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"Os Bons Artigos de Divulgação Científica São Peças Literárias"
Por POR TERESA FIRMINO (TEXTO) E CARLOS LOPES (FOTO)
Quinta-feira, 03 de Abril de 2003

Aos 69 anos, o químico francês Paul Caro continua a dedicar-se à divulgação científica e a pensar nas melhores maneiras de transmitir a ciência ao grande público. Começou a fazê-lo por acaso, depois de ter encontrado na rua um amigo jornalista, que lhe perguntou se não gostava de escrever no jornal "Le Monde". Foi assim que se fez jornalista de ciências. Mais tarde, foi convidado para director de assuntos científicos da Cidade das Ciências e da Indústria de La Villette, em Paris, um dos grandes museus de ciência, de onde se reformou em 2000. Em Portugal, faz parte do conselho científico da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica - Ciência Viva, um programa de divulgação da ciência junto de todos, em particular das escolas. Autor de vários livros, Paul Caro tem um traduzido em português: "A Roda das Ciências - Do Cientista à Sociedade, os Itinerários do Conhecimento". Hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, fala sobre as últimas avaliações à cultura científicas dos europeus, sem esquecer os portugueses.

PÚBLICO - É difícil, ou não, comunicar a ciência?

PAUL CARO - É difícil, porque a linguagem da ciência é bastante diferente da comum. A linguagem da ciência é construída por palavras difíceis, símbolos, fórmulas, imagens e números, muito diferentes das coisas normais. Mesmo para os cientistas, é difícil compreender as palavras de outros colegas longe da sua especialidade. O que significa que a ciência, na sua própria linguagem, só pode ser comunicada a um pequeno grupo de pessoas que conseguem compreendê-la.

Para falar de ciência num jornal não se pode usar a linguagem da ciência. O que se faz não é a simplificação da linguagem - o que não é muito possível -, mas construir uma história, que tem de ser suficientemente atractiva. Mas depende muito do tema. É muito difícil de traduzir numa história um tema que envolva muita matemática e símbolos, como a química.

P. - Ou a física quântica?

R. - A física quântica é um bom exemplo. Para compreendê-la, é preciso formação em matemática. Mas a maioria da divulgação científica não é sobre áreas difíceis, mas sobre coisas que apelam à imaginação e transmitem imagens e histórias. Uma das áreas mais fáceis de divulgar é a astrofísica, porque tem belas imagens do céu e a origem da Universo é muito interessante. A história da criação é uma história clássica de qualquer religião ou conto de fadas. Por exemplo, a criação das estrelas, num processo que envolve química nuclear, é uma história atraente e as pessoas aprendem-na. Se fosse uma palestra sobre a química nuclear, não ouviriam.

P. - Portanto, uma boa maneira de divulgar a ciência é contar uma história?

R. - Quase todos os bons artigos de divulgação científica nos jornais e nas revistas são peças literárias. É certo que é uma literatura popular, mas de facto é um trabalho literário que os jornais e revistas fazem a partir de artigos científicos. Pegam nesses artigos e constroem uma história para a tornar dramática, atraente e fascinante, usando todos os truques do trabalho literário - pessoas, lugares, tempos, circunstâncias e grandes imagens dos contos de fadas clássicos, como a metamorfose e as catástrofes.

Os monstros e os dinossauros são um bom exemplo de como se usa a espectacularidade para familiarizar as pessoas com o trabalho do paleontólogo, que é alguém que descobre o passado. Às vezes, esse passado é extraordinário, como no caso dos dinossauros. As pessoas ouvem isso. Se o jornal é bom, explica o trabalho do paleontólogo e dá uma lição de ciência. E depois disto, temos uma espécie de ressurreição do monstro.

P. - Por vezes, não é fácil para os cientistas divulgarem o que fazem. Como poderão aprender a comunicar melhor?

R. - Alguns cientistas trabalham em áreas espectaculares, como a astrofísica ou os dinossauros, que é fácil de divulgar. Mas a maioria não trabalha nesses campos. É muito difícil. Mas há a comunicação com os jornalistas, que depois dizem o que os cientistas estão a fazer. Os cientistas também podem comunicar directamente com as pessoas. Em França, há os Cafés des Sciences, onde as pessoas interessadas em assuntos como os transgénicos se encontram à noite. Estão lá os especialistas, as pessoas vão lá e há uma discussão livre. Claro que os cientistas também têm a possibilidade de escrever artigos e livros, e há muitos livros de cientistas que são "best-sellers".

P. - Como vê o relacionamento entre cientistas e jornalistas? Às vezes há conflitos e os cientistas dizem que os jornalistas distorcem tudo.

R. - Os jornalistas não sabem mais do que muitas pessoas sobre um assunto e podem cometer erros. Mas é preciso compreender algo básico: o que o cientista mais gosta é da sua linguagem. A maneira como fala e apresenta as coisas é muito importante, porque é com base na sua linguagem que outros cientistas vão fazer um juízo sobre ele. Ele não gosta de ter a sua linguagem distorcida, deformada ou até simplificada, porque os seus colegas vão ler o jornal e dizer: 'Oh, ele diz isto!" O que as pessoas trocam na ciência é linguagem e é com base na qualidade da linguagem que os cientistas reconhecem o trabalho dos colegas. Por isso, a linguagem tem um valor extremo. Esta é uma das dificuldades dos cientistas em falar com os jornalistas. Por isso, um cientista consegue falar mais facilmente com o público do que com um jornalista.

P. - Os cientistas ficam furiosos com erros nos jornais. Como podem resolver-se esses problemas?

R. - Houve uma grande melhoria do jornalismo de ciência. Há 40 anos, era terrível. Os jornais escreviam qualquer coisa, sem ter em atenção aos significados possíveis de uma palavra. Hoje, penso que não há muitos casos de cientistas enfurecidos. Os artigos sobre ciência costumam estar em jornais muito bons.

Mas por vezes a capa do jornal e os títulos são escolhidos pelo chefe de redacção, e não pelo jornalista, o que destrói o conteúdo do artigo. Lembro-me de um fenómeno quântico na energia das partículas, com propriedades estranhas, que um jornalista descreveu muito bem - e o assunto era difícil -, mas o título era "Viagens no tempo já são possíveis". Claro que o cientista ficou furioso, mas o jornalista não pôde fazer nada. Os títulos são sempre problemáticos.

Se muitas vezes é o jornalista é que procura o cientista, também há o caso em que é o cientista a procurar o jornalista. Isso é de longe muito mais perigoso. Os cientistas podem usar os jornalistas como uma estratégia para impulsionar a área em que trabalham. Se puderem ter um artigo no jornal, podem ir ter com os políticos e dizer: 'A imprensa está interessada, por isso têm de me dar mais dinheiro para a minha investigação.' Não é só divulgação, é uma estratégia de "marketing".

P. - Quais são as ciências mais divulgadas? A medicina e a saúde?

R. - Tudo o que diz respeito ao corpo - comida, medicina, cosmética - é o primeiro tópico de interesse. O segundo é o ambiente e o terceiro as novas tecnologias. No fim da lista está a física e a química. As pessoas não se interessam pelas disciplinas académicas.

P. - E onde inclui a astronomia?

R. - Está em sexto ou sétimo lugar. Como fornece belas imagens, é popular em revistas sobre ciência. Outro tópico divulgado é o que diz respeito à Terra como um lugar terrível, como os vulcões, os sismos.

P. -O que concluíram as últimas avaliações sobre a cultura científica na Europa e em Portugal?

R. - O Eurobarómetro indica o nível de conhecimentos e de interesse pela ciência dos cidadãos. Em geral, o nível de conhecimentos é maior nos países do Norte. Mas o interesse é maior no Sul - não tanto em Portugal, onde não é muito, mas por exemplo na Grécia. A Alemanha tem um nível mau de interesse, porque a imagem da ciência é má, mas o conhecimento é muito bom.

Mas as perguntas do Eurobarómetro são um pouco estranhas. Não mudam há dez anos, porque querem manter as mesmas perguntas, mas assim não se faz uma avaliação real.

Mas há muitos inquéritos nacionais à cultura científica. Sabe-se que apenas 20 por cento das pessoas têm algum interesse pela ciência.

P. - E qual é a opinião que o público tem dos cientistas?

R. - É bastante boa. Há uma série de dados sobre em quem se confia. Os cientistas aparecem logo depois dos médicos. No último lugar, vêm os políticos e, logo acima, os jornalistas.

P. - Quer comentar as dificuldades do programa de divulgação Ciência Viva, cujo orçamento deste ano foi reduzido para metade?

R. - O Ciência Viva é único. É a experiência em maior escala na Europa - porque envolve muitas escolas - de tentar ensinar a ciência de novas maneiras. Envolve o acesso a experiências e, em vez de cumprir um currículo, as crianças são encarregadas de um estudo específico, por exemplo sobre água. É uma boa forma de aumentar o interesse pela ciência. Este programa é muito importante e, afinal de contas, não é assim tão caro. Quando a divulgação da ciência em grande escala depende dos governos, é muito instável. Não há continuidade das políticas.