A CONFEDERAÇÃO das associações de
pais (CONFAP) defende o fim dos exames no ensino secundário e
o regresso das provas de ingresso, feitas pelas próprias
universidades. É a reacção ao anúncio do secretário de Estado
Valter Lemos, no «Público» de terça-feira, da intenção do
Governo de reduzir os exames no ensino secundário às três
disciplinas consideradas nucleares para o ingresso num curso
universitário.
«Penso que os exames nacionais a três
disciplinas específicas são um mal menor, que tem de se manter
enquanto o ensino superior não cria provas de admissão», frisa
Albino Almeida, presidente da CONFAP. Este dirigente defende
um ensino secundário «terminal e certificante», em que
os alunos fazem provas finais internas, assentes em «rigor científico e pedagógico». Com tanta
diversidade de cursos e de alunos, sublinha, o último ciclo de
ensino pré-universitário «não pode servir para
fazer uma graduação dos alunos».
O secretário de Estado da Educação disse também que o
Executivo pretende acabar com os exames nacionais a Português
e a Filosofia em alguns cursos do secundário, que seriam
substituídos por provas internas nas escolas. Os alunos que
estão a frequentar o 11º poderão já este ano ficar livres do
exame de Filosofia, acrescentou o governante. Os alunos que
frequentam os cursos tecnológicos e profissionais deixarão
também de fazer exames nacionais, a menos que queiram
prosseguir estudos universitários.
No entanto, Valter Lemos sublinhou que está à espera do
parecer pedido ao Conselho Nacional de Educação (CNE), que se
pronuncia na próxima semana, e que só depois serão conhecidas
as mudanças definitivas na avaliação dos estudantes.
Em 2003, quando David Justino, então ministro da Educação,
pediu ao CNE que se pronunciasse em relação à reforma do
secundário (os primeiros alunos estão a frequentar agora o
11º), a resposta relativamente à avaliação foi clara: «Não nos parece, contudo, que seja isento de críticas
o abandono do princípio do exame nacional a todas as
disciplinas, uma vez que abre as portas a fenómenos de eleição
de certas disciplinas e de desvalorização de outras,
enviesando a importância de um currículo e de uma formação
inicial multidimensional dos jovens».
Para David Justino, que é claramente contra o fim das
provas nacionais, o anúncio do Governo revela uma coisa: «Só mantêm alguns exames por causa do acesso ao
ensino superior». O antigo ministro, que introduziu os
exames a Português e a Matemática no 9º, vê na medida do
Ministério da Educação «o fim da avaliação do
ensino secundário».
«Até agora os exames do 12º avaliavam apenas a
matéria que era dada neste ano. Com o sistema de avaliação
previsto na reforma do secundário, os exames abrangem toda a
matéria que é dada numa disciplina, seja ela bienal ou
trienal. O objectivo era avaliar o ensino e não fazer uma
seriação dos alunos». Para o ex-governante, a diminuição
do número de exames vai ainda fazer disparar as notas internas
dadas pelas escolas.
«O Ministério está a trabalhar para as
estatísticas», acusa David Justino, e acrescenta: por trás
desta medida estão lóbis de algumas universidades e de alguns
serviços do Ministério, «que manifestamente não gostam de
exames».
Para Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de
Matemática, «reduzir os exames caminha em sentido
contrário ao da exigência do ensino. É necessário que mais
estudantes ingressem no ensino superior, mas isso não se deve
fazer facilitando os critérios académicos de acessos e sim
reforçando a formação no ensino básico e no secundário».
Quanto ao facto de o Português deixar de ter um exame, Nuno
Crato, que é professor universitário, diz tratar-se de um
retrocesso, por ser uma disciplina crucial para todas as
outras. «Mesmo em Matemática, há dificuldades
derivadas de deficiências na leitura e de limitações no
vocabulário».
Agora há que aguardar por quinta-feira, para saber o que
pensa o plenário do CNE. Nesta reunião, será também debatida a
introdução de mais uma língua estrangeira no currículo do
secundário.