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O Fabuloso Passeio de Vénus pelo Disco do Sol
Sábado, 05 de Junho de 2004

Teresa Firmino

A história maravilhosa da procura da passagem de um planeta diante do Sol começa com o astrónomo alemão Johannes Kepler. Foi Kepler quem se apercebeu, pela primeira vez, por que razão os alinhamentos dos planetas com o Sol são muito raros. Percebeu como é o movimento dos planetas - descrevem órbitas elípticas ou aceleram perto do Sol e desaceleram quando estão mais longe, por exemplo -, e isso permitiu-lhe calcular com grande rigor a posição dos astros, nas suas Tabelas Rudolfinas, saídas em 1627. Foi a fazer esses cálculos que duas previsões surpreenderam Kepler: Mercúrio ia passar em frente ao Sol a 7 de Novembro de 1631 e Vénus a 6 de Dezembro desse ano.

Estava assim lançada a fabulosa história dos trânsitos, como se chama à passagem de um astro em frente a outro sem o ocultar, ao contrário dos eclipses, em que um dos astros esconde bastante o outro, e que é contada no livro "Trânsito de Vénus - À Procura da Escala Exacta do Sistema Solar", da autoria de Nuno Crato (do Instituto Superior de Economia e Gestão e divulgador científico), Fernando Reis (historiador de ciência) e Luís Tirapicos (divulgador científico). O prefácio é de Steven J. Dick, historiador-chefe da NASA.

Até Kepler, especulava-se por que ninguém tinha visto Mercúrio ou Vénus interpor-se entre a Terra e o Sol. Houve quem aventasse, no século XII, a hipótese de Mercúrio ser um planeta transparente. "Kepler estava consciente da importância das suas previsões. Não acreditava que Mercúrio e Vénus fossem transparentes, como o tinha séculos antes sugerido o astrónomo árabe Alpetragius, mas percebia a raridade do fenómeno, que o tornava difícil de observar sem preparativos especiais. Pensou que os trânsitos que previa ofereciam uma oportunidade excelente para medir o diâmetro dos dois planetas. Em frente do Sol já não seriam dois pontos brilhantes difíceis de observar em pormenor, mas sim dois discos negros, perfeitamente recortados (...)", contam os autores.

Kepler lançou então um apelo, onde anunciava os dois trânsitos planetários, mas não viu como as suas previsões estavam certas. Morreu em 1630. Ninguém terá observado a passagem de Vénus, porque não era visível da Europa, mas o sábio francês Pierre Gassendi respondeu ao apelo de Kepler e preparou-se para ver o trânsito de Mercúrio na sua casa em Paris. Foi a primeira pessoa a ver um trânsito planetário, e pôde testemunhar, quando as nuvens o deixavam, que Mercúrio não era transparente. Era um ponto preto a passar, vagarosamente, pelo disco solar. "Kepler errara apenas em cinco horas, o que constitui um sucesso espantoso para a época. Ninguém acreditava que tal precisão fosse possível. Gassendi, precavendo-se de possíveis erros, dera uma tolerância de dois dias à previsão. O próprio Kepler assim o recomendara."

E Vénus? Só vemos trânsitos de Mercúrio e Vénus, porque só estes planetas estão entre a Terra e o Sol. Os autores dão explicações pormenorizadas do fenómeno (há que lê-las); em termos simples, não basta a interposição do planeta entre a Terra e o Sol, tem de haver um alinhamento perfeito, se não vê-se o planeta a passar ligeiramente acima ou abaixo do disco solar.

Se os trânsitos de Mercúrio são raros, os de Vénus são raríssimos, embora apareçam geralmente aos pares, separados por oito anos. No século XX, Mercúrio atravessou-se entre a Terra e o Sol 14 vezes, Vénus não o fez nenhuma vez. Até agora, a humanidade só viu cinco trânsitos de Vénus: em 1639, 1761, 1769, 1874 e 1882. Por isso, o próximo, na terça-feira, 8 de Junho, visível por completo em Portugal Continental, desde que Vénus entra no disco solar até sair, é uma oportunidade única. O livro vem acompanhado por uns óculos para ver em segurança este trânsito.

Recuemos, porém, a 1639, o ano em que alguém viu pela primeira vez a sombra de Vénus a atravessar o Sol. Essa história foi protagonizada pelo padre Jeremiah Horrocks, considerado o pai da astronomia observacional britânica, que morreu aos 22 anos, e pelo seu amigo William Crabtree, comerciante de panos.

Horrocks tinha 17 anos quando começou a fazer umas contas. Pegou nas Tabelas Rudolfinas e em tabelas sobre a posição dos astros que apareceram mais tarde, em 1632, e comparou as previsões da órbita de Vénus em ambas. Fez uma feliz descoberta: viu que as tabelas de 1632 mostravam um alinhamento entre a Terra, Vénus e o Sol para 4 de Dezembro de 1639, enquanto as Tabelas Rudolfinas, por sinal mais rigorosas, só previam uma aproximação visual dos dois astros. Verificou os cálculos, e concluiu que iria haver um trânsito de Vénus naquela data.

"Por precaução, Horrocks começou as observações no dia anterior ao previsto, para o caso de se ter enganado nos cálculos." Montou num edifício perto da igreja onde trabalhava, em Hoole, povoação a Norte de Liverpool, um telescópio que projectava a imagem do Sol num papel. Nada se passou a 3 de Dezembro, mas no dia 4 presenciou, depois das três da tarde, um verdadeiro "banquete celestial", como o descreve no tratado "Vénus Visto sobre o Sol". "Deparou-se-me o mais agradável dos espectáculos, o objecto dos meus agradáveis desejos (...)." O amigo Crabtree fez algumas observações em Manchester. Horrocks é hoje conhecido por ter sido o primeiro a prever e observar um trânsito de Vénus.

O astrónomo inglês Edmond Halley, famoso por ter um cometa com o seu nome, também não ficou alheado. Aos 20 anos, partiu numa viagem pelos mares do Sul, para fazer o primeiro atlas celeste do hemisfério austral. Estava na ilha de Santa Helena, na véspera de completar 21 anos, quando viu um trânsito de Mercúrio, a 7 de Novembro de 1667. "Foi a primeira vez que alguém observou um trânsito do princípio ao fim, e a possibilidade de cronometrar e traçar o trajecto do planeta na face do Sol impressionou o jovem cientista."

Teve então a ideia de usar este fenómeno raro para resolver um grande problema em aberto na astronomia - a medida da paralaxe solar, que permitia achar a distância da Terra ao Sol. É tão importante essa distância que se chama "unidade astronómica", e hoje sabe-se ser de quase 150 milhões de quilómetros.

A paralaxe é a mudança aparente de posição de um objecto quando visto de dois pontos diferentes. Uma demonstração: estique o braço e aponte o dedo indicador para cima, depois feche à vez um dos olhos e o dedo parecerá estar em posições diferentes. Essa mudança do dedo é tanto maior quanto mais perto o dedo estiver, explica-se.

Os astrónomos já conheciam as distâncias relativas dos planetas no sistema solar, mas não as distâncias absolutas. Faltava a bitola e, se soubessem a distância da Terra ao Sol, tinham-na. Como Mercúrio está perto demais do Sol, Halley sugeriu o uso de um trânsito de Vénus. Sabia que não viveria até lá, por isso, em 1716, fez um apelo aos "jovens astrónomos que poderão viver para observar estas coisas", sugerindo a observação em lugares afastados.

O astrónomo francês Joseph-Nicolas Deslisle respondeu ao apelo, e organizou a primeira observação de um trânsito de Vénus à escala global, através de uma rede de correspondentes. Entre os cerca de 120 observadores espalhados pelo mundo encontrava-se um padre português, Teodoro de Almeida, que estava escondido no Porto, pois tinha sido desterrado de Lisboa pelo Marquês de Pombal. Mas a observação do trânsito de Vénus de 1761 teve outros contributos portugueses, como revela a parte de investigação original do livro: o italiano Miguel Ciera viu-o no Colégio dos Nobres, em Lisboa, e o português Soares de Barros fê-lo no Mosteiro de Santa Genoveva, em Paris.

Também houve quem fizesse expedições para terras longínquas, cheias de aventuras e de desventuras, para ver esse trânsito, tal como o seguinte, o de 1769, visível por completo só no Pacífico, parte da América do Norte, na Sibéria e Lapónia. E como os resultados de 1761 ficaram aquém das expectativas, por vários motivos - pela Guerra dos Sete Anos, que, de 1756 a 1763, envolveu a França e Inglaterra, pelo mau tempo ou por um estranho fenómeno apelidado de "gota negra", que perturbava a importante determinação do momento exacto dos contactos visuais de Vénus no Sol, quer a entrar, quer a sair -, essa era uma segunda oportunidade.

O capitão James Cook fez então a sua primeira grande viagem para ver o trânsito de Vénus de 1769, no Taiti, chefiando a expedição da Royal Society, e no regresso explorou a Nova Zelândia e a Austrália e descobriu ilhas. Levava o astrónomo Charles Green, do Observatório de Greenwich. Nos desenhos de ambos torna a aparecer a gota negra.

As expedições prosseguiram em força nos trânsitos seguintes, já com uma nova arma, a fotografia. Mas a gota negra lá continuava e, apesar de haver resultados, não eram muito rigorosos. Por ironia, a distância da Terra ao Sol acabou por ser calculada por outros meios, no fim do século XVIII e início do XIX. O interesse deste trânsito é agora mais histórico que científico, embora fascine sempre pela raridade. Mas a história promete continuar em 2007, quando a NASA lançar um satélite chamado Kepler. Vai procurar planetas noutros sistemas solares que passem diante das suas estrelas e lhes tapem um pouco da luz.

"Trânsito de Vénus - À Procura da Escala Exacta do Sistema Solar"
Autores: Nuno Crato, Fernando Reis e Luís Tirapicos
Editora: Gradiva
182 págs., 13 euros