A lógica do et caetera

 

 

André Barata

Docente de epistemologia

Bolseiro de investigação

 

 

Publicou a Visaoonline na sua edição de 21/Fev./2002, o enunciado do teste de avaliação de uma disciplina leccionada numa Escola Superior de Educação, instituição pública que confere privilegiadamente habilitação aos professores do ensino básico. Não fora o escândalo da verdade não permitir motejos com o futuro das próximas gerações de crianças, apeteceria ler qualquer das perguntas do enunciado como espirituosas expressões de humor. Por exemplo, a seguinte:

«Numa época de canhestros, sistemáticos e fragmentários dogmatismos, labilismos, labialismos, «turismos» culturais, pragmatismos, cepticismos, determinismos, fatalismos, autismos, narcisismos, parolismos... – mais ou menos camuflados por dinâmicas endógenas e exógenas – um relance, embora perfunctório, sobre a ossatura programática da Disciplina, permite afigurar-se razoável, liminarmente, a susceptibilidade de desfibrá-la, entre outras, nas seguintes dicotomias axiológicas mediáticas multifacetáveis, confinantes, congruentes, sinalagmáticas..., a entrecruzaram-se, transumirem-se, transubstanciarem-se, transversalizarem-se, etc. v. g; Cultura-Civilização; Valores-Referências.

Sem irrelevar o subjacente, atípico e ágrafo património – genético, material e espiritual – a montante e a jusante do aluno, teça um comentário sinóptico (corroborante ou repudiante), ancorado em dimensão axiológica e argumentos, empíricos ou especulativos, minimamente válidos.»

 

O princípio da sugestão

 

Não há, obviamente, nenhuma epistemologia ou pedagogia dignas desses nomes que sustentem o texto transcrito. Mas além de uma imediata estranheza epistemológica e pedagógica, importa chamar a atenção para o que neste precioso objecto, mais do que exemplo, é figura exemplar – uma irrefreável tendência a evocar, através de um jogo de citação, tudo o que vem à mão. E isto pelo facto de esta tendência estar longe de ser uma idiossincrasia do autor do enunciado. Se bem que com diversos matizes, por vezes mais por tentação do que por convicção, é igualmente tendência de algum ensaio contemporâneo que se vai produzindo, e também em Portugal.

Aliás, não é por infeliz acaso que uma tal tendência revelou ser justamente o traço mais distintivo do célebre artigo que Alan Sokal submeteu à revista académica Social Text (“Transgredir as fronteiras: para uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica” ou, vulgo “Embuste” de Sokal). Provavelmente, foi a estratégia que mais garantias oferecia de fazer passar o embuste; provavelmente, por ter correspondido a um expectativa dominante, a um padrão que faz a regra. Que padrão? Justamente, uma profusão de conceitos e de saberes evocados, sob o regime da citação livre de quaisquer constrangimentos objectivos. No embuste de Sokal, como no prodigioso excerto de um teste, a única coisa que pode assemelhar-se minimamente a uma mediação é um mero princípio de sugestão. Por exemplo, associando labilismos e labialismos, ou quaisquer outros “ismos” ou partindo do Princípio de Incerteza de Heisenberg para chegar, por sugestão, à ideia de uma hermenêutica, e desta ao adjectivo “transformativo”, e deste a um aterrador “etc.” (ele lá está a culminar a delirante sequência do enunciado transcrito) como que a enfatizar que a objectividade não sairá daqui apenas menosprezada, mas desprezada. Funda-se, assim, a lógica do et caetera .

 

 

O tudo poder ser dito de tudo

 

Avançando um pouco mais nesta epistemologia às avessas, há que notar que este jogo da citação não se resume a uma mera lógica da sugestão e evocação. Funciona também como prova – num regresso transfigurado do argumento de autoridade – do que quer que se diga, desde que haja alguma coincidência entre isso que se diz e aquilo que se cita. Mais ou menos insidiosamente, funciona ainda como porta de entrada em todo o saber, mesmo daqueles de que se desconhece tudo menos a citação. Assim, por um lado, tudo passa a poder ser dito, desde que alguma vez dito; e por outro, nada está fora da competência do bom coleccionador de citações, pois todo o conhecimento é citável.

Apesar de nesta lógica não sobreviverem as bases mínimas de uma objectividade, no seu fundo racional (ao fim e ao cabo os cientistas ainda são racionais como o resto da espécie humana), há consciência de que é este tudo poder ser dito de tudo que está em causa. Para o suster e não cair num indiferentismo tipo “é tudo ao igual ao litro”, avança-se por duas vias ainda mais extraordinárias:

-                     Assume-se, qual fuga em frente, o  tudo poder ser dito de tudo como tese por excelência. Daí chega-se ao admirável mundo das consequências transgressoras, transfiguradoras, transdisciplinarmente transidas de uma metaforicidade dos limites, da ilinearidade, do caos, da vida e da morte, onde a hermenêutica e a relatividade generalizada, o sujeito metafísico e a mecânica quântica se irmanam como alhos e bugalhos.

-                     Salvaguarda-se a diferença, pelo seu lado brilhante, surpreendente, mesmo encantatório. O resultado até pode ser esteticamente relevante, e valer como uma forma de dar sentido à vida; simplesmente, não pode ser essencialmente isso.

 

 

A cultura científica

 

Mas se a ciência é apenas uma ficção (sublinhe-se o apenas), se a cultura científica é um mito, de facto seria de se perguntar “e por que não?” A resposta só pode ser uma: não, porque há uma exigência incontornável de objectividade que diferencia a cultura científica da cultura em geral, que a diferencia da ficção (mesmo que sob um fundo ficcional). Uma tal exigência encontra-se tanto no ensaio histórico como no filosófico, na investigação em ciências da educação como na das ciências sociais em geral. Em todos estes domínios, tal qual na Física, na Genética ou na Medicina há constrangimentos de objectividade. Por isso, se há aqui uma salvaguarda a fazer não é a das ciências naturais, por oposição às ciências sociais e às humanidades, mas a da cultura científica, em todas as suas expressões, face a este irrefragável, totalitário e autoritário tudo poder ser dito de tudo.

Infelizmente, há representantes de ciência que não entendem a natureza do problema. E em detrimento do bom senso, enveredam por uma perigosa denúncia da desonestidade e da má-fé, erguendo uma herética em torno de perguntas que envolvam conceitos que entenderam ser exclusivamente seus. Ora, a natureza pública do saber científico como a de toda a cultura é incompatível com uma tal “exclusividade” de competências. É por essa razão que a equação E=mc2 (tanto quanto a Mona Lisa!) é cultura e, enquanto tal, pode ser pensada fora do âmbito de uma competência científica particular, reapropriada por outras competências, sejam científicas ou não. De resto, compreende-se a indignação de um físico quando se pergunta se a equação de Einstein é sexualmente marcada. Mas permita-se uma comparação provocadora: ostentar uma competência original e daí, vá-se lá saber porquê, exclusiva é como a hierarquia da Igreja vir tomar posição sobre uma interpretação da vida de Cristo como em O Evangelho segundo Jesus Cristo, ou em A última tentação de Cristo.

 

 

Aviso à navegação

 

Objectividade é, pois, o nome do problema que se coloca em cima da mesa quando um certo padrão de produção intelectual prefere o brilho ao esforço, a sugestão ao argumento, a autoridade à racionalidade. E como resultado obtém-se o que de uma forma perfeitamente caricatural (embora, por muito que custe reconhecê-lo, não o seja!) sucede numa Esc. Superior de Educação. Valerá a pena suspeitar que estamos a ver apenas a ponta de um “iceberg”?

Daí a necessidade de um aviso à navegação, tanto mais urgente quanto não é admissível rebatê-lo, como alguns crêem poder fazer, na forma de um pronunciamento aberrante contra a esquerda, o império rousseauniano nas ciências da educação, a sociologia do conhecimento, a crítica literária cientificamente falida, os estudos culturais, etc., etc. Ou, para evocar a atitude que cala fundo, a bem ou a mal, no coração de muitos, o  pós-moderno. Pôr o problema em tais termos é sinal de uma voracidade muito própria da ignorância e sintoma de um estado latente de integrismo que ameaça de morte a própria experiência do saber. Mas por tudo isso ou contra tudo isso há mesmo algo que tem de ser pronunciado a este respeito: o “anything goes” condenará a cultura científica que se dispensar de o enjeitar.