir caminho para outras correntes de pensamento.

Agora um salto no tempo, mas não desligado desta história, como adiante se verá:

No correio de ontem, chegou-me o badalado livro de António Manuel Baptista, O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência. Obscurantismo e Irresponsabilidade, chancela da Gradiva. É um ataque cerrado do Professor de Física e Medicina Nuclear ao bestseller universitário Um Discurso Sobre as Ciências Sociais, de Boaventura Sousa Santos. Ainda vou no início da leitura, mas na contracapa chamou-me a atenção um parágrafo extraído daquele livro do muito conhecido sociólogo de Coimbra. Cito: a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica (sic!) para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. O sic é comentário de ABM, evidentemente. Na minha edição de Um Discurso, (a primeira, de 1987), a afirmação vem na página 52. Na margem, eu anotara: "Paul Feyerabend em tradução portuguesa". Já na página 48 eu anotara "Paul Feyerabend", onde BSS escrevera: Um conhecimento deste tipo é relativamente imetódico. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica. B. S. Santos não se incomodaria com a minha marginalia. Na página seguinte ele próprio menciona afinal Paul Feyerabend, mas em segunda mão, referido entre os autores estudados por Clifford Geertz. Estranho. O sempre tão informado BSS não teria acesso directo a uma obra tão badalada nos círculos intelectuais e académicos, sobretudo os ideologicamente mais próximos de BSS, e publicada 12 anos antes? Ao menos deveria conhecê-la indirectamente, pois nota-se o seu respirar ao longo de muitas páginas de Um Discurso. Embora a mim me pareça que Feyerabend, não obstante o seu dadaístico prazer em chocar o leitor, não subscreveria à letra a frase de BSS citada na contracapa do livro da Gradiva. (Na sua crítica ao sociólogo Sousa Santos, o físico AM Baptista não refere nunca Feyerabend. Pelo menos não aparece no Índice Analítico).


Não é minha intenção entrar no debate. Li algumas críticas na imprensa, via Internet, e apenas em diagonal percorri o livro de AMB para lhe tomar o pulso. Deu, todavia, para registar o facto de andar a repetir-se em Portugal um debate ocorrido há 25 anos nos Estados Unidos. Quem ler Killing Time, a autobiografia do "filósofo-anarquista" Feyerabend, ficará a saber da sua reacção ao impacto de Against Method e às surras que por via dele levou. Verificará porém igualmente que o autor, embora reclamando-se vindicado pela história, não radicalizava as suas posições tanto como alguns dos seus seguidores (incluindo BSS) fizeram. Feyerabend confessa que adorava épater e que alterou algumas passagens mais moderadas do original substituindo-as por outras mais "outrageous". O seu propósito era acentuar que, afinal e no fundo, qualquer posição metafísica é irrefutável. Reconhecia no entanto que o mundo, incluindo o da ciência, é uma entidade complexa e difusa que não pode ser captada por teorias e regras simples. Recomendava ainda aos estudantes que não fizessem dos seus trabalhos o centro da existência, pois era sobretudo preciso descontraírem (keep cool) e manterem a capacidade de rir. Conta do prazer que lhe deu escrever breves recensões de livros e crónicas, e de como gostava de fazer pequenas observações coligadas por bocados de raciocínio: imagens e comentários picantes rodeados de pensamento, ou pensamentos apimentados de imagens: uma crónica é essencialmente uma minestrone, declara ele.


Ora vejam lá: até eu fiquei quase adepto desse Feyerabend. Se dissesse ao Guilherme Valente, o editor da Gradiva que me enviou à borla o livro de ABM, era capaz de o desapontar a sério.