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Especialistas Dizem Que Tutela Devia Proibir "Rankings"
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2004

A análise é demolidora: os "rankings" das escolas "comparam o incomparável", mostram "uma visão simplificada da realidade", levam os estabelecimentos de ensino a seleccionarem os alunos, beneficiam apenas as classes média e média-alta, reforçam as desigualdades sociais e têm "implicações fortes ao nível da segregação". Por estes motivos, o Ministério da Educação (ME) devia "recuar" e "proibir" a sua divulgação.

Ontem, durante a apresentação do livro "Um olhar sobre os 'rankings'", Alberto Amaral, presidente do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior (CIPES), não poupou nas críticas à hierarquização das escolas. Os autores do livro - Rui Santiago, Maria Fernanda Correia, Orlanda Tavares e Carlos Pimenta, investigadores do CIPES - também não. "Há países onde os 'rankings' foram proibidos pelos efeitos negativos que provocaram nas escolas", comentou Amaral, acrescentando que Portugal devia seguir este caminho.

"O ME tem, ou pelo menos devia ter, canais para aferir o estado das escolas sem ter de recorrer a 'rankings'", sublinhou Fernanda Correia. Baseando-se na divulgação dos "rankings" de 2001, 2002 e 2003, os investigadores concluíram que a ordenação de escolas tem vários efeitos perversos.

Desde logo, a sua publicitação pode encorajar as escolas a comportarem-se de "um modo indesejável", apostando na selecção dos estudantes para manterem as suas posições na lista ordenada. No limite, observou Orlanda Tavares, o "ranking" pode levar a "uma instrumentalização dos alunos". "Deixa de haver a percepção do que a escola pode fazer pelos alunos para se verem as coisas na perspectiva do que podem os alunos fazer pela escola", alertou.

Os autores constataram ainda que "o trabalho educativo das escolas e dos professores torna-se amplamente ignorado". O significado dos "rankings" é "reduzido a um conjunto de indicadores numéricos, baseados nos desempenhos de alunos abstractos e destacados dos seus contextos de vida". Mais: a partir do momento em que sabem que serão elaborados "rankings", os professores alteram a forma de avaliar os alunos e as escolas adaptam os seus currículos às necessidades dos seus "clientes".

"Um olhar sobre os 'rankings'", explicou Alberto Amaral, pretende ser um instrumento para lançar "um debate sério" sobre as vantagens e desvantagens da ordenação das escolas.

Sandra Silva Costa